MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Em 1º de agosto de 1996, 24 anos atrás, durante as Olimpíadas de Atlanta, eu saí mais cedo do trabalho, cheguei em casa e liguei a TV. Era a semifinal do vôlei feminino, Brasil e Cuba.

Que jogo bonito foi aquele. Para quem não lembra ou não era nascido, era a época de Fernanda Venturini, Ana Moser, Leila, Ana Paula, Márcia Fu, Sandra. Uma jogadora em especial me impressionou muito: Virna. Era a personificação daquilo que os jornalistas esportivos antigos chamavam de “raça” (e os novos, tão bobinhos, chamam de “entrega”). Em cada jogada, o rosto dela parecia dizer “Se eu precisar ficar aqui a noite inteira jogando, eu fico. Se eu precisar jogar até arrebentar meu braço, eu fico, mas EU NÃO VOU DESISTIR”.

Lá pelas tantas, comentando a boa performance da Virna, o locutor disse “que belo jogo, e pensar que no Brasil ela está sem time. É, Brasil, a Virna está desempregada!”. Naquele momento, meus olhos se embaçaram de lágrimas – e agora, enquanto escrevo estas linhas, também.

O resultado do jogo foi 3 x 2 para Cuba e o fim do sonho do ouro, restando a esperança do bronze.

Mas a questão não é apenas o jogo, mas todo o contexto em que ele ocorreu.

No dia anterior, 31 de julho, o “glorioso” futebol brasileiro também havia disputado sua semifinal, contra a Nigéria. Sabem aquela expressão do futebol “jogar de salto alto”? Bem, para nossa seleção, salto alto era pouco. Eles entraram em campo com um salto agulha de pelo menos 10 cm, meia fina de seda, uma mini-saia bem justa e um top enfeitado com cristais Svarowski. Ou seja, roupa de puta, mas puta muito bem paga, que é o que eles eram.

O Brasil começou o jogo com a postura “a gente ganha esse jogo a hora que quiser”. Fez três gols no primeiro tempo e a soberba virou desdém. Na volta para o segundo tempo, a atitude estava mais para “ai, que saco ter que ficar jogando em vez de ficar na piscina do hotel”. Já os nigerianos mostravam a mesma vontade de vencer que a Virna mostraria no dia seguinte.

Para não encompridar a história, a Nigéria virou e ganhou de 4 x 3. O time brasileiro saiu de campo com uma cara ofendidíssima, como se o adversário tivesse cometido uma grave indelicadeza ao vencer o jogo.

No dia seguinte, o da semifinal do vôlei, a TV deu a notícia (não me recordo se durante o jogo ou depois, no noticiário): o Brasil pediu aos organizadores em Atlanta para (caso ganhassem o jogo, naturalmente) receber as medalhas de bronze no mesmo dia, alegando que queriam retornar logo ao Brasil. O motivo verdadeiro era óbvio: a Nigéria disputaria a final com a Argentina, favorita, e os brasileiros não queriam correr o risco de ter que ficar no degrau inferior do pódio ao lado dos argentinos campeões.

No dia 2, a seleção de futebol ganhou de Portugal, recebeu suas medalhas de bronze sozinha no pódio e voltou correndo para o Brasil.

No dia seguinte, o vôlei feminino ganhou da Rússia em outro jogo épico e também conquistou o Bronze.

Neste mesmo dia, a seleção da Nigéria ganhou da Argentina (que também entrou em campo achando que o jogo já estava ganho). No pódio, Nigéria no alto, recebendo o ouro. De um lado, Argentina recebendo a prata. De outro lado, onde deveriam estar os covardes, medíocres, vagabundos, venais, indignos, infelizes e patéticos representantes do Brasil, havia um lugar vazio.

Eu senti uma enorme e profunda vergonha de ser brasileiro. E prometi que um dia, em algum lugar, faria meu desagravo às valentes mulheres do vôlei que representaram seu país com dignidade.

Obrigado, Berto, por me proporcionar essa chance.

13 pensou em “VINTE E QUATRO ANOS DEPOIS

  1. Caro Marcelo

    Ana Paula, que hoje também é gigante como comentarista política, no jogo contra as cubanas se atrasou para sair quadra e para voltar aos vestiários brasileiro, cuja porta estava fechada, teve que passar pela porta do vestiário de Cuba.

    Três jogadoras cubanas resolveram provocar, Ana disse que elas não sabiam ganhar. Logicamente tudo isso foi dito em meio a palavrões. Resultado as 24 atletas dos dois lados se envolveram em briga generalizada.

    Sabe qual o time de vôlei feminino que a Ana Paula considera como o melhor de todos os tempos? O time cubano que ganhou dela e que eles brigaram.

    Caráter é isso.

  2. Marcelo

    o seu texto mostra bem o nível que chegou o nosso pobre futebol, o 7×1 não saiu do nada, começou a sair dessa data.
    o atual nível do nosso futebol é de vomitar,faz 12 anos que não tenho coragem de pagar caro para ver uns pernas de pau que não assustam nem time de fazenda, são uns mortos que não marcam, não atacam ,não defendem, não chutam e tenho por mim que nem sabem o que estão fazendo dentro do campo.
    quando quero ler alguma coisa sobre futebol recorro aos livros ” A sombra das chuteiras imortais” e ” A pátria de chuteiras”de Nelson Rodrigues.

    • Rogério, eu até evito falar de futebol porque tenho birra com a seleção desde sempre.

      A seleção de 66 achou que já tinha ganho antes da Copa começar, e foi eliminada na primeira fase.

      A seleção de velhinhos em 74 comandada pelo Zagalo (que para mim sempre foi um burro teimoso) achando que ainda era 1970 e dizendo que foi “surpreendido” pela Holanda.

      As seleções de 86 e 90 me pareciam mais perdidas em campo que surdo em bingo.

      E por aí vai.

  3. Salvo engano o quarto gol foi de Kanu, numa jogada boba Rivaldo. Era mata-mata a prorrogação. A gente tem essa postura mesmo e andar de sapato alto, nariz empinado. O pior é que a derrota serve pra repensar, mas no nosso caso, não.

  4. Pela primeira vez ouso discordar do genial Bertoluci. RAÇA é o que se viu em Ana Moser e Ana Paula , que encararam as fenomenais, gigantescas, insuperáveis, deusas de tal esporte, as imbatíveis Mireya Luis, Regla Torres e Magaly Carvajal. Só de falar nessas cubanas maravilhosas arrepia-se Sancho.
    Hoje, ao insistir no comunismo, mesmo depois de secar a grana soviética que QUASE igualava os esportes olímpicos cubanos aos norte-americanos, o esporte na Ilha Paraíso vive de “recuerdos y soños”.
    EM TEMPO: o texto está magnífico.

    • Não discorda não, Sancho. Ana Moser, Ana Paula, Márcia Fu, todas elas personificavam a raça. Só destaquei a Virna porque foi uma surpresa para mim, ao contrário das outras.

  5. Beleza de texto. E pensar que quando Márcia Fu escutava as cubanas ofenderem com a famosa frase “pega chica” (acho que era isto) torci para que saíssem na porrada mesmo. No final fiquei de alma lavada…parabens Márcia Fu.

  6. Texto espetacular. Senti a mesma indignação e vergonha ao ver aquele pódium do futebol,sem o brasil, que fugiu como aquele do-não brinco mais. Putas de luxo é o que eram ,pois os treinamentos iniciaram no puteiro mor da confederação brasileira de futebol, cheia de cafetões .
    Brasil…. o páis do volei!

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