MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Sorvetes Kibon

O ano de 1984 foi marcado pelo segundo casamento de meu irmão Moacyr, que então morava no Rio de Janeiro.

Um verão de lascar o cano castigava os cariocas de tal sorte que duas coisas eram mais desejadas na praia do que um bilhete premiado: uma água de coco bem gelada e um sorvete Kibon.

Vida dura de quem estava reiniciando a vida de casado. Meu irmão não estava nem comprando ovo para não desperdiçar a casca.

A única propriedade do casal era um fusquinha marrom, velho e necessitado de uma boa manutenção. O estado do fusca poderia ser bem representado pelo acontecido no dia em que o casal, num gesto ousado, decidiu encarar uma churrascaria no bairro. Quando tentavam entrar no estacionamento o “flanelinha” da churrascaria avisou que não havia mais vaga, obrigando meu irmão a estacionar na rua, e assim foi feito. Na entrada da churrascaria notaram que o estacionamento estava quase vazio.

O principal problema era a aguda falta de dinheiro para mandar arrumar tão querido carrinho. As contas começavam a se acumular, o mês ficava cada vez com menos dias entre as contas e mais dias entre o recebimento dos salários.

No domingo seguinte um pequeno texto na seção “Vende-se” foi publicado em um grande jornal no Rio de Janeiro, anunciando que se vendia um fusquinha marrom necessitando pequenos reparos.

Um interessado ligou logo de manhã. Fez as perguntas de praxe. Meu irmão, extremamente honesto, fez saber ao potencial comprador que o baixo preço pedido era devido à necessidade de serem efetuados alguns reparos.

Quais?

Bem, havia um pequeno amassado no lado, a pintura estava meio desgastada, um para-choque estava um pouco torto, pneus, digamos assim, meio calvos, alguns parafusos estavam soltos e um farol queimado fechavam a lista do que precisava ser feito.

O potencial comprador, muito simpático, regateou um pouco o preço e explicou que estava começando um negócio e precisava de um veículo simples para fazer a entrega de seus produtos. Era o começo de um empreendimento, a vida estava difícil, e se a venda do fusquinha se concretizasse no preço oferecido por ele isso seria de grande ajuda para o início de seu negócio.

– Que ótimo! – disse meu irmão, já esfregando as mãos com a perspectiva da venda. – Fico feliz em poder dar-lhe uma mão para o início de seu empreendimento.

– Obrigado. Muito gentil de sua parte. Esse carrinho vem a calhar, mesmo com todos esses problemas, mas principalmente por ser marrom.

– Sério? Qual vai ser o seu negócio?

– Vou produzir sorvetes para concorrer com a Kibon!

– Maravilha. E qual vai ser a marca do seu sorvete?

– Kimerda.

E, soltando uma sonora gargalhada, desligou o telefone.

Não foi desta vez que o fusquinha marrom foi vendido.

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