A PALAVRA DO EDITOR

Coisa velha lembra ferrugem, porcaria, algo sem serventia. Velhice traduz debilidade, antiguidade, caducidade, decrepitude. Ambas as definições evocam a ideia de ocaso. Embora verdadeiras tais conceituações, é injusto considerarmos “coisa imprestável” quem se aproxima do limiar da existência.

Idoso é aquele que tem muita idade. Por conta do declínio da mortalidade, diminuição da natalidade, vacinações sistemáticas, saneamento básico e, sobretudo, dos avanços da medicina as pessoas estão vivendo cada vez mais. Por isso, novos conceitos estão surgindo para classificar os indivíduos de idade mais adiantada. A terceira idade de hoje, logo será a segunda idade de amanhã.

Na antiguidade, o ancião era visto com uma aura de respeito associada a experiência e a sabedoria. Uma vida longa era vista como uma benção. Não muito tempo atrás, chegar até a velhice era privilégio de poucos, hoje, é norma até nos países mais pobres. O que foi uma conquista do século XX se transforma num desafio deste século XXI. Em 2050, segundo projeções, um em cada cinco brasileiros será idoso.

Particularidades esclarecidas, vamos ao enfoque desta matéria: a “velhofobia”. A pandemia do coronavírus que se alastrou pelo mundo e chegou ao Brasil evidenciou a “velhofobia” de parte da população, para a qual os idosos são considerados um peso para a sociedade – esta é a opinião da antropóloga e escritora Mirian Goldenberg.

Pesquisando envelhecimento há 20 anos, Goldenberg diz que estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos. Segundo ela, tal tipo de discurso que chama de “velhofóbico”, sempre existiu, mas que ficou bem evidenciado por causa da Covid-19, onde idosos são considerados grupos de risco para a doença.

Homens e mulheres mais velhos, que já experimentam uma espécie de morte simbólica, ficam desesperados ao constatar que são considerados um peso para a sociedade, acrescenta a antropóloga, que afirma ainda: muitos dos que disseminam o discurso de ódio e extermínio dos mais velhos já passaram dos 60 anos.

Em resumo, o preconceito que se difundia de forma subliminar está se escancarando, sim, e afetando parcela de nossos idosos ao dar-lhes a ideia errada de serem estorvos ou algo sem serventia, e que a incapacidade laborativa e a decrepitude das quais são portadores os transformam em pesos mortos para a nação.

Diante de tal quadro negativista da pandemia, suas mentes afetadas pelo vírus da insensibilidade de muitos, concebem teorias mirabolantes tais como a de estarem dificultando a vacinação dos mais jovens, de ocuparem leitos de UTI’s destinados a entes mais produtivos e de serem a raiz do desastre econômico do país.

Nesse estágio da existência, eles lamentam a longevidade que desfrutam por causar o colapso da previdência pública; e, imaginam que somente a morte ou a extinção da população caduca sejam as soluções para todos os problemas do Brasil, como desejam mentes pervertidas contaminadas por maldade congênita.

Ainda bem que a “velhofobia”, entre nós, se encontra num estágio endêmico com pouca probabilidade de avançar para o epidêmico ou pandêmico. Mesmo assim incomoda e assusta os nossos frágeis anciãos, que sonharam encontrar paz, tranquilidade e carinho no crepúsculo de suas jornadas neste mundo e que, agora, padecem por haver descoberto nele total ausência de piedade e de amor ao próximo.

Certamente, não julgaríamos a velhice com tanto rigor se pudéssemos antever a celeridade com que nos imputarão, também, a pecha de “coisa imprestável”.

4 pensou em “VELHOFOBIA

  1. É assim mesmo…
    É desse jeito…
    E, à nós que compomos essa grande massa, que aliás “SOMOS MASSA” (no adágio de otimos, excelentes, poderosos…) nos cabe mostrar O QUANTO AINDA SOMOS CAPAZES E ATUANTES. PARABÉNS AO ESCRITOR!

  2. É um efeito colateral poderoso da marcha progressista mundo afora.

    Tudo que seja tradicional ou faça referência a ancestralidade está sendo ameaçado por esses bárbaros do terceiro milênio.

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