MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Na semana passada, o leitor Sancho manifestou, em comentários a esta coluna, certa decepção, por esperar um texto mais “caliente”, com lindas quadrigêmeas vietnamitas a lhe acalentar os pés.

Por coincidência, naquele mesmo dia eu estava trabalhando em um conto, cuja trama conta com corações bem mais aquecidos que os ‘Saltos Impossíveis”. Imediatamente pensei: é esse o novo conto que vai para a coluna no JBF esta semana!

Mas fui vencido pelos afazeres cotidianos e ainda não consegui terminar o conto.

Então, para não deixar Sancho e os demais leitores sem leitura esta semana, resolvi republicar um texto que foi escrito originariamente para esta coluna, mas hoje faz parte do livro “A manicure e outros casos de amor e traição”.

Quem não leu ainda, poderá ler agora. Para quem já leu, acredito que vale a pena ler de novo.

* * *

ENTRE AMIGOS

– Tenho um assunto meio delicado pra falar contigo – disse o Pereira ao Roberto, no meio da tarde da sexta-feira. Estava calmo, mas o olhar deixava escapar certa preocupação.

– Precisa ser agora ou pode ser depois do expediente?

– Pode ser depois. Sem problema.

– Tem happy hour hoje no Panela Velha. Será que dá pra gente conversar lá?

– Melhor não. Podemos dar uma passada no Bar da Tia Noélia? Depois a gente segue pro Panela.

– Beleza! – concordou o Roberto sorrindo, mas percebendo o tom preocupado do amigo.

No final da tarde, saíram do trabalho juntos e foram ao local combinado. Apesar do jeito sério como o Pereira falara horas antes, mantinham certa descontração.

Conheciam-se há mais de cinco anos, desde que o Roberto começou a trabalhar na empresa onde o Pereira estava há dez. Tornaram-se amigos rapidamente e era comum beberem juntos após o expediente. Geralmente iam com outros colegas de trabalho a um lugar – meio bar, meio restaurante – chamado Panela Velha, próximo à empresa. Mas, às vezes, saíam só os dois, principalmente se queriam conversar sobre temas mais reservados, como problemas de família ou aventuras com mulheres.

Se bem que, nesse segundo aspecto, quem sempre tinha alguma novidade para contar era o Roberto. Depois de haver passado por dois casamentos, vivia agora em uma união “quase estável”, como ele mesmo definia.

Já o Pereira, casado com a mesma mulher há quase vinte anos, limitava-se a ouvir e admirar a facilidade com que o amigo renovava as companhias femininas.
Depois de uns goles de cerveja e amenidades, o Pereira introduziu o assunto que motivara aquela conversa particular:

– Beto, eu queria ouvir a tua opinião sobre uma situação que um amigo meu está passando. Só que ele me pediu que eu não contasse pra ninguém, então eu não vou poder dizer de quem se trata. Pode ser?

– Claro, Pereira. E nem se preocupe, que eu não vou insistir pra você dizer quem é. Segredo é segredo.

– Pois é o seguinte. Esse meu amigo acha que está sendo traído. E, sendo bem sincero, eu não disse pra ele a minha opinião, mas acho que está mesmo…

– Pereira, tem um detalhe aí – interrompeu o Roberto. – Tudo bem que você queira falar do milagre sem dizer o nome do santo. Entendo e respeito. Mas, se esse “amigo” for um de nós dois, é melhor abrir o jogo…

– Que é isso, Beto? Se fosse um de nós dois, eu iria direto ao assunto! Não, amigo, não é de você nem de mim que estou falando. Se um de nós dois é corno, pode ter certeza de que eu não estou sabendo de nada.

– Nem eu… – emendou o Roberto sorrindo.

O Pereira também riu, mas parecia inquieto, talvez ansioso para chegar ao ponto central da conversa. Tomou um gole de cerveja e continuou:

– Ok. Então, vamos adiante. O caso é que esse meu amigo veio me dizer que a esposa anda com uns comportamentos estranhos, uns sumiços. Ele está pensando em investigar. Eu até acho que ele devia fazer isso mesmo. Só que eu tenho quase certeza que o cara que tá pegando a mulher dele é meu amigo também…

– Sério, Pereira? E um conhece o outro?

– Eles se conhecem, sim. Não são amigos… assim, de saírem juntos, mas têm algum contato e até se dão bem.

– E aí? O que você disse pro cara?

Pereira respirou fundo antes de responder:

– Por hora, disse só que ele observasse melhor e tivesse calma. Mas estou com uma preocupação danada que ele descubra tudo e dê merda… Se for como estou pensando, até o ambiente lá na empresa vai ficar ruim…

– Que coisa, Pereira! Quer dizer que o negócio é com colegas nossos! Não seria o caso de alertar o “Ricardão”?

– Era o que eu tava pensando em fazer. Mas fico me sentindo meio traidor… O cara me abre uma informação dessas, e eu levo para o outro lado?…

– Mas, é por uma razão nobre, amigo! Pra evitar uma tragédia…

– Com certeza, é um risco. Mas ainda tem outro detalhe. Apesar de o “Ricardão” ser muito amigo meu, ele não chegou a me dizer que está pegando a mulher do outro colega. Comentou que tá com um esquema novo, mas não disse quem era. Eu, que já tinha notado uns sinais, percebi o que estava acontecendo, mas fiquei sem jeito pra tocar no assunto com ele.

– Entendo. Se ele não quis lhe dizer, não lhe cabe perguntar…

– Isso mesmo! Porque, Roberto, veja bem. Você é amigo meu de longa data. Outro dia, você mesmo comentou comigo que estava saindo com uma mulher casada. Mas não deu nenhuma outra pista de quem seja. Você viu que eu não perguntei nada, porque penso exatamente assim: se você não quis me dizer é porque tinha razão pra isso. Mas é claro que fiquei imaginando se ela ou o marido não seriam pessoas do nosso círculo de amizades. Porque, afinal, se os envolvidos fossem pessoas alheias à minha convivência, você certamente me diria, como já disse outras vezes…

– É verdade…

– Já se fosse alguém próximo… por exemplo, o Mauro. O Mauro é nosso colega, mas é mais amigo meu do que seu. É gente boa. A mulher dele não é bonita, tudo bem, é até meio feia, mas é gostosa…

– Não acho ela feia, não. O conjunto é bom…

– Ok. O conjunto é bom – continuou o Pereira. – A gente vê isso toda vez que ela vai buscar ele lá no Panela. Você já viu, né? O Mauro, bêbado, senta no banco do passageiro; ela se abaixa pra prender o cinto de segurança dele; e a gente fica olhando para a melhor parte do conjunto. É ou não é?

Roberto acenou com a cabeça, concordando. O Pereira prosseguiu:

– Pois bem. Eu acho que a Mulher do Mauro, sabendo da amizade que eu tenho com ele, não daria mole pra mim. Se desse, eu me esquivaria. Mas, e se ela desse mole pra você? Você talvez pegasse. Arrisco dizer que pegaria, sem remorso. Pegava ou não pegava?

– Talvez, Pereira. Quer dizer… Talvez eu ficasse em dúvida, porque o cara trabalha ali, com a gente… Mas, sinceramente, só pela relação de trabalho que eu tenho com ele… Eu não deixaria de pegar por causa disso, não…

Pereira parecia ansioso para lançar a próxima pergunta:

– Então? Agora, diga, com a mesma sinceridade: se você estivesse enrolado com a mulher do Mauro, você me falaria?

Roberto refletiu por alguns segundos. Depois falou pausadamente:

– Sinceramente, Pereira. Não falaria, não. Não que eu tivesse medo de você contar a ele. Mas é que eu acho que você iria dizer que eu não fizesse isso, que eu tinha que me afastar imediatamente…

– Bingo! – exclamou o Pereira, dando um tapa na mesa, que fez várias bolhinhas dos copos de cerveja subirem ao mesmo tempo, até espocar na superfície.

Depois começou a falar como se passasse um pito no Roberto, mas em volume muito baixo, quase sussurrando. Chegou a inclinar o corpo em direção ao amigo, como para se certificar de que ninguém mais no bar ouviria aquela parte da conversa:

– Claro que eu ia te encher o saco, porra! Como é que tu achas que eu iria me sentir, se eu soubesse de um negócio desses? Um amigo como o Mauro, por quem eu tenho a maior consideração, sendo traído! E eu, convivendo com ele todo dia no trabalho, sabendo de tudo! Sabendo inclusive que o amante era outro camarada mais amigo ainda. Ia ser uma merda!

– Pô, Pereira, é verdade. Então seria melhor não te dizer mesmo…

– E eu entenderia perfeitamente. Mas, vamos complicar mais a situação. Suponhamos que o Mauro dissesse pra mim que ia contratar um detetive. Seria certo eu não lhe alertar?

– Pelo amor de Deus, Pereira! Nesse caso, você teria que me avisar, urgente.

– Pois é. Era essa a situação que eu precisava falar contigo. Esse meu amigo (que eu não disse que é o Mauro) acha que está sendo traído. E me disse que pretende contratar um detetive pra seguir a mulher. Agora me diga: se a mulher casada que você vem pegando ultimamente (que eu não estou dizendo que é a mulher do Mauro) for a esposa desse amigo desconfiado de quem falei? Esse, que pode até ser o Mauro, mas ninguém confirmou que seja? Não seria bom você saber?

– Seria, meu amigo, seria. Vou te dizer uma coisa, Pereira: é nessas horas que a gente conhece uma amizade verdadeira! Faça o seguinte: dê um apoio a esse seu amigo desconfiado. Esse que você não disse que é o Mauro. Se for o caso, até vá com ele conversar com o detetive. Faça isso: ajude seu amigo a tirar isso a limpo. E não se preocupe comigo. Quer saber? Eu já tô até com remorso, por estar pegando uma mulher casada. Não que seja a mesma. Não é isso que estou dizendo. Embora ela seja mesmo casada com um amigo…

– Não dê mais pista, não, Betão. Vamos deixar isso pra lá…

– Então, tá certo. Deixemos isso pra lá. Vamos fazer um brinde à nossa amizade e tocar o barco pra frente!

Roberto falou as últimas palavras sorrindo e enchendo novamente o copo de cerveja. Estava feliz por ver confirmada a lealdade do amigo. Pereira também relaxou:

– Beleza, Betão! Assim é que se fala!

– Isso é nada, rapaz! Vamos tomar a saideira, que ainda dá tempo de encontrar o resto do pessoal lá no Panela.

O assunto estava encerrado. Tomaram a saideira, pagaram a conta e foram-se.

A vida seguiu o seu curso normal. O trabalho, os encontros regados a cerveja com os colegas, os olhares para a parte de trás da mulher do Mauro, quando ela ia buscar o marido bêbado ao final do happy hour.

Umas quatro sextas-feiras depois, quando deixavam o tradicional encontro com os colegas no restaurante Panela Velha, Roberto perguntou ao Pereira como tinha ficado o caso do amigo traído.

Pereira disse que o detetive fora contratado, mas não havia descoberto nada. Uma semana seguindo todos os passos da mulher e ela frequentara apenas shopping centers, lojas de decoração, uma academia de ginástica e o próprio trabalho dela. O amigo dizia que só não lamentava o dinheiro gasto, porque recuperara a confiança na esposa e a própria paz de espírito.

Depois de dar todos os detalhes, sem dar o nome de nenhum dos envolvidos no caso, Pereira forçou uma mudança de assunto:

– E o futebol de amanhã, Beto, lá no sítio do Batista? Tu vais?

– Tô com vontade. Vai ser departamento contra departamento?

– Vai. Mas, se algum time ficar muito fraco a gente mistura.

– Beleza! – animou-se o Roberto.

E já começava a se despedir, quando fez uma pausa e perguntou:

– Só mais uma coisa, Pereira…O Mauro vai?

– Disse que vai.

E despediram-se. No dia seguinte, os colegas de trabalho reuniram-se para a prática do esporte preferência nacional.

Cerveja e churrasco depois do jogo. A animação de costume. Alguns deram pela falta do Roberto, que acabou não aparecendo. O Pereira explicou que, na última hora, ele tinha mandado uma mensagem para o seu celular, avisando que não poderia comparecer. Tinha amanhecido com diarreia.

– Eu também não acordei muito bem – completou o Mauro. – Será que o Roberto comeu o mesmo que eu comi?

Ninguém respondeu.

3 pensou em “VALE A PENA LER DE NOVO

  1. Seria covardia, muita covardia… Deixar Sancho e os demais leitores sem leitura seria e é imperdoável, caríssimo togado fubânico. Ainda mais que minhas quadrigêmeas vietnamitas só dormem com Sancho lendo alguma coisa de nossos excelentes colunistas. Seria imperdoável se elas fizerem greve de sexo se eu não tiver material de primeira, para leitura antes da hora do “soninho” das belas.

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