MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Se você não acredita na sorte, azar o seu.

“Acredito em sorte. Do contrário, como explicar o sucesso de pessoas das quais não gostamos?” Jean Cocteau

A palavra é relativamente nova. Advém de coisa trágica associado a um sinal de desgraça e, supersticiosamente, ligada ao urubu. Tragédia em tupi é URU, ave e WU, negro. E y-re-bur, fedorento…

Seu uso consolidou-se em 1918, durante a violenta gripe espanhola. Na época, pronunciava-se urubucaca, mas firmou-se como urucubaca.

Analogia para lá de infeliz e anacrônica, uma vez que os urubus possuem um papel fundamental na manutenção de ecossistemas saudáveis. Por causa de sua dieta necrófaga (de comer animais mortos), são verdadeiros “faxineiros alados”, mantendo os ecossistemas limpos, sendo responsáveis pela remoção de carcaças. Com isso, eles ainda evitam a propagação de doenças e bactérias que poderiam adoecer ou matar outros animais, inclusive o ser humano.

Mas, infelizmente, no entender dos ignaros, o urubu, além de “repulsivo” é considerado uma ave de mau agouro que pressente a morte.

O relato que trago, sobre dramas de sorte ou não, poderiam ser amenizados se, porventura, soubessem ou conhecessem a amiga conterrânea e mentora do Editor, D. Gina, catimbozeira de primeira linha, dirigente do mais competente terreiro de Palmares. Vejamos então:

O RAIO NÃO CAI DUAS VEZES NO MESMO LUGAR?

Coincidência, azar, falta de sorte ou muita sorte? Conclua você mesmo.

1 – Sr. Tsutomu Yamaguchi. Japonês que experimentou a explosão de duas bombas atômicas lançadas pelos EUA no Japão. Morador de Nagasaki, se deslocou a trabalho para Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945, quando caiu a primeira bomba atômica. Sofreu terríveis queimaduras e danos físicos. Um pouco melhor, três dias depois preferiu retornar para junto da família em Nagasaki para poder se tratar melhor. Ao chegar à cidade, em 9 de agosto de 1945, testemunhou a segunda explosão atômica.

2 – A comissária de bordo em navios famosos, Violet Jessop, é um caso a se pensar: Ela embarcou no RMS OLYMPIC , que colidiu com o HMS Hawke, em 1911, por conta de um forte nevoeiro na costa francesa. Conseguiu novo emprego 1 ano depois no RMS Titanic (aquele, do filme). Sobrevivente de sorte e obstinada, Madame Violet, outra vez foi trabalhar no navio HMHS Britannic, que naufragou no mar Egeu, em 1916, quando colidiu com minas naquela localidade. O maior transatlântico da Inglaterra (muito superior e melhorado do que o Titanic) afundou em apenas 55 minutos, com somente 351 dias de vida. Violet conseguiu escapar em um dos botes e sobreviveu ao desastre também.

Como se não bastasse, depois de passar por três tragédias marítimas, Violet Jessop continuou a trabalhar como comissária de bordo até quando pôde. Ela faleceu em 1971.

3 – Melanie Martinez perdeu 5 casas. Os furacões Betsy (1965), o Juan (1985), o George (1998) e o Katrina (2005), no estado da Louisiana. Por último, após intensa campanha na mídia, ela foi agraciada com outra casa. Mas um outro furacão chamado Isaac, acabou abruptamente com o seu novo imóvel.

4 – Socorrido por três vezes, o americano Erik Norrie foi vítima de três assustadores infortúnios selvagens: A tacado por um tubarão, atingido por um raio e mordido por uma cascavel!

FALTA DE SORTE – OU VISÃO? – THE BEATLES

5 – Mike Smith, estava no comado da gravadora DECCA em 1960 quando, mesmo gostando do som dos Beatles, dispensou por não concordar com gastos de deslocamentos e hospedagem do quarteto, de Liverpool a Londres.

6 – Pete Best foi o baterista dos Beatles no começo, quando a banda ainda tinha o nome de The Quarrymen. Tocava melhor que Ringo Starr e era, dizem, até mais bonito. Por ser equidistante, não compor e por sua recusa em aderir ao penteado da Banda, Paul McCartney telefonou para o baterista e o “demitiu”.

Vendo o estrondoso sucesso dos Beatles, Pete Best até tentou se suicidar. Hoje faz pequenos shows cantando sucessos dos Beatles, mesmo sem ter efetivamente feito parte deles

SETE VIDAS – O homem com fôlego de gato

Frane Selak, 1929 – músico nascido na Croácia e hoje aposentado.

1962 – Acidente de trem que caiu num espetacular mergulho num rio congelado. Só ele sobreviveu.

1963 – durante o voo, a porta do avião se desprendeu. Selak foi arremessado para fora do avião – detalhe: sem paraquedas. Foi encontrado e resgatado inconsciente sobre um monte de fenos, sofrendo apenas alguns arranhões. Os outros passageiros do avião morreram.

Três anos depois, o ônibus em que viajava, despencou e caiu num rio. Salvou-se nadando até a margem com pequenas escoriações.

Selak resolveu passar uns tempos longe de trens, ônibus e aviões. Ao volante, numa inocente voltinha de automóvel, o carro pegou fogo por completo. Ele saltou e correu escapando a tempo da forte explosão ocorrida.

Ressabiado, resolveu comprar um automóvel novo. Este durou só três anos, quando explodiu causando ferimentos e queimaduras. Nada além disso.

Ficou mais de 20 anos sem sofrer acidente algum. Achava que tudo que havia de ruim já tinha acontecido na sua vida.

Só para não perder o costume, Selak sofreu um atropelamento de ônibus durante uma inocente caminhada em Zagreb, socorrido, saiu-se mais uma vez, ileso.
Em 1996, Selak, dirigindo em regiões montanhosas, percebeu que um caminhão vinha em sua direção, forçando-o a ir de encontro a uma barragem, mergulhando de uma altura de mais de 90 metros quando, pasmem, arremessado pela janela, segurou-se numa pequena arvore enquanto seu carro explodia e se esborrachava no desfiladeiro.

Para quem achava que a sorte dele tinha se acabado, em 2003, decidiu pela primeira vez, fazer uma fezinha numa casa lotérica na Croácia, onde foi sorteado com o prêmio de 1 milhão de dólares.

De posse de uma boa conta bancária e com a venda de uma casa adquirida numa ilha, Selak fez generosas doações a amigos e parentes. Apenas reservando um pouco para uma pequena intervenção cirúrgica na região dos quadris e levantar uma capela em honra a Virgem Maria.

Recusou-se a viajar para gravar um comercial na Austrália, sob a alegação de que “não queria testar sua sorte novamente”.

2 pensou em “URUCUBACA

  1. Dom Marcos André:

    Muito interessante a sua crônica.

    Apenas uma discordância.

    Como conheço bem o tupi antigo e o moderno, assim como o guarani antigo e o moderno, sinceramente, não sei de onde surgiu a afirmação:

    “Tragédia em tupi é URU, ave e WU, negro. E y-re-bur, fedorento….”

    Será que não houve má informação?

    Sabe-se que ambas línguas, com o correr do tempo, tiveram muitas modificações, a maior parte por sons – que não havendo em português – foram adaptados aos mais semelhantes nossos, ou por “relaxamento” lingüístico mesmo.

    Um caso clássico é o som gutural (do tupi e do guarani) – que modernamente – se combinou (em congresso destas línguas) escrever com “y”, e que antigamente, nos dicionários e gramáticas (como os de Anchieta) se representava com “ig”, que é um som, foneticamente desconhecido no português – que para os menos avisados – ora se transforma, na escrita, em “i” mesmo, ora em “u”.

    E, nos topônimos, vê-se isso acontecer freqüentemente, como em “Itaú” ou “Itaí”, em que esse “u”/”i” final é o som, atualmente, grafado como “y” (originalmente, significando “água”, mas que, nos topônimos, se traduz por “rio”)

    Daí, “itaú”/”itaí”, deve-se traduzir por “rio das pedras”, já que “itá”, comuníssimo na toponímia brasileira” é “pedra”.

    O mesmo acontece com “v”, que muitíssima vezes é escrita com “b”, ainda mais nas obras de Anchieta – que não esqueçamos que ele era de origem espanhola, onde o “v” e o “b” tem o mesmo som.

    Então, vê-se escrito, “igrigbu”, onde hoje é escrito “yryvu”.

    Como esse “y” – como já expliquei antes, ora é ouvido como “i”, outras por “u” – em “yryvu” (grafia moderna), mal ouvido, ficou “urubu”.

    Mas, continuando: ave, pássaro (“guyrá”), nos topônimos ou em nome de pássaros, também, se “estropiou” com o tempo, chegando a perder “pedaços”, transformando-se em “güirá” – e daí – em “grá” ou em “uirá”, mas não em “urú” (“urú(ru” = cesto).

    Por exemplo:

    graúna < güirá+úna (gra < güirá (ave, pássaro) e "úna" (preto/a), ou seja, "ave preta", "pássaro preto".

    Logo, "wu" – para traduzir o adjetivo "preto, negro", desconheço.

    Assim como "y-re-bur" para "fedorento".

    É "né/nê", como em "ipané", onde "ipá" ["ypá"] é "lago, lagoa" e "né/nê" fedorento, mal cheiroso", ou seja, "lagoa fedorenta, mal cheirosa".

    Apesar de ter dicionários e gramáticas e estudar a fundo ambas as línguas (tupi e guarani) antigas e modernas – há muitos anos, quem sabe se alguém – mais perito nelas – pode me esclarecer, o que são os tais de "wu" e "y-re-bur".

    Se são de outras línguas indígenas, também.

    Ou transcrição fonética mal feita de palavras indígenas, por desconhecimento do seu sistema fonético.

    Aliás, uma outra coisa: é comum qualquer palavra cujo significado desconhecem – principalmente, topônimos, "peritos" inventam que é origem "tupi-guarani" – como se houvesse essa língua, e dão, o que é pior, as traduções mais estapafúrdias.

    Que o tupi é mais antigo que o guarani (e, possivelmente, o deu origem) é fácil comprovar, mas criar uma língua denominada "tupi-guarani" é grotesco.

    Seria como se eu dissesse, por exemplo, tal palavra é da língua "latim-português", ou, então, da língua "italiano-francês", como se fossem uma, por causa de suas origens comuns.

    Isso "no ecziste", diria, no seu portunhol, sabiamente, o Padre Quevedo.

    Ou é tupi ou é guarani, nunca tupi-guarani.

    Um baita abraço,

    Desde o Alegrete – RS,

    Adail.

  2. Salve, Salve! Mestre Dom Adail.

    Que maravilha de comentário.
    Se todo comentário fosse desse naipe, teríamos saborosas aulas como a que você nos presenteia.
    Confesso que devido a minha infinita limitação linguística, lancei mão do google de algum dicionário etimológico Tupi ou Guarani, daí o flagrante deslise.
    Para quem só tinha intenção de associar o nome URUCUBACA a situações de sorte, eu e os leitores fubanicos, tivemos a sorte e o privilégio de recebermos um comentário em forma de crônica/aula, rico em ensinamentos e detalhes de nossa língua original.

    Seus comentários sempre enriquece o JBF, com sua formula de transmitir vossa erudição em entendimento acessível a todos.

    Forte abraço, junto com minha grande admiração.

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