FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

Apavorado, amigo de longa data, tempos recifenses, me liga quase desesperado para o telefone da minha salinha residencial de trabalho. Declarando-se de pernas bem fechadas, tronco semi-curvado a la frei Damião e olhos arregalados, foi logo desabafando: “Nando, quando é que vão instituir o SOS Pinto, uma ong para salvaguardar os interesses dos que ficam, na maior parte da vida útil , de cabeça baixa?. Não se pode ser omisso, ficando de pernas cruzadas, diante das giletadas, mordidas, foiçadas, águas ferventes, torcidas propositais e unhadas mórbidas que estão no noticiário jornalístico diário, praticadas por todos os gêneros, do hétero ao LGTBSDTYZ”.

Avaliando, do meu canto, o medo estampado nas duas cabeças do amigo querido, boemia frente e verso e muito mel de décadas, recomendei-lhe tomar um chá bem frio (quente ele poderia entender como uma intenção mórbida!) e busquei introduzi-lo num assunto menos cacete para o momento. Pedi esclarecimentos, assegurando-lhe que estava pronto para o que desse e viesse, pau pra toda obra.

O que eu ouvi merece a criação, em regime de urgência, de uma Ong especializada no combate aos que atentam para a integridade física de um dos responsáveis, sejamos diretos e duros, pela perpetuação da espécie humana, que paulatinamente vem se assenhoreando da História Cósmica. Os relatos dele, sob hipótese alguma, não deixam água na boca. Não respeitam qualquer tamanho, vitimando encapuzados e carecas. Maculando até os derredores, simples containers de material liquefeito.

E o amigo de longa data ainda revelou um outro inconveniente: todos os dirigíveis vitimados não tinham caixa preta, impossibilitando qualquer anotação acerca do acontecido durante os preliminares procedimentos de subida.

Imaginei algumas iniciativas atenuadoras:

1. Proibição, nos locais adequados e específicos, de portar qualquer instrumento cortante, estrangulante ou perfurante, inclusive dentaduras e pontes;

2. Instalação, nas portas de entrada dos ambientes lovelescos, daqueles detectores de metais utilizados nos aeroportos e bancos, recolhendo-se canivetes suíços, beliros de cabelo, tesourinhas, alicates de unhas, correntes de todos os tamanhos, fios dentais, alfinetes, canetas de pena, clips de metal, cadarços de sapatos e fivelas de todas as marcas;

3. Posicionar, ao lado de cada uma das portas de entrada, funcionária devidamente capacitada, que ajustaria os tamanhos das unhas da clientela, deixando-as em grandeza inofensiva.

Na área judicial, acredito que as mais diversas varas também ficarão sensibilizadas com a problemática, devendo erguer-se duramente na defesa das vítimas de dentadas erradicadoras, decepações simples, decepações com esmagamentos, estrangulamentos e beliscões dolosos e culposos.

Os seguros-saúde com certeza reformatarão suas apólices, autorizando cirúrgicos remendos, restaurações e transplantes de pintos novos e velhos, cada solicitação devendo ser avaliada por uma junta cujos membros entendam do riscado, sabendo rapidamente decidir, sem frigir os ovos.

Que o SOS Pinto seja brevemente inaugurado, favorecendo nobilíssimas missões de cabeças erguidas, para que todos possam continuar desbravando interiores de todos os tipos, cuspindo sempre com muita energia, apesar dos perigos. Pois adentrar é preciso, embora viver não o seja tanto.

2 pensou em “UMA ONG PARA A PÓS COVID-19

  1. Declaro o meu apoio ao lançamento do SOS Pinto, “favorecendo nobilíssimas missões de cabeças erguidas, para que todos possam continuar desbravando interiores de todos os tipos, cuspindo sempre com muita energia, apesar dos perigos.”

    Estamos juntos.

  2. Nessa cruzada, Estou pela aprovação em número, grau e, principalmente, género.

    Antes que a mente misture tudo e só reste ao suplicante ter que “matar a cobra”…

    Seguir em frente e de cabeça erguida… haja o que hajá.

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