MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Era uma vez, lá pras bandas do interior do sertão nordestino, vários bestafubanenses antenados mas, desavisados, acessaram a live das quintas-feiras e que, por algum motivo, tiveram que se ausentar da frente do computador. Em vários deles, juntaram alguns enxeridos (filhos, sobrinhos, parentes, aderentes e agregados) e se aproveitaram da situação bisbilhotando tanto a live, quanto todas as páginas do JBF.

Ficaram deslumbrados com o que viram. Um mundo fantástico!

Travaram entre si, diálogos ininteligíveis (para ouvidos poucos afeitos ao pernanbuquês/nordestinês) que mais parecia alienígena, literalmente. Assistiram e ficaram extasiados com a tal da “live”, e das páginas dos colunistas.

– Se aprochega aí, bando de cabra macho. Vamos ver essa tuia de véio maluco, falar.

Umbora! Tio só vive dizendo que esses caba são o “cão chupando manga”!

– Diz que teve um fi de uma égua que botou o nome da laive de Cabaré do Berto.

Oxente! Tá com a mulesta! E quem toma conta de cabaré, né mulé? Ou esse cafetão é frango?

Boto fé não, visse! Já vi até uma foto desse tal do Berto, vestido de pai de santo.

– O pior é que nesse ambiente a gente só vê duas nêga? Violante e a Renata… aquela que só falou do português, coitado.

– Será que é um cabaré rochedo, tipo assim, zona?

– Ôxente, abestado! Necas de pitibiriba. Vou te dar logo o bizu. Larga de ser abilolado. Tu num atentou não, que é um cabaré diferente… cheio de resenha e miolo de pote?

– É verdade. E eles bole com todo mundo. Bole com corno, frango, rapariga, portuga, boteco, motorista, professor, malandro, ninguém escapa.

– Vamo espiar? Tô até agoniado. Acho que vai ser massa! Pois até Jesus dá as cara nesse cabaré toda quinta-feira.

– Jesus?

– Mas é outro tipo de Jesus, tabaréu! É um Jesus cheio de gréia… de santidade ele num tem é nada. Tira muita onda, fala uma tuia de prezepada… umas histórias espichadas, cheias de leras. E quando dá na telha, faz tudo bem rimado, igual cantador.

– Esse Jesus é de onde?

– Diz ele que é lá das bandas do Acarí.

Vixemaria! Deve ser pra lá da baixa da égua, então.

– Isso é leseira. Na laive desse cabaré, tem gente de tudo que é canto.

– E aí, nós vai chamar de laive ou cabaré? Pois Berto, o gerente, que é um cabra de pêia, desembuchou, sem ficar encabulado, que esse tal nome, “laive”, é coisa de quem “peida na salchisa”!

Rapá… vai ver então que é por isso que ele botou pra torar, falando das gaia dos cornos.

– Pra mim, cabaré e laive, é quando um abilolado fica falando e uma tuia de abestalhado fica escutando e dando gaitada.

– Tu intende essa língua deles?

Marromeno. Num é muito diferente, não. Até o Nelson Feitosa, que desandou sobre as fala dos cearences, eu intendi.

– E a “laive” do tal do Adonis, tu visse? Amostrado todo. Disse que andou lá pras bandas das zoropa, leste oropeu, oriente… deve ficar lá nos cafundó do Judas. E que ainda andou xunbregando com as nega branquelas, de lá.

– Vi sim. Diz que ele é brabo que só uma capota choca.

– É mermo. Outro dia ele arengou com um tal de Altamir. Minino!!!… Foi xingamento pra todo lado. O Altamir pegou ar. Foi ameaça de sentar a mão no focinho de um, pra lá… plantá-le a mão no pé do tôitiço do outro, pra cá. O que se via de cabra safadoalma sebosavocê pegou em merda… Num foi brincadeira. Um tem a Língua Ferina e o outro é Segunda Sem Lei, Igual cobói lá do sertão dos zamericano. Teve até desafio de duelo por tabefe, peixeira, badoquenenhum arribou, não…são dois nó cego da gota serena.

– Mudando de assunto, tu viu aquele cabra, Fernando Gonçalves, mangando das fala da gente?

– Tava mangando não, cumpade! Tava explicando.

-E precisa?

– Pra esse bando de zé ruela, que são meio aruá, precisa sim.

– E quem tu achou o mais amostrado, dali?

– Eu tive matutando… uns acha que é o tal do Goiano, outros, um tal de Roque Nunes.

– O Goiano é todo metido a sebo. Conta que já morou um tempão nas zoropa, só quer saber de viver socado num salão de beleza de macho, usando arco, tarco e verva.

E o tal do Roque, alem de tá sempre com preguiça, gosta de arriar a lenha nos tanga no aro e ainda se acha o Elvis Presley. O caba tem Roque até no nome, espia!

– E aquele outro cabra… de Leão, De Léon, sei lá. Todo esquisito. Ninguém nunca viu o fucinho do cabra. Usa sempre máscara e fantasia. Diz que é porque ele andou metendo o pau nos baitolas do lugar onde ele mora.

– É, mas o zunzunzum que corre, é que ele é o tampa de crush, por lá. O saberete.

– Tu acha ele mais esquisito do que aquele guenzo, o Sancho?

– Sancho? Aquele cheio de munganga? que parece um sibito baleado, meio tantam e já se fantasiou até de esmolé?

– Ele mermo. Mas, (olha o mas ai, gente!) diz que o cabra é bom! O miziguento escreve em brasilêro, americano, ingrês, oropêu, tudo que é fala istrangêra.

– Até chinês?

– Chinês, não. Parece que quem intende tudo de chinês é aquele… meio tamburete… o tal de Rômulo.

– Não sei se é defeito do computador. Ora ele parece pixototinho… vai ver ele é cumprido que nem um vara-pau… sei lá!..

– Diz que o Sancho escreve tanto, que deixa nós mais perdido que marinheiro na Bolívia. É pra fuder o tabaco de chôla. Na coluna dele é conversa até umas horas… conversa ali, é mato.

– É verdade. Tem coisas nessa laive que a gente fica mais por fora do que pensamento de preso.

– E o Assuero? O caba tem um nome desse e ainda é cheio de pantim. Ele que inventou essa tal de laive, ou cabaré. Ele quer que nós pare, olhe e escuta a laive, toda quinta..

– E os fuleiros? Tem um Marcos André. Cara de cabuloso… gordo que só um porco baé, só sabe ficar amolegando o bucho e se abrindo durante as laive.

– Ouvi um fuxico de que, quem fica avexado pra abrir o cabaré é um tal de Maurino, que faz pareia com Neto Feitosa, num param de dar gaitadas!

– Diferente de tudinho, eu só achei aquele dotô juiz adevogado, Marcos Mairton. O home só falou de coisa chique: cantoria, escrita e os direito.

– O cochicho é que o Altamir e o Adonis, ficaram foi torando um aço da porra que o buruçu entre eles fosse parar na mão desse dotô juiz adevogado, e ele desse o maior carão, neles..

– Num é pra menos, compadre! diz que os dotô juiz adevogado, tem uma tal de vara… minino!!! … quero nem ver… deixa qualquer um borocoxô. Falou em vara, tudo se aquietou. E graças ao padin pade Ciço e um monte de corta jaca, ficaram sossegados, quieteinhos… parado… que nem gelo baiano.

– Home…pelas gaitadas que esse bando de tabaco leso dá durante a laive, parece até que, antes, eles enche é o cu de cana!

Armaria… sei não visse! Só sei que aquela Violante é uma mulé bonita da cebola!

– A Renata é uma arretada, também.

Pelejo pra um dia assistir as laive delas! Será que esses machos vão deixar? Vamos esperar, né?.

– Também falta o Aristeu e muitos outros tabacudos tirarem o cabaço nessa laive.

– Essa laive é um desmantelo dos cachorro da mulesta, é igual a feira, tem de tudo.

– Vou lá… tô chegando.

– Já vai, compadre?

– Vou sim… quinta-feira eu num vô perder.

27 pensou em “UMA “LIVE” DA CAROCHINHA

  1. Sensacional !!!

    Que descrição esplêndida desses momentos tão especiais das assembléias de 5af e dos seus integrantes fubânicos.

    Me danei de dar gargalhadas com a descrição de cada perfil, inclusive do meu.

    Adorei !!!!!!!!!

    👏 👏 👏 👏 👏 👏 👏 👏👏
    (copiei e colei os emoticons das palminhas, mas não sei como é que vai ficar, depois que enviar).

    Um grande abraço caro Marcos André

  2. Eu disse ao Papa Berto, egrégio, douto e honrado dono desse Cabaré, que eu só me junto com gente malassombrada!!! Vai vendo só: Marcos Mairton, Sancho, Goiano, Marcos André, Roque, Professor Fernando, Adônis, Pablo, Rômulo, De León, Neto, Assuero e tantos, tantos outros.
    Eu tenho uma verdadeira admiração e carinho por essa turma, uma vez, que nunca imaginei que iria conhecer essa ilustre plêiade e muito menos fazer parte dela. Obrigado a todos por todas essas quintas, onde eu, literalmente, me lasco de tanto que dou risada, até chegar a passar mal!!!
    O meu abraço e obrigado a todos!!!
    E hoje é dia de mais furdunço!!! Vôte!!!
    Oremus.

  3. Maurino: Obrigado pela partícula que me cabe. Apenas um lembrete fraterno: quem se esquece de Jesus se …ode!!! rsrsrsrsrs

  4. Vai vendo só: Marcos Mairton, Sancho, Goiano, Marcos André, Berto, Jezuzim, Roque, Renata, Professor Fernando, Adônis, Pablo, Rômulo, De León, Neto, Assuero e tantos, tantos outros já deram seu recado.

    São tantos e tão loucos… Ainda bem que os hospícios foram se perdendo no passado e AGORA cada família cuida de seus loucos. E a família fubânica, que até cabaré possui, cuida com MUITO AMOR E CARINHO de todos nós, essa gente maravilhosa que canta, poeteia, encanta e proseia que é uma maravilha.

    Espero que a cada semana os mais tímidos vão deixando de lado os MEDOS e se apresentem a Assuero para encantar o seleto e gigantesco grupo fubânico, a maior FRAATERNIDADE ENLOUQUECIDA que existe na galáxia.

    Aproveito a deixa para, mais uma vez, justificar minha ausência, pois tenho iniciado às tardes de quintas e sextas (15 horas em diante) meu expediente na estrada (ganhar o pão se faz necessário) e EM VIRTUDE das fortes chuvas na capital paulista neste período tenho deixado o caminhão em lugar seguro ao final da tarde e só retorno ao lar (SBC) depois da 21horas.

    Um beijo no coração de todos e até sempre…

  5. Ahhhhhhhhhhhh!!!!

    Ganhei o dia, a semana, o mês!

    Vi meu nome citado em nobre companhia.

    Orgulho, orgulho, orgulho!!!

    Logo estarei lá de novo

  6. Eita descrição da gota serena!!!

    Meninos,,,
    Antes de descobrir o JBF, eu vivia numa solidão de dar dó. Parecia até cachorro que caiu de caminhão de mudança.

    Eis que de repente, não mais que de repente, do nada, me surge pela frente uma multidão de cabras muito mais malucos do que eu. Um nível de doidera que eu nunca jamais havia imaginado que fosse possível.

    Com tudo que é confusão, brigas, baixarias, encrencas, porradas, xingamentos…
    É bom demais fazer parte de uma confraria que reúne o que existe de mais representativo desse Brasil de malucos.
    Até comunista parisiense tem. Já pensou???

    • Esquerda caviar, é assim: reunião numa cobertura da Vieira Souto, Champanhe francesa, cocaína, wisque Royal Salute, charuto cubano…para traçarem os novos rumos progressistas pra melhorar o mundo.

      Depois, o carro blindado com chofer e segurança vem buscar cada um dos “filósofo” dos salvação, para dormir em seus lençóis de seda… onde sonharão com um mundo melhor para todos.

  7. Eita, Marcos André! Que texto amável, bonito e inteligente! Esse desfile de fubânicos agradou a todos., Sua crônica carinhosa fez crescer o apreço que, tenho certeza, todos nós temos por você!

    Parabéns por essa preciosidade! Grande abraço!

    • Fico extremamente grato, Violante.
      Sou fã de carteirinha do JBF.

      Escrevi movido pelo carinho e grande admiração que tenho por todos vocês.

      Um forte abraço.

  8. Pingback: UMA GAZETA QUE ACABA A SOLIDÃO E DÁ SENTIDO À VIDA | JORNAL DA BESTA FUBANA

  9. Nosso pernambuquês é riquíssimo, singular e repleto de simbolismos. A leitura provoca no imaginário a visualização dos cabras refletindo os desdobramentos tecnológicos com muita filosofia raiz. Muito bom, querido Marcos! Gratidão pela obra.

  10. Cara Cenira, seu elegante comentário me envaidece muito.
    Assim eu fico “arriado dos quatro pneus” pelas palavras carinhosas e me incentiva mais ainda em continuar escrevendo e expondo meus toscos alfarrábios…

    Um grande e afetuoso abraço na família.

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