MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

Vosmecê já se viu frente a frente com uma onça? Sim? E com duas? E não desmantelou as tripas?

Pois bem, no sertão de Mato Grosso, nos idos dos anos 1950, meu pai trabalhava em uma empreiteira construtora de estradas de rodagem. À época o trecho em construção pertencia ao que é hoje a BR-364 nas imediações de São Vicente, a uns 90 quilômetros de Cuiabá.

Vivíamos em acampamentos de casas pré-montadas de madeira, que eram mudadas a cada 6 meses, acompanhando o ritmo da construção da estrada.

Meu pai, Miguel Bezerra, então responsável pelo almoxarifado, era encarregado de levar suprimentos para a linha de frente: ferramentas, brocas, ferragens, etc. Quando o material era volumoso uma pequena camionete era o meio de transporte. Quando eram de pequenas dimensões os materiais eram acomodados em um cesto dianteiro de uma bicicleta alemã Goricke, que era um orgulho do velho.

Um belo dia, perdido nas brumas do tempo, o sr. Miguel teve que levar algumas bananas de dinamite para a tarefa de explodir umas grandes pedras na linha de frente. À vista de minha alegria em poder acompanhar e ver os trabalhos de construção, resolveu levar-me junto. E lá estava eu, um moleque sacudido, montado na garupa da Goricke e segurando inocentemente uma caixa com um pacote de bananas de dinamite, com meu pai pedalando por uns três quilômetros pela trilha já aberta pelos tratores.

O pacote de dinamites foi entregue sem problemas, e era a hora de voltar. Já havíamos percorrido a metade do caminho de volta quando um cheiro de carniça avisou que havia onça por perto. Logo em seguida vimos dois lindos animais a uns 30 metros de distância, calmamente devorando um veado recém abatido. Eram duas onças bem arretadas que interromperam a refeição para seguir-nos com os olhos.

Como qualquer “chef” de restaurante sabe, onças não têm hábitos muito refinados à mesa da refeição, já que não leem cardápios em francês, e poderiam interromper rapidamente o prato principal para avançar sobre a sobremesa – no caso, nós dois, pai e filho.

Normalmente os homens andavam armados naquele ambiente, exatamente para o caso de se defenderem de animais ou de aproveitarem a ocasião para caçar algum outro e levá-lo para reforçar o menu doméstico. Mas naquela particular situação o sr. Miguel não portava nenhuma arma. O único objeto que a tal se assemelhava era meu estilingue, algo que, naquela circunstância, tinha menos valor do que a honestidade do Geddel Vieira Lima.

O que mais me impressionou foi a sua calma. Disse-me com a maior tranquilidade:

– Menino, fique quietinho aí, não se mexa, não fale e não olhe para as onças.

E precisava pedir para eu ficar quieto?

Continuou a pedalar normalmente. Fomos acompanhados pelos olhares onçais por mais uns 20 metros, quando, em uma providencial e sábia decisão, elas concluíram que a carne do veado deveria ser mais saborosa, além de já estar servida e pronta para o consumo, enquanto que, no nosso caso, as onças iriam ter que comer seu almoço ainda empacotado com roupas e sapatos, o que certamente lhes ocasionaria algum problema gástrico e incômodos na hora de palitar os dentes. Além disso, creio que o aspecto da pele áspera e queimada de um bravo sertanejo nordestino – meu pai era catalogado como da cor parda na carteira de identidade – era seguramente menos atraente que o couro claro e macio do veadinho.

Como vossuncê vai facilmente concordar com este escrivinhador fuxiqueiro, fiquei devendo a preservação da minha vida a um veado lá em Mato Grosso!

14 pensou em “UM VEADO NA MINHA VIDA

  1. Excelente história, estimado Magnovaldo Santos.

    O mestre é um ótimo contador de história. Parabéns!

    E o mais excelente: são reais, extraídas da vivência no pântano e ao lado do pai com quem deva ter aprendido muito da vida!

    Se não houvesse ECA no Brasil os adolescentes respeitariam mais o trabalho e seriam mais responsáveis!

    Nunca vivi história de onça, mas imagino a sensação de medo.

    Aqueles 20 metros foram a salvação da lavoura, digo: do pai e do filho.

    • Ciço, meu bom compadre: às vezes a salvação vem de onde menos se espera. Vivendo no mato você tem que se prevenir de tudo: cobras, aranhas, caitetús (porco do mato), jacarés e onças. Mas, apesar de tudo, foi uma das épocas mais felizes de minha vida.
      Tenha um excelente final de semana junto aos seus.

    • Adonis, também são úteis para outras cousas!!!
      Os de quatro patas, então, têm uma ótima carne.
      Um grande abraço, um bom final de semana.

    • Pô, Joaquim, você tinha maus pressentimentos em relação ao meu comportamento? Entre a viadagem perseguida (quando eu era menino), a assumida, a tolerada e a incentivada, consegui sobreviver como macho antes que isso se tornasse obrigatório!
      Um grande abraço.

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