ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

1. Recife – Mercado de São José – Natal de 2020 – Uma amiga muito querida, de Teresina, está me visitando. Decidi mostrá-la o comércio popular no centro do Recife antigo, nas ruas do Bairro de São José. Multidões tiveram a mesma ideia: fazer as compras de Natal. Ruas totalmente lotadas. No meio do empurra-empurra, dois rapazes me ultrapassam e se juntam à minha frente. Passam a andar mais lentos que eu. Minha amiga, sem notar, afasta-se na multidão. Forço a passagem entre os dois à minha frente e mais alguns me cercam. Apalpam freneticamente todos os meus bolsos. Levam dois celulares que estavam comigo. Um meu e um dela. O prejuízo de alguns milhares de reais e a perda de todos os contatos azedou o nosso natal.

2. Declaração de Imposto de Renda – Receita Federal decidiu que não posso pagar pensão alimentícia à minha ex-esposa, conforme determinado em juízo. Primeiro, glosou declarações de 4 anos seguidos e reteve R$ 27.000,00 que eu tinha a receber de restituição. Depois, glosou todas as vezes que declarei alguma coisa nesta rubrica. Para completar, disse que eu ainda devia uns R$ 3.000,00. Quando me mandaram a correspondência da conta, eu já estava devendo mais de R$ 6.000,00; com as multas e juros. Apropriarem-se das minhas restituições todos os anos seguintes. Agora, avisam que o débito está em R$ 15.000,00. Sabem quando eu vou ter esse dinheiro para pagar os caras? Adivinhem! Vai ficar de herança para os netos.

3. Acertei construir um sistema fotovoltaico para um amigo de Teresina. Assim, comprei quatro baterias moura para o sistema. Três ladrões, em plena luz do dia, entraram na casa dele, ameaçaram com revolveres todos que lá se encontravam e mandaram deitarem-se no chão com a cara virada para a parede. Levaram tudo de valor na casa, INCLUSIVE MINHAS QUATRO BATERIAS. Prejuízo meu de R$ 3.500,00.

4. Por falar em sistemas fotovoltaicos, nosso país está prestes a sofrer apagões por falta de água nas barragens das hidroelétricas. Os órgãos responsáveis pela energia no país não aceitam a Geração Distribuída, aquele sistema em que o próprio consumidor gera a energia que consome. A única explicação para a imensa má vontade deles contra esta alternativa fundamental é a dificuldade para esfolar consumidores. A roubalheira começa na construção das hidroelétricas e das linhas de transmissão, fontes históricas de imensas propinas. Continua nos contratos com as usinas térmicas a gás, altamente subsidiadas e fraudadas. Segue os governos estaduais estuprando os consumidores pelo ICMS da energia. Passa por distribuidoras de energia ávidas e gananciosas. Tem um futuro brilhante nos insistentes chamados para que instalemos usinas nucleares, verdadeiras bombas atômicas postergadas, em cada uma das regiões do país. É ladrão para todo gosto!

5. Lecionei uns 15 anos numa pequena faculdade em Teresina. Sem que eu soubesse, a faculdade nunca recolheu os encargos trabalhistas. Quando decidi me aposentar, em 1916, ao dar entrada no processo, vi que não tinha o tempo necessário pois aquelas contribuições não constavam no INSS. A lei diz que a obrigação de fiscalizar é do INSS, e não do funcionário. Afinal, não temos acesso às informações. Entrei na justiça e foi uma longa e desgastante briga. A faculdade reconheceu que havia me contratado e que devia. O INSS não aceitou. Até o tempo em que servi ao exército queriam recusar, mesmo com toda a documentação da região militar sendo apresentada. Só uma sentença da Justiça Federal, ao final de 2019, os fez iniciarem o meu benefício. Ganhei, mas não levei! Não como havia previsto. O INSS só considera contribuições posteriores a 1994. Ou seja: depois do Plano Real. Ocorre que as minhas maiores contribuições foram exatamente anteriores ao Plano Real, quando eu trabalhava em grandes empresas multinacionais. A briga está no STF e empatada em 5 a 5, mesmo todas as instâncias legais e a Procuradoria Geral já ter considerado a demanda legal e justa (Que se considerem todas as contribuições no cálculo do valor da aposentadoria). Só falta a decisão de Alexandre de Morais, que vem postergando a decisão há meses. Alegam que será difícil para o governo arcar com esta “DESPESA”. Só que o dinheiro é meu! Contribuí anos e anos e agora quero ele de volta. Simples assim. O que estão fazendo é puro e simples ROUBO. Segundo Guzzo, “a democracia, na visão dos 11 ministros que estão hoje no Supremo, é “relativa”. Ou, mais precisamente, a obrigação do STF não é interpretar as leis, tentando fazê-las fiéis ao que o legislador aprovou, (ou o que é o justo e o correto) – e sim aplicar a lei segundo as “consequências” que ela pode causar. A lei, pelo ponto de vista predominante no STF atual, não é mais o que está escrito – é a consequência, boa ou má, melhor ou pior, que a sua aplicação vai trazer. A consequência é ruim? Então não se aplica a lei – ou, em português claro, os fins justificam os meios. Como os ministros deram a si próprios o direito de decidir quais são as consequências desejáveis e quais as que não são, e ninguém fala nada, a lei passou a ser o que eles querem”. Milhões de idosos estão sendo miseravelmente roubados através desta interpretação escrota da lei.

6. Morei em Teresina uns 15 anos. Vinha sempre a Recife, muitas vezes em automóvel próprio. Não houve uma vez que eu conseguisse vir e voltar sem levar algumas multas por excesso de velocidade. Cada vilarejo de merda, neste vasto sertão de meu Deus, se acha no direito de encher a pista de lombadas assassinas e de colocar sensores de velocidade nas posições mais traiçoeiras possíveis. O critério é NÃO TER NENHUM CRITÉRIO! Os limites são o mais aleatório possível. Ora é 50 Km por hora. Ora é 60. Cai bruscamente para 40 ou 30. Tem lugares com 3 limites de velocidade diferentes. O objetivo descarado é endoidar a cabeça do motorista, para que ele se confunda e seja depenado pelas malditas multas. Viagens que poderiam ser feitas em 10 horas, passam a consumir 15 ou 20, além do tremendo desgaste mecânico e do consumo de gasolina, junto a um tremendo stress sobre o motorista. Haja ladrões espalhados por essas prefeituras. Por essas e outras, estou sem carro há uns 5 anos. Não tenho pretensão de adquirir. Vou de Uber ou carona.

7. Estou com um pequeno problema na garganta e fui a um médico otorrino. Ele mandou realizar um exame de vídeo laringoscopia. É um negócio arretado: uma médica linda e muito educada enfiou uma mangueira fininha no meu nariz. A bicha tinha uma luzinha na ponta, que nem o dedo do ET. A médica foi enfiando, enfiando…e enfiou tanto que eu pensei que já estava saindo uma luzinha pela minha bunda. Aí, tirou o negócio todo e escreveu o laudo daquilo que viu. Até aí, tudo bem. Ocorre que a secretaria me cobrou DOIS EXAMES: UM PARA O NARIZ E OUTRO PARA A LARINGE! Parece até brincadeira, mas foi assim. Quando pedi o recibo, disseram que enviariam a Nota Fiscal por e-mail. NUNCA ENVIARAM! Quer dizer: além de me roubarem, cobrando duas vezes pelo mesmo exame, ainda sonegaram todos os impostos e não me deixaram declarar no Imposto de Renda. Normalmente eles apresentam dois preços. Um com recibo e outro sem. Agora, nem perguntam mais. Cobram em dobro e não dão recibo.

8. Quando retornei para Recife, surgiu uma boa oportunidade e decidi adquirir um pequeno apartamento para morar junto do meu velho pai e meu irmão. Depois de toda uma vida me esgueirando entre os meandros dos milhares de leis malucas do Brasil, decidi que, desta vez, eu seria o cidadão mais correto e cumpridor de leis deste país. Ledo engano! Passei uns 6 meses só corrigindo a documentação do apartamento e passando tudo para o meu nome. Não queria deixar a mínima brecha. Só que foi impossível! Depois de lidar com IPTU, contas de energia, de água, bombeiros, condomínio, coleta de lixo, Serviço de Patrimônio da União, etc… Deparei-me com a necessidade de registrar em cartório o apartamento em meu nome. Ocorreu que, ao ser construído o prédio, o apartamento foi adquirido por um pai zeloso que o colocou em nome de um filho e uma filha. Não sei porque, mas a pessoa que o comprou deles, há uns 60 anos, não o registrou em seu nome. Creio que a razão foi a encrenca do inventário do pai das crianças, hoje vetusta senhora e senhor. Daí para a frente, todos repetiram o mesmo procedimento. Ninguém registrou! Moral da história: Se for efetuar o registro de toda a cadeia dominial ocorrida de lá para cá, o custo do cartório será maior que o valor total do apartamento. Melhor deixar para lá e, depois, ver como fica. Creio que hoje, metade da nossa cidade viva em regime de usucapião, como eu. De novo, montes de gente se dando bem às custas da população: cartórios, juízes, advogados… Curvei-me diante da força dos fatos. Convenci-me de que este é mesmo um país de ladrões!

Basta de horrores! Já estou até abusando da paciência dos meus abnegados leitores com estas lamúrias.

A mensagem que quero passar é: Cansa viver sendo sempre roubado. Esta é a razão da diáspora brasileira. Brasileiros do bem, que podem, estão todos indo embora, seja para onde for.

Os ladrões mais perniciosos não são punguistas e praticantes de arrastões. Os mais virulentos são os nababos do serviço público! Estes, sim, são ladrões de altíssima periculosidade, com seus ridículos ROLEX de ouro e se banqueteando com medalhões de lagosta tintos de sangue do povo brasileiro.

6 pensou em “UM PAÍS DE LADRÕES

  1. É, meu caro Adônis, hoje v. está de baixo astral mesmo.

    Eu sabia que v. era velho, mas que tinha decidido se aposentar em 1916? rsrsrs.

    Cara, este é o nosso país e eu tenho que lutar por ele. Tenho dois filhos e duas netinhas maravilhosas que vão viver aqui.

    Temos um governo que ameaça quebrar esta cadeia de roubalheira que juga este imenso país para trás desde o fim do Império.

    Não é a toa que todos os poderosos (políticos corruptos, juízes podres, mídia, bancos, “artistas”, academia) estão contra o atual governo.

    Ânimo, meu velho e bola pra frente, quem nunca foi roubado antes não vive no BR?

  2. Caro João,

    Considero altamente verdadeiras as tuas palavras. Inclusive o questionamento sobre minha suposta aposentadoria um século atrás. ahahah
    Éramos eu, Matusalém e o Conde Drácula, na fila do INSS.

    Também tenho um netinho e uma netinha maravilhosa. É exatamente por eles, e pelos teus, que eu brado contra essa roubalheira, contra os imbecis comunistas, e contra essa classe de juízes e de políticos ladrões.

    Grande abraço.

  3. Muito bom seu texto professor. Essa é a vida do brasileiro comum, como nós, que tentamos viver cumprindo a lei.

    O negócio é ter fé em Deus e pé na tábua!

  4. “Curvei-me diante da força dos fatos. Convenci-me de que este é mesmo um país de ladrões!” Adônis Oliveira

    Ah, meu caro Adônis,

    Se soubesses as vicissitudes que a categoria que INTEGRO enfrenta para ganhar o pão com o suor do próprio rosto de forma honesta, ficarias de cabelos em pé…

    Vou exemplificar apenas um quesito: o IPVA/ICMS:

    “A carga tributária BRASILEIRA acaba por incentivar questões não-produtivas: o IPVA/ICMS, por exemplo, IMPOSTOs FEITO POR JEGUES para fim exclusivamente arrecadatório. E por quê? Porque estimula a propriedade de veículos mais velhos, que quebram mais, que causam mais acidentes e que poluem mais. Esta lógica anti-produtiva chega também no ICMS, que faz com que se perca tempo pensando em qual o melhor cenário tributário, não importando se o Quixote Véi di Guerra está próximo do porto de escoamento ou do ponto de origem da matéria prima”.

    Mas (benedicto mas), como Sancho nasceu para SER FELIZ, falemos de coisas que enchem os olhos de qualquer caminhoneiro nas estradas da vida… Todo Sancho e demais irmãos caminhoneiros sabem que belas paisagens (e não estou agora falando das perigosas curvas do corpo feminino) ajudam a compensar os perrengues e a correria da profissão. Por isso mesmo, selecionei o TOP 10 das estradas mais charmosas do Brasil, pelas quais os caminhoneiros e motoristas em geral, podem trafegar e aproveitar para admirar a beleza do BRASIL. Vejam só:

    1 – Serra do Rio do Rastro (SC-438) – Santa Catarina
    2 – Maceió/Maragogi (AL-101) – Alagoas
    3 – Rodovia Interoceânica (Estrada do Pacífico) – Acre
    4 – Chapada Diamantina (BR-242) – Bahia
    5 – Rota Romântica (BR-116 e RS-235) – Rio Grande do Sul
    6 – Estrada das Hortências (BR-495) – Rio de Janeiro
    7 – Rota do Sol (RN-063) – Rio Grande do Norte
    8 – Estrada Real (BR-040, BR-120 e BR-259) – Minas Gerais
    9 – Rodovia Rio-Santos (BR-101) – São Paulo e Rio de Janeiro
    10 – Serra da Piedade (próximo à BR-381) – Minas Gerais.

    E domingo que passou não teve crônica adônica. Deu aquela sensação esquisita de “FALTA ALGO”…

  5. Parabéns. Excelente depoimento. Verdade nua e crua, que só a Escola da Vida ensina direitinho.

    Tenho um mote que sempre uso em situações indefinidas: “A Festa não é prá Todo mundo? Então vou ficar na Festa!”

    Fraterno Abraço

  6. Adonis, ainda hoje eu peno.por uma empresa, um escritório de projetos, que tinha minha irmã como sócia com 5% das cotas, apenas pra constar como LTDA. Ela morreu, eu tentei encerrar a empresa e junta comercial não deixou. O contrato dizia que “a sociedade estava desfeita com a morte de um dos sócios”, mas eu fiz uma alteração, mudança de endereço, e não disse isso na alteração, disse que “todas as cláusulas não alteradas permaneciam em pleno vigor”. Resultado: está rolando uma defesa na fazenda no qual alego/demonstro que a culpa foi do agente público

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