JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O sonho de todo escritor é conquistar um acentuado número de leitores. Acontece de essa dádiva ficar reservada, comumente, para aqueles que melhor sabem adequar as ideias e os pensamento na dita palavra escrita.

Dentre os escritores brasileiros mais lidos no mundo estão Machado de Assis, Clarice Lispector, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade. Entretanto, nenhum deles chega sequer ao rastro de Paulo Coelho, com 210 milhões de livros vendidos em 150 países, cabendo ao O Alquimista, segundo o Guinness Book, na condição de livro mais traduzido do planeta (69 idiomas).

A Bíblia Sagrada é imbatível no comparativo de maior número de edições produzidas mundo afora. Seguem-na O Peregrino, do pastor batista John Bunyam; O Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung e Agatha Christie – ícone dos best-sellers.

Como se tornar um bom escritor? Ah, essa é uma pergunta que não quer calar. São muitas hipóteses e conclusões à disposição do candidato a escritor. Algumas irrefutáveis, como: “Gostar de ler e escrever”. As mais comuns são: “Escrever é um dom” ou “Escrever é uma arte” e, ainda, “Aprende-se a ler e a escrever, lendo e escrevendo”.

Conta-se uma história atribuída ao escritor e crítico inglês John Ruskin (1819-1900), que exemplifica a arte da boa escrita num conto antológico. Trata-se do encontro de um feirante, com um amigo, num porto britânico:

O homem chega à feira, no cais do porto, e encontra seu amigo feirante arrumando os peixes num tabuleiro de madeira. O feirante está contente com o sucesso de seu pequeno negócio. Em poucos meses já pôde até comprar um quadro-negro para divulgar o produto.

Atrás do balcão está escrito à giz, no quadro-negro, a mensagem: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. O visitante ouve do amigo, então, a seguinte pergunta: – Você acrescentaria algo mais a mensagem?

O homem leu o anúncio, mas calou-se. Ante a insistência do feirante para opinar sobre o texto, ele falou:

– Você notou que todo dia é sempre hoje? – e apontando para o anúncio sugeriu:

– Esta palavra está sobrando.

O feirante, consciente da opinião, apagou o advérbio e o anúncio ficou mais enxuto: VENDO PEIXE FRESCO.

– Se o amigo permite – tornou o visitante – aqui nesta feira existe alguém dando peixe de graça? Feira é sinônimo de venda. Se a banca fosse minha eu apagaria o verbo.

Assim o anúncio encurtou para PEIXE FRESCO.

– Diga-me uma coisa: por que apregoar que o peixe é fresco? – questionou o homem, já justificando – O que traz o freguês ao cais do porto é a certeza de que todo peixe, aqui vendido, é fresco.

E lá se foi o adjetivo. O anúncio ficou reduzido a uma palavra: PEIXE.

Ainda assim o homem pondera que não deixa de ser um menosprezo à inteligência da clientela anunciar que o produto ali exposto é peixe. Até um cego percebe, pelo cheiro, que se trata de pescado.

O substantivo foi apagado. Sumiram o anúncio e o quadro-negro. O feirante vendeu toda a mercadoria, e ainda aprendeu uma preciosa lição: ESCREVER É CORTAR PALAVRAS.

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