MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Lendas da Arte do Improviso & Repentistas e Cantadores

É consabido e consagrado a sagacidade, inteligência e astúcia de repentistas e cantadores por esse Brasil á fora. Inclusive, já foram objetos de estudos de toda ordem. Seminários, Workshop, Simpósios, congressos, programas de rádio e TV sempre debatendo o mágico tema.

Publicações, matérias em jornais e livros tratando do assunto encheriam um estádio de futebol inteiro. Teses universitárias, de doutorado, de norte a sul do país tentam esmiuçar as entranhas deste insondável e divino dom da inspiração deste “escolhido” povo nordestino.

A este respeito, a poesia popular nordestina foi amplamente perscrutada por antropólogos, folcloristas, historiadores e inúmeros estudiosos que documentaram suas impressões – Pereira da Costa (1851-1923), Sílvio Romero (1851-1914), Câmara Cascudo (1898-1986). E tantos outros que registraram a vida, a personalidade e a saga desses verdadeiros mitos regionais.

Nominar, então, expoentes nordestinos da poesia de cordel, repentistas e cantadores é tarefa hercúlea que poderia, quem assim procedesse, incorrer em lapsos e omissões imperdoáveis. Portanto, fora de cogitação tal tarefa nestas mal traçadas linhas.

Agora, eu pergunto, qual bestafubanense não se refestela e nem se deleita com as poesias publicadas pelos colunistas Aristeu Bezerra – Cultura Popular, Dalinha Catunda – Eu Acho é Pouco!, Jesus de Ritinha de Miúdo, Marcos Mairton – Contos, Crônicas e Cordeis, Pedro Malta – A Hora da Poesia, Pedro Malta – Repentes, Motes e Glosas…

Fubânicos complementarão a lista.

Trago aqui um marcante e bom exemplo da sagacidade e malícia destes iluminados poetas repentistas e cantadores. O “causo” advêm de uma certa “peleja” ou “desafio” em que um certo poeta, dito letrado, tentou subjulgar/humilhar o outro num malicioso mourão perguntado (gênero que se canta em diálogo, um perguntando e o outro respondendo), em que o sabichão lançou a embaraçosa “deixa” ao oponente:

“Jesus com seus quinze anos,
pra onde foi que marchou?”

O público ficou em enorme expectativa, vendo que o “opositor” ficou impaciente, dedilhando, dedilhando a viola… e a inspiração não vinha. Até que, “de repente”, (daí o apiteto de repentista) como num passe de mágica, o arguto e, supostamente “iletrado” violeiro, respondeu a altura da provocação:

“O que senhor perguntou,
Vou responder desta vez,
Jesus com seus quinze anos,
Marchou para os dezesseis,
Vivendo mais dezessete,
Morrendo com trinta e três”.

Foi aplaudido por todos, até pelo “opositor”.

Enfim, dado a magnitude da magia poética destes homens do povo, tiveram o reconhecimento das autoridades competentes. Foi promulgada a lei nº 12.198, de 14 de janeiro de 2010, reconhecendo a profissão de repentista:

Minha reverencia aos poetas e repentistas desta nação nordestina.

9 pensou em “UM DOM DIVINO

  1. Marcos, fabulosa a criatividade desse pessoal. Falam de tudo, entendem de tudo, como diz Jessier Quirino desde de atracação de navio s acasalamento de muriçoca.

    • Verdade, mestre Assuero. O próprio Jessiê é um monstro sagrado do nosso mundo poético.
      Eu reverencio sempre esses iluminados.

  2. Estendo mais além… Minha reverencia a toda a nação nordestina, capaz de “parir” tais fenômenos em quantidade tal que, se de mãos dadas os colocássemos, daria para dar a volta ao mundo.

    E há esses outros fabulosos, que usam suas crônicas, como o amigo, para “traçar bem traçado” texto aos que desconhecem a obra “duzartistas” maravilhosos que encantam por onde passam.

  3. Parabéns pela excelente postagem, Marcos André! Nasci e me criei no interior nordestino. Desde menina, acompanhava minha mãe à feira e me divertia assistindo os desafios de violeiros e cantadores, em versos, e rimas, sempre com temas hilários, ou contando tragédias da vida real..
    É impressionante o raciocínio rápido dos repentistas.

    Do balcão do Armazém do meu pai, dia de feira, eu gostava de apreciar uma cega “cantadora”, que pedia esmolas na calçada e agradecia, em versos. Certa vez, chegou um cego para ocupar o mesmo ponto e a cega iniciou uma cantoria de insultos, aos quais o “concorrente” respondeu à altura, num espetáculo hilário e picante…rsrs.
    A cega, dona Zefa, não era cega de nascença e contava sempre sua história::

    A cega que está aqui
    Tinha olhos e via a luz:
    E agora pede esmolas
    Pelo sangue de Jesus.

    O concorrente, cego de nascença, respondeu:

    Tenham pena deste cego,
    Filhos da Virgem Maria
    Eu sou cego de nascença,
    Nunca vi a luz do dia.

    A irritação da cega aumentou e ela tornou-se irreverente:

    Sete vezes fui casada,
    Sete homens conheci,
    Juro por Nossa Senhora,
    Sou virgem com eu nasci.

    Resposta do ceguinho:

    Isso aí não se explica…
    Isso aí já é mutreta.
    Ou eles não tinham “p……”.
    Ou vosmecê não tem “b……..”

    E viva a Cultura Popular!!!

    Bom fim de semana!

  4. Obrigado, querida Violante.
    Seu fabuloso comentário enriqueceu sobremaneira o conteúdo da coluna.
    A nação nordestina é um mundo fantástico.
    Um brinde a nossa gente!

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