JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Fernando Pessoa, no Cancioneiro, escreveu poema (Natal) em que dizia “Nasce um Deus. Outros morrem… Temos agora outra Eternidade, / E era sempre melhor o que passou”. Seguindo nessa trilha, recordo uma eternidade pessoal que se deu em Natal do passado. E começo dizendo que, também naquele ano, visitei lugares da infância. Com “Saudades de mim” (título do livro de António Ferro). Faço isso todo 24 de dezembro. E tinha realizado sonho antigo, que era ter órgão de 3 teclados, com pedais para os graves, comprado na Rua da Concórdia. Foi amor à primeira vista. Já voltando, reproduzi roteiro que fazia todos os dias. O ponto do casal ficava numa esquina da Av. Conselheiro Aguiar, por trás do Acaiaca. Onde parava para comprar milho assado. Assim foi, também, naquele Natal. Problema é que, junto ao fogareiro, estava só a mulher. E João, encostado no muro, chorava como um desesperado.

– Maria, que está acontecendo com seu marido?

– É que ele prometeu a nosso filho uma bicicleta usada, doutor. Foi ao Recife hoje, comprar. Só que, no ônibus, um ladrão levou seu dinheiro. Voltou a pé, sem ter nem como pagar a passagem de volta. E não sabe como vai dizer isso ao menino.

Pensei na vida. Eu, chegando em casa com um órgão. E, João, de mãos vazias. Algo, no mundo, estava fora do lugar. E fiz a única coisa que poderia fazer. Ou deveria. Abri a porta do carro e disse

– João, entre aqui.

– Vamos para onde?, doutor.

– Entre, por favor.

Adiante, chegamos nas Lojas Verão. Com um extenso mostruário de bicicletas, logo na entrada, embandeiradas para chamar a atenção dos compradores. Saltamos.

– A bicicleta que ia comprar era como?, amigo.

– Essa aqui.

– Então monte nela e vá embora.

João, assustado, pareceu não compreender a cena. E o vendedor da loja mais ainda, ante o risco de perder sua mercadoria.

– Suba na bicicleta e vá embora, homem.

Foi o que fez. O vendedor tentou impedir mas se conteve, ainda bem. Paguei e fui para casa. Ao chegar, satisfeito (dava para ver na cara), dona Lectícia perguntou

– Que aconteceu?

– Nada. Foi só um presente de Natal que acabei de ganhar.

Tudo certo. Que, no fundo, Natal é isso. Ou deveria ser. Mais dar, que receber. É, sobretudo, fraternidade. É permitir que o melhor de nós se revele. É ainda crer que o mundo, algum dia, vai ser mais justo. E melhor. Bom Natal para todos.

4 pensou em “UM CONTO DE NATAL

  1. Até hoje, na minha vida, não havia lido mensagem mais bonita. E verdadeira. Porque vem do coração. E vem de raro homem e intelectual de qualidade, hoje, do Brasil!

    Feliz dia de hoje, José Paulo e Família.

    Luiz Berto e Família.

    E todos que fazemos a confraria do JBF!

  2. Pois é, lendo o que o Colunista escreveu, fico a pensar: quem deu o presente, quem recebeu? A bicicleta fez a alegria do homem que estava frustrado e do filho que quase não apareceu na história. O gesto de generosidade parece ter superado a felicidade da compra do órgão no ponto de vista do Autor. Com certeza a noite de Natal nas duas casas teve uma emoção maior do que teria se tudo saísse como programado. Por ironia, o assalto foi o gatilho para o espirito natalino entrar de forma plena nas duas casas. Seria o milagre do Natal?

    “Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre”
    Atribuído a A Einstein

  3. “Algo, no mundo, estava fora do lugar”. Nos tempos atuais: “Alguma coisa errada não está certa”.

    A centelha do estopim do impulso da solidariedade não tem hora certa. Precisa, as vezes, ser provocada.

    A voz do excluído, gritou no coração e ecoou na alma. A felicidade disparou em pedaladas.

    O presente foi mais recebido do que dado..

    Mensagem grande!

    Feliz Natal.
    .

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