MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Nem sempre nomes e números devem ser os determinantes de nossas decisões.

Imagine que vossuncê está em uma cidade desconhecida quando sua próstata resolve manifestar seu grande desconforto com o materialismo dialético da Escola de Frankfurt. A necessidade urgente de ver um proctologista fica evidente. Procura na lista telefônica local e vê duas opções: o dr. Edinho Júnior ou o dr. Sansão Mastrobuono. Como vossuncê é um cabra da peste mais macho que Lampião, qual o doutor que escolheria para expor seu precioso carretel e receber a tão ignóbil dedada?

Antes de mudar-me definitivamente para os Estados Unidos passei um período de 3 meses em experiência para ver se tanto eu me adaptava à nova condição quanto para meus patrões se certificarem que eu daria certo e os Clientes americanos aceitariam decisões de um cabra com um sotaque engraçado.

Isso significava que passava batido duas semanas por lá, viajava na sexta-feira à noite para o Brasil, trabalhava por uma semana na terrinha e regressava no final de semana seguinte para atender outros Clientes americanos por mais duas semanas.

Claro, isso demandava um estilo de vida que, apesar de temporário, não era nada fácil de encarar. Passar fins de semana isolado em hotéis no meio oeste americano ou no ambiente desértico do Arizona era um saco!

Em um dos primeiros finais de semana de minha nova vida estava eu em Batesville, uma cidadezinha perdida no meio do estado de Indiana, onde iria trabalhar a partir da segunda-feira seguinte em uma fábrica de caixões de defuntos chamada Hillebrand. Essa empresa fabrica desde caixões simples, de cerca de 500 dólares, até alguns mais sofisticados de 6.000 dólares, onde imagino que o “de cujus” deve receber desodorante canadense no sovaco e ser borrifado com perfumes franceses da Chanel antes de ser ali cuidadosamente posto para encarar o sono eterno. Os caixões da Hillebrand são fabricados nos Estados Unidos e na Inglaterra, e possuem uma excelente reputação de qualidade – na verdade, não se tem notícia de nenhuma reclamação dos Clientes até a presente data.

Curiosidade: alguns caixões especiais, com um preço igualmente especial, podem ser equipados com um sistema de respiração que tem oxigênio para 7 dias e um sensor eletrônico de movimento com um acionador manual iluminado que permite alertar a casa funerária, via sinal de rádio, de que o suposto morto, que na verdade tinha catalepsia, ainda estava vivo e deveria ser resgatado. A conta total, incluindo o trabalho da funerária, sai por uns 12.000 dólares.

Antevendo uma semana meditabunda, já que ia trabalhar com algo que lembrava a morte, resolvi pelo menos começar meu domingo com um belo e arretado “breakfast” bem americano, digno de ser lembrado no futuro.

Olhei o lado direito do menu, onde estavam os preços, e tasquei! Mandei ver o prato mais caro, já que estava gastando como P.J. e não como P.F.! Botei pra quebrar! Perguntei à amável galeguinha que me atendeu do que se tratava. A moçoila falava muito depressa e tinha um sotaque da gota! Não entendi bem a explicação, mas soube que o prato tinha algo como “milho” e “linguiça”.

E o diabo de meu “breakfast” não chegava. Só via a garçonete trazer o dos outros. O meu, nada!

E, à vista da demora, questionei:

– Porque o meu está demorando tanto?

– Acontece que o senhor tem muito bom gosto e o seu pedido está demorando porque é especial!

Essa gentil observação inflou meu ego. Parecia o Lula falando dele mesmo. Claro, senti-me o hóspede mais importante do pedaço.

Até que, finalmente, chegou meu pedido: tratava-se, além do café bem aguado e de um copo com suco de laranja, de uma torrada com manteiga e geleia e, o charme, um pedaço de polenta frita com uns grãos de linguiça menores que a honestidade de políticos brasileiros.

Pois eu lhe asseguro a vossuncê que valeria mil vezes mais uma cuia de cuscuz com leite de cabra e pedacinhos de rapadura que minha vó Cristina fazia.

Talvez o dr. Mastrobuono tivesse sido menos humilhante.

2 pensou em “UM CAFÉ DA MANHÃ PORRETA

    • Poderoso Assuero:
      Grato por suas palavras. Apenas relato causos que aconteceram em minha vida.
      A sua brilhante imaginação é que faz os contos merecerem o elogio com que são brindados pelos seus comentários.
      Bom final de semana.

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