MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Nos anos 80 trabalhei em uma empresa que produzia peças sinterizadas, que são peças produzidas a partir de pós metálicos.

Um dos principais produtos da empresa eram peças de bronze, uma liga composta basicamente de cerca de 90% de cobre e 10% de estanho (essas porcentagens variam). Os lingotes de cobre eram importados do Chile e o estanho era produzido a partir do minério cassiterita, encontrado (à época) principalmente na mina de Pitinga, a cerca de 300 Km de Manaus, em plena selva amazônica.

Um grande amigo dos donos de nossa empresa decidiu iniciar um negócio próprio na região, ligado às atividades da mineração e necessitava urgentemente de um burro para ajudar no transporte de materiais. Pediu ajuda a um dos nossos diretores. Discutido o assunto, ficou decidido que se enviaria um burro (verdadeiro, de quatro patas, não um militante do PCdoB) para atender ao pedido do amigo.

Um burro forte e vigoroso foi enviado então de Manaus para Pitinga – de avião, claro, pois que não havia estradas naquele oceano de mato.

Contratado o avião, um monomotor, havia que prepará-lo para levar o burro a bordo. Tiraram as poltronas, só ficando a do piloto, prepararam cordas para segurar o animal dentro da aeronave, anestesiaram o bicho e o acomodaram da melhor forma possível.

Claro, como a anestesia poderia perder seu efeito no meio do voo, o piloto estava munido de uma seringa já preparada com mais anestesia para injetar no animal em caso de tal acontecimento se suceder, tendo sido treinado por um veterinário para saber em qual parte do corpo injetá-la. A traseira do burro ficou do lado do piloto para facilitar a aplicação.

No meio da viagem, em plena floresta, o nosso quadrúpede acordou e tudo sugeria que não ficou nem um pouco feliz em se ver amarrado com a bunda exposta e à disposição do piloto, uma situação constrangedora que claramente ofendia seu orgulho e a sua alta dignidade de burro. Começou a espernear.

O piloto pegou a seringa e se preparou para utilizá-la, mas pilotar um avião e aplicar ao mesmo tempo uma injeção em um animal era uma situação que obviamente não constava do treinamento para se conseguir brevê de piloto. Os movimentos desordenados do equino atingiram a sua mão antes que pudesse aplicar a injeção, fazendo a seringa ir parar em um local inalcançável. E, para piorar a situação, o futuro operário burrinho protestava de forma cada vez mais eloquente contra essa forma de opressão do capitalismo selvagem.

O piloto não teve dúvida. Soltou as amarras, abriu a porta do avião, fez uma manobra brusca para o lado, deu um empurrão com o pé e nosso querido burro se viu flutuando em pleno ar sobre a imensa floresta, sendo presumido que sua trajetória seguiu fielmente as leis da física.

Não se teve mais notícia dele. O avião chegou a Pitinga sem sua preciosa carga.

Hoje, passado tanto tempo, ainda tenho curiosidade em saber qual foi a “causa mortis” do nosso burro: se teve um ataque cardíaco com o susto em se ver sem chão, se ficou enganchado em alguma árvore ou se quebrou a coluna vertebral com a violência da queda. Leigo no assunto que sou, vou seguir a teoria da eminente cientista brasileira Anitta, indicada ao Prêmio Nobel de Tatuagem Furical, que estipula que, assim que chegou ao solo, o burro foi imediatamente devorado pelas girafas que infestam a floresta amazônica.

Fico até hoje imaginando um índio caminhando na mata, praticando sua nobre missão de ensinar seus curumins a usar arco e flecha, olhar para o céu e ver um burro caindo em sua direção.

6 pensou em “UM BURRO NA FLORESTA AMAZÔNICA

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