TUDO COMO ANTES NO QUARTEL DE ABRANTES

Um professor de História contava seu drama: tinha sido convidado para dirigir uma outra escola, mas para isso teria de deixar aquela onde estava há quinze anos e, o que era pior, parar de lecionar.

Tinha medo de não gostar de administrar e muito receio de que o novo professor que viesse em seu lugar não soubesse dar aulas da matéria com competência.

Por outro lado, o diretor da outra escola que estava saindo por aposentar-se tinha medo de que o novo diretor estragasse todo o seu trabalho, pois sabia que o que vinha substituí-lo era um novato.

Passado um ano, o novo diretor procurou saber como ia o professor que estava em seu lugar: uma porcaria, lhe disseram, falta demais, chega atrasado, dá as aulas sentado na mesa ou no chão, deixa os alunos olharem o celular e parece mais um deles do que um professor.

Então por que não o dispensam? Quis saber o diretor.

Porque ele é excelente conhecedor da matéria, os alunos o adoram e têm um excelente aproveitamento! Foi a resposta.

Quando ao diretor aposentado, por sua vez procurou saber como ia a escola sob nova direção. Lhe informaram que estava tudo igual, os funcionários conheciam o serviço, cada um fazia a sua parte, igual faziam antes, e a máquina continuava funcionando do mesmo jeito.

Quer dizer que a minha atuação, que era considerada boa, tanto que fiquei lá por tantos e tantos anos, não foi mudada em nada?

Bem, foi, lhe responderam. O novo diretor exige que os alunos façam fila no pátio para irem para a sala de aula, antes têm de cantar o hino nacional, em cada corredor tem um segurança, para manter a ordem e impedir que algum aluno faça bagunça, desrespeite os professores ou saia da escola antes de terminarem as aulas. E o conteúdo das aulas é rigorosamente acompanhado pela direção, para que não sejam ensinadas ideologias espúrias, podendo os próprios alunos filmarem as aulas e denunciarem os professores. Bem diferente da tua época, que a escola era aquela zona.

Mais alguma coisa? Quis saber.

Sim, tu vais ser chamado para explicar por que gastavas tanto dando merenda, almoço e janta na escola, raspando o orçamento. Agora os alunos devem comer em casa e a escola vai devolver dinheiro no fim do ano, porque vai sobrar muito.

E o aproveitamento dos alunos?

Bem, aí está uma droga, eles são disciplinados, mas parece que veio para a escola uma leva de burrinhos apáticos. Só sabem decorar, não têm criatividade… Ainda não se sabe o que aconteceu, estão procurando analisar e acham que é preciso aumentar o rigor. As pessoas só aprendem na porrada mesmo.

– Quando me contaram esse caso – disse um amigo meu, em uma mesa de bar, tomando um chope – logo me veio à mente a afirmação de que ninguém é insubstituível, sai um, entra outro, a máquina continua funcionando com as peças e engrenagens que já estão montadas, muda um resultado aqui, continua do mesmo jeito ali, piora num sentido, melhora no outro… Quem precisa de gênios? Temos de ter é gente ordeira, apta para o trabalho, e não bagunceiros. Chega de suruba.

Escutei as conversas, ouvi as discussões que se seguiram, mas eu mesmo fiquei sem assunto. Nas escolas que estudei era uma zona só. A única coisa que fiz foi pedir mais um chope. Talvez dois ou três, não me recordo bem.

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