ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Uma magia sagrada
O dom do verso me deu,
Da substância do nada
Construo um mundo só meu.

Num egoísmo profundo
Penso, ao receber teus mimos,
Que Deus só fez esse mundo
Porque nós dois existimos.

Eu não quero monumento
Para mim, nem quero busto,
Homem de ferro e cimento
Sempre que vejo me assusto.

Lembrança a noite trazia
Do meu grande amor ausente,
E os pingos da chuva fria
Lavavam meu pranto quente.

No mar da cumplicidade
Navega o meu coração,
Armazenando saudade,
Destilando solidão.

Preso ao teu sorriso grácil
Separei-me sem saber,
Que te deixar era fácil,
Difícil era te esquecer.

Num coral de passarinhos
A aurora apareceu,
Amanhecemos juntinhos:
A chuva, a saudade e eu.

As preces mais comovidas
Dos romeiros, de mãos postas,
São perguntas repetidas
Esperando por respostas.

* * *

Geraldo Amâncio Pereira é poeta, repentista, trovador, cordelista e contador de causos. Nascido no sítio Malhada da Areia, município do Cedro, Ceará, em 29 de abril de 1946. Cursou faculdade de História em Fortaleza. Começou com acompanhamento de viola em 1966. Participou de centenas de festivais em todo o país, e classificou-se mais de 150 vezes em primeiro lugar. Organizou festivais internacionais de repentistas e trovadores, além do festival Patativa do Assaré. É autor das três antologias sobre cantoria em parceria com o poeta Vanderley Pereira. Gravou 15 CDs ao longo da carreira, além de ter publicado cordéis em livros. Apresentou o programa dominical “Ao Som da Viola”, na TV Diário em Fortaleza.

7 pensou em “TROVAS DE GERALDO AMÂNCIO

  1. Tive a grata surpresa de ler as trovas do repentista cearense Geraldo Amâncio. Já presenciei várias apresentações desse poeta genial e, na minha opinião, é um dos melhores cantadores de viola. Ele Participou de centenas de festivais em todo o país, e classificou-se mais de 150 vezes em primeiro lugar. Organizou festivais internacionais de repentistas e trovadores, além do festival Patativa do Assaré. É autor de três antologias sobre cantoria em parceria com o poeta Vanderley Pareira.

  2. Vitorino,

    Grato por seu comentário com observações importantes sobre o talentoso repentista Geraldo Amâncio. Concordo com seus argumentos sobre as qualidades poéticas desse grande nome da poesia popular nordestina. Conheço algumas histórias de Geraldo Amâncio e aproveito a oportunidade para compartilhar uma delas.
    O grande mestre da comunicação, Geraldo Freire, que trabalha na rádio Jornal do Comércio em Recife, sugeriu ao poeta Geraldo Amâncio Pereira, o seguinte mote:

    Quando chove no sertão,
    Tem festa para os meninos.

    O poeta fez esta belíssima estrofe:

    Quando o nevoeiro grosso
    Manda chuva, a meninada,
    Brinca na terra molhada,
    Tibunga dentro do poço.
    Inventa curral de osso,
    Ossos grossos e ossos finos,
    Faz açudes pequeninos
    botando terra com a mão.
    Quando chove no sertão
    Tem festa para os meninos.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  3. Parabéns pela excelente postagem, prezado pesquisador e poeta Aristeu Bezerra!

    A sua seleção de trovas do poeta, repentista, trovador, cordelista e contador de causos, Geraldo Amâncio Pereira, está genial! Todas são belíssimas!!!

    Destaco:

    “Num coral de passarinhos
    A aurora apareceu,
    Amanhecemos juntinhos:
    A chuva, a saudade e eu.”

    Uma ótima semana, com muita Saúde e Paz!

    Violante Pimentel Natal (RN)

  4. Violante,

    É gratificante seu comentário que me incentiva a pesquisar a cultura popular e, principalmente, a poesia pura do repente. Admiro muito o talento poético de Geraldo Amância e, também, por ser uma pessoa simples; sempre disposto a conversar com seus admiradores em todos os cantos desse imenso país. Compartilho o mote, abaixo, que foi glosado com muita criatividade por Geraldo Amâncio:

    Se eu pudesse comprava a mocidade
    Nem que fosse pagando a prestação.

    A primeira paixão eu tive cedo
    Contra nós a mãe dela se opôs
    Proibiu o namoro entre nós dois
    Nosso amor virou cofre de segredo
    Quando eu fui lhe beijar foi tanto medo
    Que eu tremia cabeça, pé e mão
    Ela toda gelada de emoção
    Assombrada com essa intimidade
    Se eu pudesse comprava a mocidade
    Nem que fosse pagando a prestação.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  5. Obrigada, prezado Aristeu, por compartilhar comigo essa preciosidade, do grande poeta Geraldo Amâncio Pereira! Mote e glosa maravilhosos! Adorei!

    Tudo de bom!

    Violante

  6. Valeu, Aristeu, essa linda homenagem ao grande repentista e poeta Geraldo Amâncio Pereira, homem de um talento incomum e duma simplicidade honrosa.

    Assisti-o sendo entrevistado no programa LERUAITE do Falcão na TV CEARÁ. Dois gênios numa noite só encantado o mundo com prosas, versos e repentes.

  7. Cícero Tavares,

    Grato pelo valioso comentário. Geraldo Amâncio é considerado um dos maiores poetas e repentistas do Nordeste Brasileiro. A riqueza da poesia dele ganhou notoriedade em dezenas de cantorias e desafios realizados em vários estados da região. Certa vez, numa cantoria de pé de parede pediram para Geraldo Amâncio cantar com o mote: “Não há quem substitua a mulher que a gente ama”. Os dedos escorregaram pelas cordas da viola e com a velocidade do pensamento desfechou os seguintes versos:

    Ela partiu desde logo,
    A outro amor não me entrego
    Em ondas de dor me navego
    Em mar de pranto me afogo
    Pra matar o tempo eu jogo
    Dominó, baralho e dama;
    Porém junto ao meu pijama
    Outra não dorme e nem sua,
    Não há quem substitua
    A mulher que a gente ama.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

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