JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Patrícia levantava cedo, como todos os professores, e voltava para casa à noitinha. História de antes da pandemia. Em verdade, quase mais ninguém volta para casa. Nos dias que correm, volta-se para apartamento. O de Patrícia fica no Edifício Simone de Beauvoir, no Parnamirim (Recife). Zefinha trabalha nesse apartamento. Não sabe ler. E decidiu que precisava aprender. Para anotar os recados. Para entender as receitas, na cozinha. Para andar de ônibus sem ter que pedir favor a quem está na fila, querendo saber qual é. Mas, sobretudo, porque seu filho, Luiz Henrique, começou a ser alfabetizado na escola. E seria uma vergonha, para ela, não ser capaz de ajudá-lo nos deveres-de-casa. Várias colegas de profissão, no edifício, também não haviam estudado antes por quase as mesmas razões dela: horários das aulas incompatíveis com o trabalho, não conseguir aprender na mesma velocidade que a das crianças, vergonha por estar em classe com pessoas tão mais jovens.

Patrícia decidiu ajudar essa gente. Sem intenção de reproduzir, nas aulas que daria, os currículos escolares tradicionais. Não fazia sentido, para ela. Passou a ensinar, apenas, o fundamental para ser cidadão. Ler e escrever. Saber digitar calculadoras (baratas, no mercado) em vez de exigir, dos próprios alunos, que soubessem fazer as complicadas 4 operações matemáticas. Além de conceitos econômicos como lucro, prejuízo e troco. Mesmo sem haver literatura sobre esse novo método. Assim tudo começou. E cresceu. Zefinha trouxe amigas do edifício. E mais gente foi aparecendo. Patrícia decidiu estimular outros, em edifícios próximos, a fazer o que estava fazendo.

Foi como febre. O que no começo era apenas um jeito de ajudar Zefinha, passou a ser imitado. Há uma energia enorme, no coração das pessoas comuns, esperando para ser despertada naquele momento mágico que separa o criticar do fazer. As grandes transformações começam assim. Por dentro. Conversei com Cristovam Buarque, então Ministro da Educação, que se encantou com a simplicidade do programa. E pelo fato de que funcionava, no mundo real, e a um custo muito baixo. Havia esperanças no ar.

P.S. Pouco depois, Lula demitiu Cristovam. Por telefone. E, hoje, Patrícia Cavalcanti Arruda, a professora, é só saudade. Como dizia Pessoa (O Andaime), o tempo “Leva não só as lembranças/ Mas as mortas esperanças”.

7 pensou em “TRISTES ESPERANÇAS

  1. Dr. Paulo, tenho pelo senhor enorme respeito. Não nos conhecemos pessoalmente. Sei do senhor pelos seus escritos e pelo que fala, sempre elogiosamente a seu respeito, o nosso amigo comum Luiz Berto. Gosto muito do que leio em seus artigos, aqui nesta gazeta. O relato de hoje fala sobre a iniciativa de uma senhora que decidiu tirar das trevas da ignorância pessoas que orbitavam ao seu redor, parece que com resultados positivos. Desculpe a pergunta que farei em seguida, em tom irônico, sobre o processo que a Patrícia, heroína da crônica em questão, utilizou para atingir o seu objetivo: ela usou técnicas reconhecidas cientificamente, para atingir o seu intento?

  2. Era minha irmã. E a perdemos esta semana. É professora de alunos especiais. E o método simplesmente deu certo. As máquinas de calcular ela dava, aos alunos, já com pilha. Custavam quase nada. E, para fazer 7 x 7 , não precisavam aprender s[nada, além de teclar o 7, o vexes e mais um 7. Simples assim. Não faz ideia, amigo, da quantidade de adultos, envolta dela, que viraram gente. Sabendo ler, escrever e mexer nessas maquininhas. A]chegou a pensar escrever, dizendo como é fácil. E barato. Abraços.

    • Dr. José Paulo, fiquei gratificado ao saber dos feitos da Patrícia, ao ler a sua crônica. E profundamente triste ao saber que ela já não está entre nós. Aceite minhas sinceras condolências. Pessoas iluminadas como ela, que tiram das trevas da ignorância os seus semelhantes, fazem muita falta. E ela será lembrada, com certeza, não só pela própria família, como por aquelas criaturas a quem ela beneficiou muito, fazendo apenas o necessário.

  3. Fiquei emocionado com a história de Patrícia. Como faz falta ao País a existência de algumas Patrícias a suprir a deficiência estatal na educação, por um lado e, por outro, não submetendo às humildes pessoas o constrangimento de se declararem analfabetas, frequentando salas de aula inadequadas e inexistentes para pessoas já adultas. Só me veio à mente a alegria que sentiria o Mestre Paulo Freire se dessa história tomasse conhecimento. Por esses predicados, ouso dizer que a perda de Patrícia não deve se restringir aos limites familiares em virtude de suas atitudes em prol de quem necessitava da beleza do saber ler ou de fazer uma conta de somar.

  4. Dr. José Paulo,

    Nunca o vi tão comovido e abalado!

    A Professora Patrícia realmente era o xodó de suas emoções, orgulho, honradez, porque o nobre amigo do coração via nela milhares de Patrícias fazendo o bem sem perguntar a quem.

    Só sendo filha de Dona Lia e Senhor José Paulo para ter um coração desse, imenso de humanidade.

    Também choro seu encantamento até esse momento que escrevo essas linhas.

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