MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

No final da década de 1980 este fuxicador desmantelado que se dirige a vossuncê era responsável por toda a área industrial da empresa para a qual trabalhava em São Paulo.

Em 1987 tivemos um princípio de incêndio na área de fornos industriais, e a demora do Corpo de Bombeiros em chegar ao local da fábrica, devido ao congestionamento do trânsito, quase resultou em uma tragédia.

Resolvemos então implementar um plano para combate imediato a incêndios, mitigando o alastramento do fogo até a chegada dos bombeiros.

Esse plano incluía, entre outras providências, o treinamento de todos os funcionários da empresa no uso dos três principais tipos de fogo (A, B e C) e de seus extintores mais apropriados, o uso correto dos hidrantes, os primeiros socorros e a comunicação interna e externa sobre o que estava ocorrendo.

Nota: há cinco classes de fogo, classificadas como “Classe A, B, C, D e K”, sendo as mais comuns a Classe A (incêndios em sólidos como papel, madeira, plástico ou borracha), a Classe B (incêndios causados por líquidos inflamáveis) e a Classe C (incêndios causados por equipamentos elétricos).

Quando alguém percebia o início de um incêndio, ligava para o ramal 333, dizia o local e que classe de fogo era. O atendimento ao ramal 333 era prioridade absoluta pela telefonista. Toda e qualquer outra ligação era cortada. As sirenes eram imediatamente acionadas e um aviso por alto-falantes transmitia as informações para a fábrica e os escritórios.

Para manter sempre atualizado o treinamento, a cada 4 a 6 semanas havia um “incêndio falso” em algum local da fábrica, por mim estabelecido e confidencialmente comunicado aos Diretores na hora do treinamento. Arrumávamos uma fogueira em algum local com restos de madeira ou de outro material, jogávamos um pouco de querosene, púnhamos fogo e iniciávamos o processo de alarme. Os funcionários deveriam pegar os extintores apropriados, macas e mantas para socorrer eventuais feridos e chegar ao local em menos de dois minutos. Aqueles que chegavam com os equipamentos corretos dentro de dois minutos eram recompensados com uma hora extra padrão em seus salários. O Engenheiro de Segurança e eu registrávamos todo o processo.

Tudo passou a funcionar satisfatoriamente, sendo que vários eventos foram realizados com sucesso. Todos levavam muito a sério tal treinamento de combate a incêndios.

O que se assucedeu bem assucedido foi que na véspera de um desses treinamentos um grave problema de saúde na família me obrigou a faltar ao trabalho no dia já marcado. O Gerente de Recursos Humanos, Heitor M., contratado há cerca de quatro meses, e já conhecedor do sistema, ficou então encarregado de conduzir as atividades necessárias.

Heitor era um refinado profissional, PhD “summa cum laude” no curso de pós-alfabetização pela Universidade Paulo Freire de Tapiratiba, o que seguramente já lhe permitiria saber a diferença entre uma uva e uma jaca. Sua competência foi posta à prova.

O procedimento foi seguido à risca.

Quero dizer, quase! Não foi bem assim.

Os Diretores não foram avisados. Heitor e o Engenheiro de Segurança foram até o fundo da fábrica, tocaram fogo em uma pequena fogueira, acionaram o alarme, passaram as informações à telefonista e ficaram esperando os bravos funcionários com seus extintores. Como os Diretores nada sabiam, acharam que era um incêndio de verdade e um princípio de pânico aconteceu.

Daí em diante sua postura degringolou. O Heitor meteu o pé na jaca.

Pelo que me consta, ninguém na empresa sabia da vocação viadenta do Heitor. Estrela da festa, recebeu os esbaforidos operários carregando seus extintores e macas com gritinhos, pulinhos e risadinhas, saltitando qual uma gazela em frente à fogueira:

– É brincadeirinha, é de mentirinha, não é de verdade, é de mentirinha…

Não conseguiu conter o emputecimento do pessoal.

Na semana seguinte foi demitido.

4 pensou em “TREINAMENTO CONTRA INCÊNDIOS

  1. Magno… “vocação viadenta” vai entrar para os anais do Cabaré do Berto e do JBF….texto delicioso, alegre e que ilumina meu dia. Parabéns meu patrício que mora ai nos Zisteites.

    • Grande Roque, ilustre e sacudido conterrâneo: grato pelo gentil comentário. Na verdade, conheço alguns representantes humanos que possuem uma jibóia pendurada no meio das pernas mas que, no fundo, gostariam mesmo era de possuirem uma gruta que a escondesse!!! Grande abraço, saúde e alegria em seu final de semana.
      Magnovaldo

  2. Magnovaldo, folgo em lê-lo novamente!
    Como foi a viagem?
    Demorou tanto pra voltar que fiquei preocupado e acabei importunando o Dr. Alexandre.
    Peço que me perdoe, estendendo minhas desculpas ao Dr. Alexandre.
    Quando falar-lhe, por gentileza, parabenize-o e agradeça-o, em meu nome, pela forma educada que me respondeu.
    Sobre o incêndio, ficou parecendo uma certa prova que, exposta em sua mediocridade, levou os responsáveis a dizer que a tal prova não dizia o que dizia e, se dizia o que dizia, não queria dizer o que quis dizer.
    .

    • Grande e Glorioso Nonato:
      Fico muito tocado pela sua preocupação comigo.
      Passei pouco mais de dois meses viajando pelo meu amado país, o Brasil, mesmo com todas as gangrenas produzidas por essa peste chamada esquerdismo – PT, PSOL, PCO, e outros porcos comunistas. Aproveitei para curtir a vinda de minha nova netinha, matar a saudade de meus filhos e dos outros netos, rever os amigos da Faculdade – fizemos um almoço para comemorar os 56 anos de formados (isso mesmo, 56 anos!), resolver os assuntos relativos ao inventário de minha falecida sogra, comer carne seca, pão de queijo, galinha cozida, moela, dobradinha, tomar um chopinho gelado na beira da praia e outras cositas más. Realmente, dois meses de completa felicidade, barriga e coração cheios.
      Já conversei com meu filho, e receber todos educadamente, acredito, foi uma das nobres lições que deixei para eles.
      Bom saber que você está bem.
      Desejo-lhe um final de semana com muita saúde, paz, alegria e prosperidade junto aos seus queridos.
      Grande abraço.

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