CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Durante uma recepção no Palácio do Campo das Princesas, há um bocado de tempo, fui apresentado ao Dr. Ronaldo Cunha  Lima.

Nosso Padrinho de Apresentação, Mota Menezes, arquiteto e historiador, aproveitou para dizer que conhecer um poeta sonetista era uma dádiva divina, quanto mais sendo político, advogado e administrador público.

A conversa fluiu e ficamos sabendo que tínhamos nascido no mesmo ano de 1936, quase no mesmo mês: ele em 18 de março e eu 18 de junho. A coincidência nos fortaleceu a camaradagem.

Ronaldo soltou logo um daqueles seus sorrisos tradicionais, e para inaugurar a entrevista casual, emendou com uma filosofia de Vinícius de Morais:

“A amizade é um sentimento maior do que o amor porque permite que o objeto dela se divida com outros afetos.”

Desejei entrevistá-lo, visto que era meu ofício e ali estava em missão do Diário de Pernambuco, numa noite de gala, cujo salão estava com muitas pessoas importantes.

Eu estava na missão de repórter, mas, para ser ético, apelei para um artifício: a ajuda de um paraibano que estava com ele, o Elpídio Jr., que fez a foto desta crônica.

O poeta, sempre ocupado, apertando mãos das muitas pessoas que chegavam perto do nosso grupo, me levou a entrevistar o fotógrafo, sobre a trajetória política, de quem ele parecia conhecer bem.

Fale-me sobre o homem-político, solicitei.

Governador da Paraíba, Senador, Deputado Federal, Vereador, Prefeito de Campina Grande e Deputado Estadual por dois mandatos. A partir de 1969, deixou temporariamente a política e foi advogar em São Paulo. Ao retornar, elegeu-se novamente Prefeito de Campina Grande.

Qual o momento interessante que ele viveu ou a poesia que eu poderia abrir minha reportagem?

São tantas, meu amigo que é difícil pautar, mas posso citar suas frases mais notáveis:

“Minha vida tem a transparência dos cristais.

Tenho como fórmula viver a vida pelos olhos da alma e pela janela do coração

A fé é uma fonte que se alimenta do eterno. Nela os homens se revigoram para a travessia das solidões e dos desertos da vida.

A vida é uma eternidade de sonhos na transitoriedade dos instantes.

Entre nós, as mãos dadas são tão dadas que não são notadas que são duas.

Entre nós, as palavras são tão poucas que nossas bocas só dizem duas: Meu amor!

Quando uma das duas vezes em que foi Prefeito de Campina Grande, mandou fixar um verso:

Campina Grande, sorrindo,
abre as portas da cidade.
Ao chegar seja bem-vindo
e ao partir leve saudade.

Guardei um recorte de jornal com esta interessante historieta, fato que terminou sem um único arranhão no piloto e passageiros:

“Anoitecendo. Ronaldo, os políticos Humberto Lucena e Antônio Mariz estão num pequeno avião rumo a Cajazeiras. Em certo momento o piloto anuncia falha nos instrumentos da aeronave. Teria que fazer um pouso forçado num descampado. Ronaldo cai na gargalhada.

O Senador Humberto Lucena reclama:

– Deixe de histerismo Ronaldo. Nós vamos cair e você fica rindo dessa maneira!

E ele respondeu:

– Eu só estou rindo porque imagino as manchetes dos jornais da Paraíba, de amanhã: “Cai avião e só Ronaldo escapa!”

Um comentário em “TRANSITORIEDADE DE INSTANTES

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