MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

De autor desconhecido, tive conhecimento em 2004, deste texto que rola na net.

Por suas peculiaridades, trago aos leitores fubânicos.

* * *

Esta é uma redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco – Recife) que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

¨Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.

O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa”.

18 pensou em “TRANSA GRAMATICAL

  1. Caríssimos irmãos nordestinos, não lembro de ter lido um texto tão criativo, gostoso e correto deste que comecei a ler, há 62 anos passados!

    • Verdade, Fernando. Achei a mesma coisa. Por isso achei pertinente divulgar para deleite dos leitores.
      Obrigado pela participação.

    • Tudo me leva a crer, José, que no jardim de flores do Lácio, o encanto e a criatividade é incalculável…
      Não é verdade?

      Muito grato pelo comentário.

  2. “A perplexidade é o início do conhecimento.” Khalil Gibran

    Ah esses fubânicos colunisas paridores de mesóclises-a-trois… Ah esses textos fantásticos atribuídos aos anônimos que pululam no universo da escrita. Por tudo que envolve de maestria este texto que conheço a bastante tempo e que faz parte de meus guardados em baú de tesouros, resta-me aplaudir ao nosso Marcão por levá-lo á luz fubãnica para deleite de todos os nossos leitores.

    Seu texto me fez recordar um outro, de onde extraio pequeno trecho: “O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha encontrá-lo.”

    Abração, genial Marcão (melhor do que uma metáfora por todo o edifício.)

    • Preclaro Sanches.

      Sempre procuramos disseminar a boa semente.

      Pela admiração e respeito que nutro pelo nobre colunista, poderia até apontá-lo como suspeito pelos gratificantes comentários.

      Mas (suspeitoso mas), pra quem já foi apanhado com a mão na botija do tesouro de Bresa, (o que sempre resulta em maravilhosas bienaventuranzas), me atrevo a deixar registrado meus sinceros cumprimentos pela bondosa participação.

      Muchas Gracias!!!

    • Lisonjeado pelo amável comentário, Cenira.

      Procuro sempre apresentar temas edificantes e seminais.

      Meu muito obrigado a você!

  3. Marcos eu gosto muito desse estilo. Já escrevi aqui dois textos parecidos: um com os apelidos da Odebrecht e outro com nomes de blocos vdd carnaval. No Facebook já publiquei com título de músicas da jovem guarda, de Raul Seixas, de times de futebol, de Belchior, Roberto Carlos, esse ano usei as expressões de uma quadrilha junina. Enfim, é um estilo que gosto muito.

    • Tal estilo, acaba tornando-se uma forma de especialidade no tema.

      O domínio e a abrangência do tema enunciado fica mais leve e patente, levando o interlocutor reter e gravar melhor a informação.

      Isso fica para professor
      Parabéns, mestre Assuero.

  4. Parabéns pela excelente postagem, Marcos André! O texto é genial! Uma manobra do destino, que muitos substantivos e artigos solitários sonham que aconteça…rsrs.
    Pessoalmente, há vinte anos subo e desço no elevador e uma vez ele parou, por conta de uma pane. Entrei em pânico. Se houvesse um substantivo masculino comigo, como esse do texto, talvez tivesse sido menos ruim….rsrs

    Um abraço.

    • Seu comentário, Violante, em muito superlativa e adjetiva a postagem.
      Além de intensificar, adverbialmente falando.
      Conferindo um predicativo prá lá de bem vindo, ao texto.
      Quanto a pane ocorrida, o substantivo masculino é que se sentiria, adjetivamente, lisonjeado.
      E eu, mais ainda, com seu carinhoso comentário.

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