GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

A HISTÓRIA DA FAMÍLIA QUE MORREU DE SEDE NO ATOL DAS ROCAS

O Atol das Rocas é um conjunto de dois arrecifes circulares de coral no mar territorial brasileiro, a cerca de 144 km de Natal, é o único atol do Atlântico Sul. Ponto de muitos naufrágios por se tratar de uma região com pouca profundidade, o Atol das Rocas é apenas uma parte desta região que fica acima do nível do mar. O primeiro naufrágio data de 1503, apenas três anos após o descobrimento do Brasil, e se tornaram frequentes por muito tempo, até que em 1881 começou-se a construir um farol em uma das ilhas, a Ilha do Farol. Na outra ilha, a do Cemitério, eram enterrados os corpos das vítimas dos naufrágios.

Foto aérea do Atol das Rocas

A pouca altitude do atol, menor que a de uma pessoa, dificultava o seu avistamento pelos navegadores, para melhorar a visualização foram plantados coqueiros, que se mostraram ineficientes para este fim. A segunda ideia foi de implantar um farol, o projeto foi feito e o material de construção foi transportado até o atol, mas descobriu-se que a base não suportaria o peso do imenso farol, que seria o mais alto do Brasil até aquela data, e o material foi abandonado, as pedras ainda estão lá a vista. Em 1883 foi erguido um farolete improvisado, que precisava ser ligado e desligado todos os dias e pra isso era necessária a presença de uma pessoa: o faroleiro, que foi morar no local com sua família.

Ruínas do antigo farol, da casa e o novo farol automático

Para esta família foi construída uma casa de pedra com uma cisterna ao lado, lá não há fonte de água potável e alimentos só peixe e coco, a família dependia do abastecimento bimensal que fazia o barco da Marinha, mas as vezes este barco atrasava. O faroleiro João da Silva Saraiva, sua esposa e três filhos, nascidos no atol, quase morrem de sede, Saraiva colocou bilhetes dentro de garrafas e as-atirou no mar, enquanto aguardava a chegada do navio, fervia água salgada em uma panela que tinha como tampa um chapéu, quando o chapéu ficava úmido ele espremia em uma garrafa e deixava esfriar, ficou nesta pendenga até o dia que o bendito barco aportou.

Carta náutica antiga do Atol das Rocas

Já em 1913, outro faroleiro, o noronhense, Virgilio Francisco Ramos foi deixado na ilha com a sua esposa e não se acostumou com a alimentação restringida a ovos e peixes, após 15 dias seus organismos reclamaram do cardápio, angustiados fizeram uma sinalização de socorro com bandeiras a um barco inglês que passava por perto, o capitão lhe deu arroz, açúcar e conservas e levou uma carta com a reclamação. Imediatamente a Marinha mandou o navio Benjamin Constant com outros itens alimentícios, após alguns anos e já com duas crianças, decidiram deixar o Atol e retornar para Fernando de Noronha, chegando lá, as duas filhas contraíram doenças e morreram, não haviam desenvolvido imunidade para as doenças da civilização.

Resquícios de naufrágios

Antes disso, uma criança nascida no atol, filha do faroleiro, estava brincando e abriu a torneira do reservatório d’água, deixando escorrer até a última gota, ao ver a situação o faroleiro usou os meios de emergência para conseguir água, aparar a chuva do telhado da casa, mas se a chuva já é pouca na época de inverno imagina no período de seca, nada. Ele tentou o método de ferver água do mar, porém a quantidade produzida é muito pequena, além do mais o material para o fogo também é escasso. No desespero eles atearam fogo na casa para chamar atenção de alguma embarcação que transitasse por perto, até que um barco pesqueiro percebeu o pedido de socorro e foi fazer o salvamento, era tarde, ao chegar no atol, a criança e a esposa já haviam morrido e o faroleiro, que sobreviveu bebendo sangue dos pássaros, foi socorrido mas faleceu durante a viagem.

Base científica da ICMBio

Hoje o atol conta com um alojamento moderno, com eletricidade e internet para no máximo cinco pesquisadores ligados a alguma universidade brasileira ou instituto de pesquisa. A base conta com três alojamentos e uma pequena cozinha. Não há pia nem chuveiro, a louça é lavada com água salgada e areia, o banho é no mar. Os banheiros são dois, um de cada lado da Ilha do Farol: a própria praia, o papel higiênico é areia. O alerta de “ocupado” é no grito: “vou ao banheiro”, e assim se mantém a privacidade.

Documentário do Globo Reporter de 2004

5 pensou em “TRAGÉDIA NO PARAÍSO

  1. Só uma correção, essa distância de 144 km de Natal não procede, na verdade são 144 mn (milhas náuticas) que da em torno de 267 km.

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