GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

De Hércules, um semideus da mitologia grega notabilizado pela sua força, veio a expressão “trabalho hercúleo”.

Refere-se a uma tarefa que exige grande esforço; extremamente difícil de se realizar.

Como o que vemos, agora, quando os diálogos entre o Procurador da República Deltan Martinazzo Dallagnol e o então Juiz Sérgio Fernando Moro foram revelados pelo site The Intercept, indicando a existência de colaboração entre o juiz e o acusador no andamento de processo judicial criminal.

Certamente, a reação dos envolvidos, como acusados de irregularidades consistentes nessa colaboração, e até mesma na condução da acusação pelo juízo da primeira instância, em algum processo, vem constituindo um trabalho hercúleo, um esforço digno de Hércules na tentativa de garantir que os contatos entre uma das partes na ação, o Ministério Público, e o encarregado de sentenciar, o juiz, não representaram o que os diálogos demonstram.

Um resumo reduzidíssimo das circunstâncias de tais conversas diz que o juiz Sérgio Moro sugeria ao procurador Deltan Dallagnol que trocasse a ordem de fases da Lava Jato, cobrava agilidade em novas operações, dava conselhos estratégicos e pistas informais de investigação e, ao menos em uma decisão, criticou e sugeriu recursos ao Ministério Público e deu broncas no procurador, além de ter levado Dallagnol a retirar das audiências uma procuradora que o juiz julgava muito fraca em ação na qual se empenhavam esforços para condenar à prisão o ex-presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva – à qual ao final foi sentenciado.

Querem convencer de que são normais os contatos entre o juiz e as partes nas situações em que se deram e foram reveladas ao público.

Pois bem, quando se dá um esforço gigantesco (como que se está vendo neste momento em que partes envolvidas na condenação de Lula, políticos que a ele se opõem, parte da imprensa alinhada ao endeusamento do juiz envolvido, hoje Ministro da Justiça, redes sociais que dão apoio incondicional a qualquer comportamento da chamada Operação Lava Jato e, enfim, forças em geral que estão agindo a favor de Moro e Dallagnol, nesse trabalho hercúleo de justificar as ações reveladas pelos diálogos) significa que a força da ação em sentido contrário é também muito grande.

Ou seja, a represa que está sendo construída não se destina a conter um regato, mas um volume imenso das águas de grandes rios.

Trata-se de um cabo-de-guerra entre duas forças poderosas, de modo que é preciso até mesmo que a população conivente saia às ruas para dar apoio ao lado que enfrenta as acusações de parcialidade, pois as revelações de conluio decorrentes dos diálogos são poderosas.

“Manifestações de rua em defesa do ministro da Justiça, Sergio Moro, e da operação Lava Jato foram convocadas nas redes sociais para o dia 30 de junho. O catalisador dos atos é a publicação de supostas mensagens trocadas entre o ex-juiz e membros da força-tarefa da Lava Jato, divulgadas pelo site The Intercept, que questionam a conduta de Moro e procuradores do Ministério Público Federal”, diz a Gazeta do Povo, informando sobre as convocações.

Pois, vá correndo levar teu indispensável e irresponsável apoio para as ruas no dia 30 de junho de 2019 e participar do Trabalho de Hércules em favor de Moro, porque as revelações são graves e precisam de muito, muito esforço para que Lula seja mantido injustamente condenado.

Os que estão no outro lado do cabo-de-guerra não precisam ir às ruas: os diálogos falam por si.

Deixe uma resposta