ALEXANDRE GARCIA

Mil dias se passaram desde que Bolsonaro tomou posse.

A palavra mais citada no discurso de mil dias do presidente da República foi liberdade. Por quê? A liberdade de expressão, garantida pelo artigo 220 da Constituição, está em perigo. E não é apenas a censura, que tem sido praticada, embora vedada no mesmo artigo. As liberdades estão sendo cerceadas, como se uma vontade totalitária estivesse agindo, para estabelecer uma ditadura do tipo soviético, do tipo exposto por George Orwell, no seu brilhante livro 1984.

Fico imaginando o inusitado que seria se o presidente, dias antes, na ONU, denunciasse que no seu país há censura, cerceamento de direitos fundamentais e presos por crime de opinião, sem o devido processo legal. Que aqui se estabelece o que pode ser dito e o que não pode. Certamente não denunciou isso porque viria prejudicar a imagem do país. Mas se o tivesse denunciado, esse não seria o inusitado maior.

O maior inusitado é que censura, cerceamento de liberdades e prisões não são atos de um presidente da República chamado de autoritário pelos seus opositores, mas atos que se originam de decisões da Corte encarregada de defender e guardar a Constituição e aplaudidos e apoiados por meios de informação e instituições de defesa das leis.

A pandemia foi o pretexto para pôr em prática a natureza totalitária que estava dormida. E até o Legislativo se curvou, quando recebeu ordem de abrir uma CPI no Senado e, depois, de prender um deputado. O Presidente da República resignou-se quando o Supremo decidiu que ele não poderia nomear o seu Diretor da Polícia Federal.

Lembro-me do Plano Cruzado, quando multidões se converteram em fiscais do Sarney e saíam a prender gerente de supermercado e de farmácia, como se fossem fiscais de quarteirão soviéticos ou Sturmabteilung de Hitler, enquanto a Polícia Federal entrava no pasto, sem mandado judicial, para prender boi gordo. E ninguém reclamou daquele totalitarismo.

Hoje temos agências de censura, também chamadas de agências de checagem, ressuscitando tempos sombrios da Humanidade. Uma inquisição sob o nome de CPI chama os investigados, que são desrespeitados por ironias e gritos. Rótulos de negacionista são aplicados aos que discordam de dogmas; youtubers são levados a depor na polícia, como parte de um aviso e intimidação. Esses mil dias lembrados pelo Presidente me faz pensar que nos meus quase 30 mil dias de vida não havia testemunhado liberticídio assim no nosso país.

1 pensou em “TOTALITARISMO HOJE

  1. Olhando para o que acontece na Austrália , o mundo faria o hoje está fazendo , nada , fechando os olhos .
    Na Austrália acontece o que foi escrito por Alexandre Garcia e parece que não acontece . A primeira ministra de uma região da Austrália falou o mesmo que o prefeito (?) do RJ falou : ” vamos dificultar a vida dos não vacinados ” .
    Só que hoje ela caiu

    Primeira-ministra do estado mais populoso da Austrália renunci
    01/10/2021 06h13

    Sydney, 1 Out 2021 (AFP) – A primeira-ministra do estado mais populoso da Austrália renunciou nesta sexta-feira (1) em meio a uma investigação por corrupção, deixando os habitantes de Sydney, que obedecem um confinamento há vários meses, sem líder.

    Gladys Berejikliann, chefe de Governo do estado de Nova Gales do Sul, onde fica Sydney, anunciou a saída do Parlamento depois que um organismo anticorrupção anunciou a abertura de uma investigação contra ela por suposta corrupção.

    “Minha renúncia como primeira-ministra não poderia ocorrer em momento pior, mas o momento está completamente fora do meu controle”, disse Berejiklian à imprensa.

    “Não quero ser uma distração do que deveria ser o foco do governo estadual durante esta pandemia, que é o bem-estar de nossos cidadãos. Sempre foi e sempre será”, completou a primeira-ministra, que aparecia quase diariamente na televisão desde o início da pandemia de covid-19.

    Esta governante conservadora estava à frente do estado desde 2017.

    Uma agência estatal anticorrupção está investigando se ela favoreceu um ex-namorado, então deputado, na concessão de subsídios a seus eleitores. Berejikliann nega as acusações.

    Desde o fim de junho, os cinco milhões de habitantes de Sydney estão em confinamento, uma medida que deve chegar ao fim em 11 de outubro.

    O número de casos diários de covid-19 começou a diminuir, mas Nova Gales do Sul continua registrando mais de 800 a cada dia.

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