ALTAMIR PINHEIRO - SEGUNDA SEM LEI

Olivia de Havilland e Montgomery Clift

A película cinematográfica TARDE DEMAIS é uma belíssima adaptação do mestre William Wyler (Diretor de Bem Hur) para a obra do genial Henry James (Os Inocentes). Vencedor de 4 Oscar, incluindo melhor atriz e direção, esse clássico de Hollywood tem no elenco os astros Olivia de Havilland (…E o Vento Levou) e Montgomery Clift (Um Lugar ao Sol). Estados Unidos, meados do século XIX. A jovem e tímida aristocrata Catherine vive sob o rígido controle do pai, o Dr. Austin. Quando Morris, um rapaz bonito e pobre, a pede em casamento, seu pai não autoriza o matrimônio, afirmando que o moço só está interessado na herança da filha. Com excelente roteiro, ótimas atuações e direção magistral de Wyler, Tarde Demais é uma obra-prima para se ver, rever e apaixonar-se

Inquestionavelmente, esse é um gigante do cinema, William Wyler(que morreu em 1981 aos 79 anos) nunca foi um “diretor” e sim um exímio artesão da sétima arte. “Ben-Hur” é o seu máximo, pois dispensa apresentação. É o símbolo das superproduções, de um tempo que não se recorria aos efeitos especiais. E o que dizer do clássico “O Morro dos Ventos Uivantes”. Esse é o grande William Wyler que dirigiu três grande faroestes, mas que para a maioria passa batido. São eles: O Galante Aventureiro onde Walter Brennan, pra variar, dar um show de interpretação, ocultando ou escondendo o grande Gary Cooper; Sublime Tentação, um western pacifista, com grande interpretações de Gary Cooper, Dorothy Mcguire e Anthony Perkins; e, o excelente filme Da Terra Nascem os Homens, com aquela briga ranzinza entre Gregory Peck e Chalton Heston que é antológica. Aliás, há quem diga que foi nesse extraordinário faroeste que William Wyler resolveu dar o papel de BEN-HUR ao ator Chalton Heston.

Outro personagem de Tarde Demais é um ator sensível, emocional, dono de uma beleza melancólica. Olhos grandes, bonitos e carentes. O talentoso MONTGOMERY CLIFT marcou uma época. Fazia parte dos atores rebeldes de Hollywood, como Marlon Brando e James Dean, e eles lançaram uma nova identidade masculina cinematográfica, representada por heróis vulneráveis, frágeis e ambíguos. Um acidente automobilístico no auge de sua carreira desfigurou o seu rosto, levando-o a beber e se drogar até a morte precoce aos 45 anos de idade, numa trajetória de vida tão trágica como alguns de seus filmes. De acordo com pesquisas realizadas pelo cinéfilo Antonio Hahud, durante meses, Montgomery passou por inúmeras cirurgias. A reconstrução facial, o uso de analgésicos pesados e o abuso desenfreado de álcool envelheceram rapidamente o ator. Nunca mais foi o mesmo, transformando-se num homem amargurado e triste. Assim começou o que foi chamado de o “SUICÍDIO MAIS LONGO DA HISTÓRIA DE HOLLYWOOD”…

A terceira personagem que merece destaque desse filme é nada mais nada menos que Olivia de Havilland, que nos dá uma das mais brilhantes interpretações do cinema. A atuação da atriz é simplesmente extraordinária, como afirma o estudioso do assunto Sérgio Vaz: “O filme é um baita melodramão, naquele estilo definido como clássico, ou então acadêmico, academicista”. Um baita melodramão, ambientado na classe alta da Nova York de meados do século XIX, ou seja, em torno de 1850. A protagonista, a herdeira do título original, Catherine – o papel de Olivia de Havilland –, é mostrada ao espectador como uma moça tímida, recatada, ingênua, pouco afeita à vida social, às conversas frívolas daquela Corte sem Rei. Uma moça não propriamente bela, e que não sabe dançar as danças de salão – dois pecados mortais, para época. No enredo do filme surge um rapaz bonito, elegante – mas sem fortuna. Como nos romances ingleses que descrevem os costumes dos ricos no Império Britânico. O sentido da vida é o bom casamento, o encontrar um bom partido e selar um proveitoso contrato de união de bens. A interpretação do casal(Olivia & Clift) é deslumbrante.

O filme tem um elenco afiadíssimo: Ralph Richardson, como o pai protetor e distinto, porém pouco amável; Montgomery Clift, um dos grandes galãs da época, como o ambíguo pretendente de Catherine; a veterana Miriam Hopkins e, especialmente, a grande estrela do drama: Olivia de Havilland, encantadora como a tímida “herdeira” (que é o título original deste longa adaptado de Henry James) que cresce geniosamente à medida que a película se expande, se firmando como uma heroína. O diretor Wyler soube muito bem conduzir sua câmera e o roteiro vai cravando cada pedaço daquela história para que no final a gente tenha uma satisfação completa com relação a tudo que Catherine passou e fez passar e nisso temos uma Olivia de Havilland que faz uma construção de personagem inatacável, se comparar as feições de abertura do filme para a cena final, épica, é gritante o quanto e como aquela personagem mudou. Filmaço!!!

Drama romântico de época indicado a 8 estatuetas do Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante, Ralph Richardson (1902-1983), e melhor fotografia em preto e branco, vencendo os de melhor atriz, Olivia de Havilland (atualmente, com 103 anos), melhor direção de arte em preto e branco, melhor figurino e melhor trilha sonora; no Globo de Ouro, mais 3 indicações: melhor atriz coadjuvante, Miriam Hopkins (1902-1972), e melhor diretor, vencendo o de melhor atriz de filme dramático. Baseado na obra “Washington Square”, de Henry James (1843-1916), o filme teve uma refilmagem: A herdeira (97). A trama foi levada para o teatro – já como “The Heiress”, fez sucesso na Broadway e então, virou filme. Montgomery Clift (1920-1966) realmente aprendeu a tocar no piano a música “The joys of love”, que dedica à personagem de Olivia de Havilland.

Para quem assistiu, de imediato, fica a impressão que seria mais um filme água com açúcar, que final excelente. Olivia de Havilland mostrou o motivo de ter ganhado o Oscar de melhor atriz por esse filme. “Tarde Demais” é um melodrama estupendamente belo que retrata a classe alta nova-iorquina dos anos 1800 com todos os seus preconceitos e hipocrisia. Uma pena que essa preciosa adaptação do romance “A Herdeira” de Henry James ande atualmente meio esquecida. Indubitavelmente, a obra é magistral em todos os aspectos. Em seu bojo percebem-se excelentes trabalhos de direção, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora, direção de arte e figurinos (os três últimos vencedores do Oscar). O elenco é bem escalado com destaque para essa dama do cinema que ainda está entre nós, a centenária Olivia de Havilland, em uma grande atuação merecidamente vencedora do Oscar. É simplesmente um belo e amargo filme…

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