ACÁCIO SABUGUEIRO - MIOLO DE POTE

Eu sempre tive um sonho. Qualquer dia desses, quando não tiver mais compromissos nem responsabilidades com ninguém, virar ermitão. Pegar um saco, por ali duas ou três cuecas, duas calças, três camisas e o dinheiro que tiver ao meu alcance na hora da decisão.

Hoje, acho até que comecei a treinar para fazer isso algum dia. Está longe de mim o interesse de saber como meu ex-companheiro de Exército, “Soldado Berto”, me encontrou e manteve contato. Deve ter sido obra de algum xeleléu dele.

Tudo isso porque fiquei com inveja de uma história, provavelmente estória, contada pela minha comadre Maria de Jesus, hoje enviuvada de um grande amigo do passado. Pois, fiquei com inveja, e com a palma da mão coçando, para fazer isso qualquer dia desses.

Na última visita que fiz ao casal, poucos dias antes da última viagem do meu compadre, proseando depois daquela madorna vespertina, comadre Maria de Jesus me contou a história de um sujeito ermitão, muito sabido, que acabou lhe roubando a atenção e alguns ingredientes para fazer uma “sopa de pedras”.

“Quincas tava viajando – começou a contar Maria de Jesus – para vender umas sacas de milho. Mas, não era pra muito longe, e podia chegar a qualquer hora.”

Prosseguiu: “Eu estava sentada na frente da almofada, com as duas mãos cheias de bilros, atarentada para terminar uma encomenda da comadre Andrelina, que queria viajar pra capital e, quando viajasse, queria levar a renda.”

Apois, o latido do cachorro me tirou a atenção da almofada. Espiei pro portão pra ver quem era. Era um home maltrapilho que nunca fora visto por aquelas bandas. Parecia um mendigo. Achei que queria beber água e fiz sinal pra ele entrar, garantindo que o cachorro não o morderia.” Continuou Maria de Jesus.

Aquele home entrou, se aproximou de onde eu tava e continuei sentada,m e perguntou se eu poderia ajudar ele a fazer uma comida. Eu respondi que tava um pouco difício, apois eu estava sozinha com Deus, e precisava terminar o meu trabalho prumode fazer a entrega da minha comadre Andrelina.

Ele agarantiu que não ia me atrapaiá muito, e precisava só da minha ajuda prumode fazer uma “sopa de pedras”. Achei aquilo estranho, mas fiquei preocupada mesmo foi com a possível chegada de Quincas que, com certeza não ia gostar de encontrar aquele home ali. Mas, como ele disse que num ia atrapaiá, eu permiti.

Foi quando ele percurou fazer umas trempes. Arrumou uns garranchos e uns paus mais grossos e fez um fogo. Abriu um saco velho e dele tirou uma panela de barro, que mais parecia um alguidá. Pediu água e apontei para ele, que a bomba ficava ali ao lado. Ele foi, apanhou a água, lavou a panela e as pedras, e já foi colocando tudo no fogo.” Continuou Maria de Jesus.

Aí ele perguntou se eu não podia lhe dar um pouco de sal e uma colherada de banha de porco para ele botar na panela onde pretendia fazer a “sopa de pedras”.

Tive que parar meu trabalho e fui pegar o que ele pedira. Ele juntou tudo na panela e em seguida me perguntou se eu podia ajuda-lo naquela sopa, oferecendo um pedaço de jerimum e uns pés de coentro. Como não era nada que fosse me deixar mais pobre, fui apanhar o que ele pedira.

Mas, o melhor, foi quando ele me perguntou se eu não podia arranjar duas colheres de arroz e uns fiapos de macarrão. Continuei achando que aquilo não me causaria prejuízo. Fui até a cozinha e trouxe o que ele pedira.

Dez minutos depois foi que aconteceu o mais engraçado: ele pegou uma colher, retirou as pedras da panela, foi até a bomba d´água e ali lavou aquele ingrediente importante para a “sopa de pedras” dele.

Na panela mesmo bebeu aquela arrumada e gostosa “sopa de pedras”!

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