CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VINGANÇA DE ALCOVA

Numa fábrica onde trabalhavam aproximadamente 1.200 cidadãos, a grande maioria eram mulheres. Os homens eram aproximadamente 20% do total. Ocupavam o 3% turno e o setor de manutenção.

O mecânico Guido trabalhava no turno do dia. Mesmo no macacão sempre sujo de graxa era bem bonitão e, com sua fala mansa, agradava a maioria das moças. Meli, já trabalhava faziam alguns anos e era ótima funcionária. Depois de longa paquera do Guido, caiu na sua rede e resolveu aceitar aquelas saidinhas das sextas-feiras.

Na segunda-feira, Guido deu com a língua nos dentes. Afinal, uma das mais bonitas funcionárias lhe pareceu um belo trunfo. A notícia chegou aos ouvidos de Marta irmã de Meli que também fazia parte do quadro de funcionários.

É necessário explicar que essa história se passou na década de 90 quando não estávamos em plena era “digital”. Os assuntos dentro de uma fábrica, eram tratados boca-a-boca e os locais preferidos eram refeitório, vestiário, banheiros ou até pontos de ônibus.

As irmãs, depois de uma boa conversa, ao invés de deixarem o caso cair no esquecimento, coisa normal, pois sempre havia outro fato interessante que alimentava os fofoqueiros de plantão, resolveram dar uma lição no fanfarrão.

Passados alguns dias, Marta com ares de moça apaixonada se “assanhou” para o Guido e depois de algumas negativas, aceitou sair com ele na já famosa “sexta-feira”.

Na segunda-feira a história foi bem diferente. Marta bateu seu cartão, entrou no vestiário, trocou sua roupa e logo chamou algumas colegas de sua confiança para contar sua aventura deixando todas boquiabertas.

Imprimindo ares de “sonsa” contou sua decepção com o Guido que na hora “H”, “Negou Fogo”. Para dar mais veracidade inventou que esse boato já tinha ocorrido conforme relatos de outras colegas e se apressou em encerrar o assunto. A vingança estava concluída.

Numa fábrica, certos assuntos correm até mais rápido que um “Zap-Zap” e nosso falastrão logo ficou sabendo o resultado de sua aventura no último fim de semana.

Eis um assunto onde a defesa é muito complicada. Talvez um advogado poderia dizer que estava estudando a defesa de seu cliente e que tudo seria devidamente esclarecido no momento oportuno. Ou ainda, se estivesse envolvido um partido político diria que é intriga da “Oposição”. Uma coisa é certa, qualquer defesa escolhida não podia contar com testemunhas nessa hora, todas invocariam o direito de ficar caladas.

Guido continuou trabalhando na fábrica e passou a desfrutar os finais de semana com sua esposa e filhos.

Trabalhei por 18 anos na mesma fábrica e conheci de perto essa história e tantas outras. Numa convivência que durava 1/3 do nosso dia-a-dia, a fábrica é, para muitos, a segunda família. Onde existem problemas que, ao final, são sempre resolvidos.

Acredito que o Guido aprendeu a lição que nos ensina o sábio ditado: O peixe sempre morre pela boca.

* * *

O inesquecível Poeta brasileiro Noel Rosa (1910–1937) compôs a música em 1933 e Nelson Gonçalves (1919–1998) demonstra todo seu magistral talento na arte da interpretação.

Três Apitos

16 pensou em “SONIA REGINA – SANTOS-SP

  1. Bela história Sra. Regina, quer dizer que Marta, a irmã de Meli, para se vingar do Guido teve que dar uma escapadinha com ele na famosa saidinha de sexta-feira? Depois, como seria a primeira e última vez, fez sua vingança.

    Muito bom, mas entendo que a Marta é o Guido de saias, pois usou de métodos parecidos. Mas vingança é vingança e o Guido mereceu.

    Entende agora porque p. ex., Bob Jeff é meu malvado favorito? Ele é a Marta.

    Tem uma estória (com e mesmo, mas representa uma verdade):

    Um rapaz caiu numa ilha deserta com a Gisele Bündchen. Depois de dias na ilha Gisele quis fazer sexo com o rapaz (a estória é minha eu conto como quiser). O Rapaz disse que tudo bem, desde que depois ela se vestisse de homem. Ela não entendeu direito, porém fez a vontade do rapaz, depois do sexo vestiu-se de homem e perguntou o porquê. Ele disse v. vai entender logo.

    O rapaz deu uma volta na ilha e depois de um tempo se encontrou com a Gisele “homem” e disse:

    – Rapaz, tu não sabe com quem eu estou transando, a Gisele Bündchen, ela mesmo..

    Moral: se um homem sair com a melhor mulher do mundo e não puder contar para um outro homem, não tem graça.

    • Não, Sr. João. A Marta não é o Guido de saias. Ele não tinha o direito de contar dentro da fábrica onde os dois trabalhavam sua aventura amorosa. Não conhecia a Marta na intimidade mas, todos na fábrica sabiam que ela não levava desafora pra casa principalmente quando o assunto era com a irmã mais nova.

      Quanto a figura da política que citou, observe que os problemas dele começaram quando um funcionário do correio resolveu falar mais do que devia. É certo que os assuntos são diferentes mas, ambos: Guido e funcionário pagaram um preço por falarem demais.

      Grata pelo seu comentário.

      Desejo-lhe uma semana de Paz e Saúde junto aos seus.

    • Altamir, concordo contigo.

      As mulheres tem seu jeito para acertar as contas. Nesse caso falamos de pessoas simples. Conheço algumas vinganças nas classes mais altas que arrepiam os cabelos até dos carecas.

      Grata

      Um excelente domingo com muita Paz e Saúde.

  2. Queridíssima Sonia Regina,

    Sua volta aqui nesse espaço do JBF, local de onde a nobre colunista nunca abandonou, com suas crônicas e comentários magníficos a respeito de quaisquer temas abordados, são sempre o corolário para todos nós.

    Com “Vingança de Alcova” (que poderia ser um título de filme), não poderia ser diferente!

    Parabéns, grande colunista! Você ilumina esse espaço nobre do JBF.

    • Cícero, tem razão. Essa história nas mãos de um bom roteirista poderia virar um filme.

      Suas palavras sempre gentis são um estímulo para continuar contando meus “causos”.

      Muita Paz e Saúde a ti e toda tua família.

  3. Essas moças maravilhosas que frequentam a área de comentários do JBF possuem “potencial colunístico fubânico” em seu grau mais elevado. Sancho sempre “ganha precioso tempo” lendo a área de comentários e lá encontra gente talhada para a arte da escrita enquanto se diverte com gente de talento e ótimo humor..
    João Francisco lá lálálálá-lálálálálá-lálálá…., Arthur Tavares, Joaquimfrancisco,Beni Tavares, Maurino, D.Matt, Tarciso, Luiz Carlos, Nikolai Hell, Carlos,Artemisia, Deco, Marcos Pontes, Anita Driemeier e Sonia Regina lá lálálálá-lálálálálá-lálálá…. Estão mais do que prontos para encantar a comunidade fubânica com coluna semanal, dial, minutal ou segundal.
    O JBF é um grande coração de mãe e sempre cabe gente como a gente…

    Recorro aos estádios de futebol, ao grito da galera EM CHAMAMENTO fubânico: Aqui tem um bando de louco. Louco por ti Fubaninthians Pra queles que acham que é pouco. Eu vivo por ti JOTABEEFE. Eu canto até ficar rouco, eu canto…

    E a Artemísia lá lálálálá-lálálálálá-lálálá….
    Sonia Regina lá lálálálá-lálálálálá-lálálá….
    E o Berto lá
    Lá lá lá lá lá lá
    E agora o Berto vai falar…

    • Sancho, bom dia.

      Se colocarmos nas notas musicais corretas teu “lálálálá” vai ficar parecido com a abertura do programa do Silvio Santos.

      Agradeço teu gentil comentário.

      Uma ótima semana de Paz e Saúde a ti e aos teus.

  4. “eu parei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo, minhas malas coloquei no chão, eu voltei”. Feliz em ler essa estimada colunista de volta as teclas.
    Chico Anysio tinha um conta que se passava na época da guerra quando soldados americanos estiveram em Natal e frequentavam um clube famoso, lotado aos domingos a tarde. Uma ocasião, um rapaz convidou uma moça pra dançar, ela estava com mais 3 amigas, e deu-lhe um fora solene. Tempos depois, ele fez carreira no exército, e no mesmo clube viu a moça e as amigas. Resolveu se vingar. Convidou-a pra dançar e ela, talvez em função da farda, aceitou. Ele a conduziu pelo dancing e foi se aproximando de um grupo onde estava governador, vice, comandante, etc todos dançando alegremente, até que o rapaz empurra a moça e grita bem alto: “você peidou. Você peidou e eu não danço com moça que peida”. Todos olhando pra moça. O cara deixou sozinha e saiu do clube pra rir. Se mijou de rir.
    Em relação ao comentário de Joaquim, sobre comentar, eu discordo. A piada é interessante, mas eu nunca concordei muito com isso porque expõe a pessoa. O homem nunca diz o que saiu, diz o que fez. Eu sempre me neguei na ouvir esse tipo de papo porque ficava preocupado em como encarar aquela pessoa. Tinha um aluno que gostava de falar sobre a esposa. Eu i chamei e falei sobre essa de exposição. Ambas estavam comigo.
    Ilustre Sra. Sônia. Um abraço carregado de admiração

    • Sr. Maurício, seus comentários sempre gentis e incentivadores tal-qual vários amigos do Jornal é um Oasis em meio ao atual cabo de gerra que alguns procuram alimentar.

      Chico, era inteligente e criativo, grande contador de histórias bem humoradas e acredito não vamos ter outro igual.

      Quanto a falar demais, repito o conselho que ouvia quando jovem: A língua deveria ter osso. Quando quebrar de tanto falar, engessa e vai ter que ficar de boca aberta mas, em silencio.

      Uma excelente semana de Paz e Saúde ao Amigo e a todos de sua família.

  5. Sonia,no fim da década de 50 e início da de 60, o rádio peão funcionava no chão das fabricas mais rápido do que o atual Zap-Zap. As vezes, a notícia chegava bem antes do fato. Hoje, o inquisidor mor do STF, lascaria a lenha na Marta e no Guido sob a acusação de fake news.

  6. Paulo, o “rádio peão” tinha também a vantagem de não ter que pagar internet. Quanto a chamada “Notícia Falsa” ou no nosso bom português: “Mentira”, infelizmente não ficamos sabendo. Quem já trabalhou em fábrica sabe que certos assuntos não viravam manchete, sempre tinham os amigos(as) que tratavam de abafar e a vida seguia em frente.

    Grata pelo seu comentário

    Uma semana de muita Paz e Saúde a toda família Terracota.

  7. É bom saber que estás de volta em sua coluna, cara Sonia Regina!

    Recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil.

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