MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Está na pauta de discussão o chamado “passaporte da vacina”. Segundo as notícias mais recentes, várias prefeituras (se não todas) passarão a exigir que os frequentadores de bares, restaurantes, cinemas, teatros e eventos públicos em geral apresentem documento comprobatório de que estão vacinados contra COVID-19.

Nesses tempos tecnológicos, logo haverá um aplicativo, baixado em nosso celular, por meio do qual poderemos fazer essa comprovação com certa agilidade. Melhor que no filme “Contágio”, onde as pessoas recebem uma pulseirinha que lembra aquelas que dão acesso aos camarotes de shows.

Pessoalmente, o passaporte sanitário não me deve causar maiores problemas, uma vez que já tomei as duas doses previstas para a vacina Fiocruz-Astrazeneca.

Também não tenho dúvida de que o Passaporte da Vacina será considerado legal. A Lei 13.979, de 2020, prevê que, para o enfrentamento da emergência de saúde causada pela COVID-19, “as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências”, entre outras medidas, a determinação de realização compulsória de “vacinação e outras medidas profiláticas”.

A questão já foi levada ao exame do Supremo Tribunal Federal, que decidiu ser constitucional a obrigatoriedade da imunização. Afastou o uso da força, mas admitiu a imposição de restrições a direitos dos não vacinados.

Aliás, os livros de história registram que a vacina contra a varíola foi declarada obrigatória ainda em meados do século XIX. É bem verdade que tal obrigatoriedade causou muita turbulência, inclusive o que se chamou de Revolta da Vacina, no começo do século XX.

Sabe-se ainda que atualmente já é exigida a comprovação de vacinação de crianças, para que sejam matriculadas em escolas; de aprovados em concursos, para que tomem posse em seus cargos; dentre outras situações similares.

A par disso, fico me questionando se é uma boa opção a obrigatoriedade que se propõe para a vacina contra a COVID-19, impedindo pessoas não vacinadas de praticarem atos simples, como frequentar um teatro ou um restaurante.

Pensei muito nisso ao receber a segunda dose do imunizante e ouvir da moça que me aplicou a vacina as seguintes palavras:

– Senhor, com essa segunda dose, a sua imunização contra a COVID vai estar completa daqui a uns 15 dias. Mas não esqueça que, mesmo vacinado, o senhor pode contrair a doença e pode transmitir para outras pessoas. Então, a recomendação é para que o senhor não relaxe nos cuidados de sempre, lavando as mãos frequentemente, usando álcool gel, usando máscara e evitando aglomerações. Boa tarde e muita saúde!

Nada disso foi novidade para mim, mas saí dali refletindo sobre como tudo gira em torno de probabilidades. Tomando a vacina, a probabilidade de desenvolver sintomas graves da doença, e até morrer, é bem mais baixa que entre os não vacinados. Por outro lado, há o risco de se ter complicações decorrentes de efeitos colaterais, como tromboses, apesar de a probabilidade ser considerada baixa. Tanto assim que médicos e autoridades sanitárias afirmam ser o risco de não tomar a vacina maior que o de ter alguma reação adversa grave. (Clique aqui para ler).

Por essas e outras é que, mesmo com as melhores probabilidades estando a favor da vacina, compreendo a atitude das pessoas que não se sentem seguras para receber a sua aplicação.

Afinal, há pessoas que precisam de uma maior sensação de segurança. Essas probabilidades, há pouco referidas, estão baseadas em estudos muito recentes, que vêm sendo atualizados à medida que mais pessoas são vacinadas.

As frequentes notícias sobre a ocorrência de mutações no vírus levantam dúvidas quanto à eficácia dos imunizantes em relação a novas cepas.

Penso, assim, que receber a aplicação do imunizante, pelo menos no atual momento, deva ser uma decisão de caráter pessoal, com cada indivíduo assumindo a responsabilidade pela opção feita.

As pessoas devem ter maturidade para tomar suas decisões, baseadas em suas próprias convicções, construídas a partir das informações colhidas nas fontes das quais dispuser.

E o Estado, com o seu poder-dever de cuidar da saúde de todos nós, nada poderá fazer? Pelo contrário, pode e deve fazer muito. O Estado pode incentivar, fazer campanha, conscientizar, esclarecer, usar de todos os recursos que considerar necessários para convencer as pessoas a aderirem ao uso da vacina.

Será que o único meio de ação do Estado é a força? Penso que não. E penso que, neste caso, não é sequer o meio mais adequado ao fim pretendido.

Imagine o leitor um grupo de umas oito pessoas da mesma família chegando a um restaurante. Pretendem comemorar o aniversário de um dels com um almoço. Mas, logo na entrada, um funcionário do estabelecimento detecta um dos convivas com o Passaporte Vacina irregular. Sim, porque o funcionário do restaurante agora é um agente do poder de polícia do Estado, impedindo o acesso de potenciais clientes, que poderiam render algum lucro ao seu patrão e, consequentemente, lhe garantir o emprego.

Pois bem, digamos que esse sistema de fiscalização funcione e que o indivíduo sem passaporte da vacina aceite se retirar dali sem oferecer resistência. Mas o restante do grupo se divide entre os que se solidarizam com ele, decidindo ir embora, e os que querem permanecer no local.

Enquanto isso, o dono do estabelecimento, que acumula uma série de prejuízos do período em que seu estabelecimento esteve fechado (também por conta da pandemia), se desespera.

Isto não tem como dar certo…

Repito: já tomei as duas doses da vacina que me cabiam.

Mais que isso, sou entusiasta da vacinação. Não passo um dia sequer sem analisar os gráficos dos números de casos, óbitos e aplicação de vacinas no Brasil. E me encho de esperança ao ver que, à medida que a quantidade de brasileiros vacinados aumenta, a média diária de novos casos e novos óbitos diminui.

Em julho de 2020 cheguei a gravar uma entrevista com meu filho Álvaro, estudante de Biotecnologia da USP, sobre o assunto, para meu canal no YouTube. Apesar de, na época, não haver ainda nenhuma vacina disponível, nossa esperança era de que os imunizantes pudessem ser desenvolvidos o mais rápido possível. Veja o vídeo no final da postagem.

Mas ser favorável à vacinação não me faz pensar que todos devam ser obrigados a aceitá-la. Acredito mais no diálogo que na imposição. Prefiro o convencimento à força.

Neste caso da vacina contra a COVID-19, parece-me claro que o melhor argumento para convencer as pessoas a buscarem a sua aplicação será a sua eficácia. Não me surpreenderei se sua obrigatoriedade tiver efeito contrário.

16 pensou em “SOBRE O “PASSAPORTE DA VACINA”

  1. O caro Marcos não colocou um detalhe importante. As vacinas aplicadas aqui estão em fase experimental e só foram aprovadas por serem emergenciais.

    Ainda podem ocorrer reações indesejadas nos próximos anos, pois não houve o estudo completo.

    Aqui no BR a rejeição à vacina é muito menor que em outros países (EUA, p. ex.)

    • João, eu até pensei em falar nisso, mas o texto já estava muito longo, e acredito que pelo menos a Pfizer já tem registro definitivo. Como eu não me sinto com competência para comparar vacinas entre si, achei melhor pular essa parte.
      Mas agradeço pelo complemento.

  2. E o que será de nós, 20 milhões de brasileiros que contraíram a doença e estão curados? Os anticorpos gerados pelo meu sistema imunológico (mais a memória imunológica) são muito mais eficazes que qualquer vacina experimental em uso. Lembrando que os vacinados ainda podem ser transmissores da doença. Não serão disponibilizados testes para termos esse comprovante?

    • Comandante, como tem gente que pegou a doença duas e até três vezes, penso que ainda não está claro se a pessoa se autoimuniza. Mas isso é trabalho dos cientistas.
      O que me preocupa mesmo é que as pessoas sejam obrigadas a tomar uma vacina, quando ainda há tanta incerteza sobre ela.

      • Faz um ano que estou curado. Nesse período não usei mais máscara na rua (só em supermercados, lojas, farmácias, porque sou obrigado pelos lojistas). Tenho tido contato com todas as pessoas, inclusive as contaminadas. O vírus ainda está circulando. Isso significa que a produção de anticorpos continua sendo estimulada pelo meu sistema imunológico. A chamada variante delta é mais contagiosa. As vacinas talvez não consigam vencê-la. Mas lembre-se que o sistema imunológico, diante do ataque do vírus, faz uma avaliação e uma defesa de todos os aspectos do micro-organismo e, portanto, consegue armar-se melhor que quando estimulado apenas pela vacina. Não sou médico, mas consultei vários para me informar sobre o funcionamento do sistema imunológico. Quanto aos que tiveram mais de uma vez, seria interessante saber quanto isso representa sobre os 20 milhões. E, não esqueçamos, muitos foram contaminados e nem perceberam. Somos bem mais que 20 milhões.

        • Fico feliz que você tenha vencido a COVID, e, ao que parece, ficado mais apto a se defender dela. Como se diz, o que não nos mata nos fortalece!

  3. Parabéns excelência pela postura ponderada em defesa da liberdade individual e da mínima interferência do Estado.

    Apenas se acautele pois nestes tempos estranhos vossa ponderação pode não ser bem vista pelo ministro Morais…

  4. Então tá, deixa ver se entendi: se eu não for vacinado, não posso frequentar bares, restaurantes cinemas e pontos turísticos, mas em ônibus super lotados, metro abarrotado de pessoas, bancos em dias de pagamento, aí não tem perigo? ORA, ORA SENHORES, SE OS GOVERNADORES TÊM O DIREITO DE EXIGIR DE MIM UM COMPROVANTE DE QUE EU FUI VACINADO, ENTÃO EU TENHO O DIREITO DE EXIGIR DOS GOVERNADORES, EM CONTRAPARTIDA (UM PELO OUTRO), DA PRESTAÇÃO DE CONTAS DO DINHEIRO RECEBIDO PELO GOVERNO FEDERAL. VAMOS ACABAR COM ESSA HIPOCRISIA DESSES CANALHAS GOVERNANTES QUE NÃO SABEM ADMINISTRAR DINHEIRO ORIUNDO DA POPULAÇÃO.

  5. O mundo gira e Lusitana roda. Difícil raciocinar diante dessa novidade baseado no que nossa geração viveu até aqui. Minha opinião melhor seguir a ciência do que escutar os palpites de quem quer transformar um momento tão duro da humanidade numa oportunidade de qualquer projeção pessoal. Porém respeito a decisão de quem prefere se aconselhar com um curandeiro do que com um médico. O problema é reduzir a circulação do danado do vírus entre os homens, não sei se os curandeiros ajudam nesse caso. A mobilidade nas metrópoles é, de fato, mais um complicador.
    Importante lembrar que o direito de um vai até o dever de respeitar o direito do próximo.

    Fé na ciência, em Deus e pé na tábua!

  6. MMM: li e entendi sua postagem. Lei é para ser obedecida (embora algumas autoridades superiores a descumpra – né não?). Mas, eu fico aqui pensando com meus botões: quem foi que disse que sou obrigado a ir comer em restaurante, largando meu arroz com feijão e farofa de tripa em casa? Se eu tenho assinatura do Netflix e posso fazer minha pipoca em casa, por que tenho que ir ao cinema? Praia? Antigamente, quando morava em Fortaleza, frequentei aquela praia ali na frente do Náutico. Tinha um local onde a gente alugava o calção, e depois tinha direito de tomar banho no chuveiro para “tirar o sal”. Eu tenho uma boa ducha em casa, não preciso alugar calção e ainda tenho uma boa e grande toalha. Tô certo ou tô errado?

  7. MMM: essa questão da C-19 tem tomado conta do noticiário na mídia. Uns “carregam” e preferem encontrar culpados que soluções, ao tempo que esquecem os “culpados preferenciais” nos estados, por algum motivo que a gente imagina, mas não nos cabe apontar nem provar. Agora, lembro bem, na primeira vez que viajei de Fortaleza para o Rio de Janeiro, fiz o percurso por via terrestre, n um ônibus da nossa empresa Expresso de Luxo, que tinha ligação com a família Paula Joca. Tenho certeza que, em Feira de Santana/BA, o motorista fazia parada obrigatória, todos os passageiros desciam e eram “obrigados” a tomar uma vacina. Não tenho certeza se era contra varíola. E, detalhe: não forneciam qualquer comprovante impresso para o caso de atender à necessidade de comprovação. Isso, tenho certeza, tem mais de 50 anos.

  8. A vacina que não mata, aleija. Os 100% da primeira dose, se somam aos 100% da segunda, e agora vem aí a terceira dose com segurança de 100%. Porra, pra matar uma vírus do Partido Comunista Chinês é preciso 300% de segurança. Doença braba essa, que mata menos do que dengue, mas que impede milhões de brasileiros realizar cirurgias inadiáveis, continuar o tratamento de câncer. Tenho 72 anos fiz o teste deu positivo e sem vacina uma sorologia no Incor atestou minha imunidade. O resto é tema para Renan e Omar Aziz.

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