MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A expressão foi inventada por Nelson Rodrigues, e tinha a ver com futebol. Hoje em dia, virou um xingamento corriqueiro, cujo significado é variável. Alguns o usam para quem fala bem de outros países comparando-os com o Brasil. Outros, ao contrário, o usam para quem faz a comparação falando mal de outros países.

Por causa dessa indefinição, eu sempre evitei usar a expressão. Mas lembro-me dela sempre que vejo uma manifestação de algo muito difundido em nossas plagas, embora certamente não seja exclusividade nossa: o orgulho da própria ignorância. O assunto que se segue é um bom exemplo: já tive vontade de escrever sobre isso outras vezes, mas o meme que encontrei finalmente me convenceu:

É fato que a grande maioria dos brasileiros não consegue escrever uma redação de quinze linhas no padrão ENEM sobre Santos Dumont, muito menos sobre os irmãos Wright. Sobre o assunto, tudo que sabem é repetir como papagaios “catapulta! catapulta! catapulta!”. Alguns se dão ao trabalho de fazer um copia-e-cola de frases sobre “alçar vôo por meios próprios” ou “reconhecimento por órgão oficial” (sempre o imenso amor do brasileiro pelo governo e seus órgãos reguladores) para proclamar que o avião foi inventado por um brasileiro e que os americanos são mentirosos e imperialistas.

De tanto repetir “catapulta”, alguns passaram a adivinhar que o avião dos irmãos Wright não tinha motor e era “jogado ao ar”. Isso é postado pelos twitter e facebook da vida e passa a ser considerado um fato por muitos, fundamentado na idéia do “todo mundo sabe disso”. Na verdade, o autor do quadrinho acima, em sua ignorância, criou uma situação constrangedora: sim, o avião dos irmãos Wright tinha um bom motor, que eles mesmos construíram, mesmo não tendo qualquer experiência anterior. Santos-Dumont, por outro lado, era rico e preferiu comprar um motor pronto.

Para deixar claro, segue aqui a história toda:

– Entre 1899 e 1902, os Wright fizeram muitas experiências usando pipas e planadores para pesquisar maneiras de controlar o vôo.

– Em 1903 os Wright construíram um motor e um novo avião, que realizou dois pequenos vôos em 17 de dezembro. Ao contrário do que afirmam muitos aqui no Brasil, que seguem o princípio do “se eu não conheço, então não existe”, os vôos tiveram testemunhas, notícias no jornal e até uma fotografia. Não foi usada catapulta.

– Em 1904 os Wright construíram um segundo avião, com diversas melhorias. Após realizar mais de vinte vôos em agosto, eles decidiram no início de setembro usar uma catapulta para tornar as decolagens mais seguras e rápidas. Até dezembro eles realizaram 105 vôos, o mais longo deles durando cinco minutos e percorrendo 4,5 km em três círculos completos. Como a intenção dos irmãos era conseguir uma patente pela invenção e iniciar um negócio, eles não se interessavam em mostrar os vôos aos jornalistas.

– Notícias chegaram à França sobre os Wright. Em uma época de nacionalismo exacerbado, a imprensa francesa ironizou as notícias vindas dos EUA e chamou os Wright de mentirosos. O Aeroclube da França, formado por entusiastas ricos, anunciou que daria um troféu de prata para a primeira máquina mais pesada que o ar que voasse por 25 metros, e depois anunciou um prêmio de 1000 francos para o primeiro vôo de mais de 100 metros.

– Em 14 de outubro de 1905, foi fundada em Paris a Federação Aeronáutica Internacional, com o propósito de “regular o esporte da aviação”. Seus regulamentos sobre o reconhecimento de recordes definem que “a aeronave deve ser capaz de decolar por meios próprios”, o que serve de base até hoje para a polêmica. Como já disse, dois meses antes da fundação da FAI, os irmãos Wright já estavam voando seu segundo avião, decolando por meios próprios, e passaram a usar uma catapulta porque não tinham nada a provar quanto a isso.

– Em 1905, os Wright construíram um terceiro avião, mais aprimorado. Em 5 de outubro, este avião realizou um vôo de 39 minutos, percorrendo 39 km com total controle nas curvas.

– Em 23 de outubro de 1906 Santos-Dumont realizou um vôo de 50 metros, ganhando o primeiro dos prêmios do Aeroclube da França. Ao pousar, o 14-bis quebrou as rodas, impedindo novas tentativas. Em 12 de novembro, após implementar algumas melhorias, o 14-bis completou um vôo de 220 metros em linha reta, conquistando os 1000 francos de prêmio – e novamente danificando as rodas ao pousar.

– O 14-bis era incapaz de realizar curvas controladas. Em outubro de 1904 (dois anos antes) o Aeroclube da França havia anunciado um terceiro prêmio, de 50.000 francos (contra os 1.000 do anterior) para o avião que completasse um percurso circular de um quilômetro, retornando ao ponto de partida. Como vimos, o segundo avião dos Wright conseguiu isso em 1905. Santos-Dumont sequer tentou conquistar o prêmio, que foi vencido por Henri Farman em janeiro de 1908.

– Em 1908 os Wright levaram seu terceiro avião para a França e fizeram várias demonstrações públicas, incluíndo vôos com passageiros, com grande repercussão na imprensa. Ernest Archdeacon, do Aeroclube da França, que havia sido um dos mais eloqüentes detratores dos irmãos, admitiu publicamente que havia cometido uma injustiça. Quando, após um vôo, um jornalista questionou o uso da catapulta, Orville Wright simplesmente voltou a subir no avião, decolou sem usar a catapulta, voou por mais alguns minutos, tornou a pousar e foi embora sem dizer uma só palavra ao jornalista.

– Em 1909 Santos-Dumont realizou um projeto muito mais relevante que o 14-bis: o Demoiselle, que teve mais de trezentas unidades produzidas na Europa e nos EUA. Deveria ser muito conhecido por aqui, mas como não tem o chamariz da polêmica, é ignorado.

– Também em 1909, os irmãos Wright conseguiram um contrato com o exército dos EUA e fundaram uma empresa chamada Wright Company para produzir os aviões.

Santos-Dumont foi um genial inventor, mas sua paixão eram os balões, não os aviões. O 14-bis foi construído para atender aos pedidos do Aeroclube da França, que sabia dos aviões dos Wright e tinha pressa em mostrar ao mundo uma conquista francesa. É uma pena, quase uma vergonha, que os brasileiros nada saibam de sua história e de suas conquistas, e se dediquem a sustentar um mito sobre um feito que ele não conquistou: o primeiro “mais pesado que o ar” a voar.

Mais assustador ainda é ler pela internet gente dizendo que devemos considerar Santos-Dumont como o primeiro a voar por “patriotismo”. Não consigo entender o que há de patriótico em ignorar a realidade e acreditar em mentiras e lendas.

6 pensou em “SÍNDROME DE VIRA-LATA

  1. Marcelo,

    Conversa do Cyborg com o Batman:
    -Qual seu super poder?, pergunta o primeiro.
    – Eu sou rico, responde o dono de Gothan.

    Portanto não vi demérito no “pai da aviação” (???) ser rico.

    Quanto à educação, escreves: maioria dos brasileiros não consegue escrever uma redação de quinze linhas no padrão ENEM sobre SD ou irmãos W, complemento que estende-se à ignorância do brasileiro (em sua maioria) a todo e qualquer assunto, não saindo grandes redações de tais cabecinhas.

    Encerras com: “o que há de patriótico em ignorar a realidade e acreditar em mentiras e lendas”.

    Brasileiro adora mitos e lendas: principalmente em casos de futebol e política, onde salvadores da pátria imperam e surgem a cada desempenho acima da medíocre média.

    Senão, vejamos: andam a chamar EXAGERADAMENTE (e bota exagero nisso) de “mito” certo político que chegou à presidência, quando, na verdade, é apenas o menos ruim no cenário atual. Cenário este, que convenhamos,nunca foi dos melhores e está longe de o ser um dia.

    Com a imprensa que temos, com os políticos que temos e com a educação que nos dão, já é mérito não estarmos bovinamente de quatro e pastando enquanto caravana passa e os cães ladram.

    Vida inteligente? Há EM FARTURA no reduto chamado JBF. Sua coluna não me deixa mentir.

    • Mea culpa se dei a impressão de que há algum demérito em Santos-Dumont ser rico. Quis apenas contrastar com os irmãos Wright, que eram pobres e montaram seus aviões inteiramente sozinhos.

      No resto, concordamos.

      Bom feriadão para você, seja descansando ou entregando côcos.

      • Mea culpa?

        Ah, deixa disso, pois não lhe cai bem…

        O primor de seus textos o isentam de qualquer “mea culpa” e a inserção do morcegão em meu comentário teve como única finalidade de lembrar que THE BATMAN já está pronto. Os que viram o filme (aqueles zilionários que a tudo assistem antes dos pobres mortais) disseram que o Pattinson (aquele vampirinho que brilhava literalmente em Crepúsculo) está espetacular no papel e que o filme será na pegada “terror”. Ah, e o Batmóvel é um espetáculo.

        Como diria minha amiga Bárbara: bom ou não?

        Quanto ao feriadão, que desejo que seja ótimo para todos NÓS, estarei por conta dos preparativos para minha ida à Paulista no dia 7 (as entregas de coco foram antecipadas).

        Dia 7 lá estarei (sempre junto ao MASP), POIS “Um dia tudo será excelente, eis a nossa esperança; hoje tudo corre pelo melhor, eis a nossa ilusão.” Voltaire

        Sabia das coisas o senhor François-Marie Arouet, não é mesmo?.

  2. Ah, em tempo: surgiu aqui no JBF a SCHIRLEY, aí da sua amada Curitiba (terra de lindas mulheres). A moça começa a engatinhar (DANDO PITACOS) por estas memoráveis e inesquecíveis páginas fubânicas. Talvez um dia a encontremos tomando café no Shopping Estação, o melhor shopping de Curitiba, apesar que os magnatas, como o amigo, sempre baterem perna lá pelas bandas do Pátio Batel, onde passeia a fina flor da burguesia e onde certa feita encontrei a vermelhinha Gleisi, que fingiu não me conhecer.

  3. Marcelo, o mérito de inventar o avião deve ir todo para os irmãos Wright, uma vez que foram eles que primeiro voaram e definiram que as asas estabilizadoras (as pequenas) deveriam ficar atrás.

    Grande mérito teve S. Dumont por desenvolver o Demoiselle, cujo modelo segue praticamente igual aos de hoje em sua categoria e serviria para deslocamento individual. Esse sim, fez história.

    No mais, a segunda metade do século XIX e começo do século XX foi fervilhante em invenções e inventores. Destaco para mim como os maiores: Darwin, Pasteur, MM Curie, Einstein e o maior de todos, Nikola Tesla.

  4. Eu acho muito interessante como brasileiro fala de brasileiro. Muitos falam como se não fossem. (Brasileiro não sabe votar. Brasileiro não sabe se comportar. Os brasileiros envergonham os brasileiros) É isso o que mais a gente lê e escuta por aí, de gente que não se considera brasileiro, ou considera-se muito superior a todos. Um verdadeiro “Coronel a moda antiga”, daqueles que fala com a certeza dos ignorantes.
    Tem alguma razão quem pensa assim, como está no título do texto do Marcelo, brasileiro tem mesmo essa “síndrome de vira-lata”. Assumem uma posição envergonhada frente a um cidadão de país considerado desenvolvido, como se esse fosse um ser superior. Mas, não somos capazes de trabalhar para termos o mesmo nível de desenvolvimento pessoal e como nação, de parte dos europeus, norte-americanos, japoneses e outros.
    Pior do que isso são nossos governantes insistirem em comparações pouco estimulantes: – se continuarmos desse jeito ficaremos iguais a Venezuela, Argentina, etc. Estamos melhores do que Cuba, Coreia do Norte, Afeganistão. Não sei por quanto tempo.
    Minhas perguntas: Por que não trocamos nossas referências e pensamos que podemos ser melhores ou iguais a nações que oferecem boa qualidade de vida aos seus cidadãos? Quando vamos perder a síndrome do vira-lata?
    Tudo começa, na minha opinião, com a formação do cidadão. Enquanto educar e preparar o brasileiro para pensar e tomar decisões que sejam, de fato, importantes para ele individualmente e para a sociedade, continuaremos longe do início desse processo e os brasileiros continuarão envergonhando os brasileiros. Temos tido ocupantes no Ministério da Educação, pouco interessados em valorizar o ensino básico. O atual Ministro pensa na educação da primeira metade do século passado como solução para os desafios da Terceira Década do Século XXI. Tá difícil!
    Aplausos para S Dumont por ter inovado em vários campos mesmo tendo vivido entre o final do século XIX, início do XX. Enquanto 100 anos depois os governantes do Brasil querem nos levar de volta para 1964.

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