GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Nos anos 50 e começo dos 60, Sertânia era uma espécie de capital do Moxotó e Pajeú no sertão pernambucano, atraia gente de todas as redondezas por causa dos serviços que oferecia, tinha Banco do Brasil e Banco do Nordeste. Etelvino Lins, ex-governador de Pernambuco por duas vezes, era filho da terra. As cidades da região tinham linhas regulares de lotações para Alagoa de Baixo, antigo nome da cidade. Em 1933, já havia chegado o trem, Sertânia ficou ponta da linha por oito anos, até a inauguração da estação de Albuquerque Né, em 1941, onde de lá o trem voltava “de ré” até Sertânia pra aprumar em um triângulo e retornar ao Recife, esse trecho que o trem andava para trás ocorreu até 1949, quando a linha chegou a Afogados da Ingazeira, outra estação com reversão para a locomotiva, esta em forma de pera.

Estação de Alagoa de Baixo e 2 tipos de “retorno” para trens

Alagoa de Baixo era a estação mais central da linha Recife – Salgueiro e era lá que acoplavam o vagão restaurante que seguia até Arcoverde onde desacoplava, após os passageiros terem almoçado, isso mesmo, no trem tinha um vagão que servia almoço, sobremesa, lanche e até cachaça. Outros antigos usuários da rede me disseram que o vagão seguia toda a viagem, em Sertânia ou Arcoverde embarcavam só a comida. Na composição tinha primeira e segunda classe, na primeira os assentos eram acolchoados e ficavam logo atrás da locomotiva, a segunda classe ficava depois do vagão-restaurante, e os bancos eram de madeira, dizia-se que os passageiros da segunda classe iam sentados no pau duro, e tome poeira levantada pelas composições dianteiras do trem. A estação sertaniense tinha oficina que só não era mais completa do que a de Edgar Werneck em Recife, lá tinha toda a estrutura para realizar serviços nas locomotivas e vagões, tinha até um dique e uma espécie de guindaste que levantava o conjunto para consertar ou trocar as partes rodantes.

1. O trem embarcando passageiros para Arcoverde; 2. Antigo dique e oficina; 3. Noticia do Jornal da Manhã sobre a inauguração da estação de Alagoa de Baixo

Entre os funcionários tinham muitos europeus, especialistas nas locomotivas eletro-diesel, “todas da marca General Eletric e fabricadas na Escócia. Um engenheiro escocês veio ensinar a manutenção das “azuis” aos mecânicos locais. As máquinas eletro-diesel eram todas azuis e eram chamadas eletro-diesel porque tinham quatro motores a diesel que moviam quatro geradores elétricos e estes moviam os motores elétricos da locomotiva – o sistema é o mesmo até hoje. Era um cara super engraçado, tomava uma cachaça danada (“Sarinho” era a preferida) e aos domingos se trajava à caráter para ir na missa. Já imaginou no início dos 1960, aquele cara de saia, paletó e gravata borboleta, dentro da matriz de Sertânia? Depois da missa passava o domingo todo na farra tocando uma gaita de fole, e tocava muito bem” me contou Gilberto Carvalho Moura, advogado afogadense filho de um ferroviário.

A chegada e a partida do trem em Afogados da Ingazeira nos anos 80:

O trem era a única opção de transporte coletivo para quem ia da região para a capital pernambucana até a chegada da concorrência da Leão do Norte, Realeza e Princesa do Agreste, os ônibus tinham diversos horários e eram muito mais pontuais. O trem da RFFSA atrasava demais. Contam uma história que um prefeito de Monteiro foi pra Sertânia pegar o trem para Recife, o horário da saída era 11 horas, mas o prefeito sabia dos atrasos habituais e se programou para chegar em cima da hora. Quando o carro do prefeito avistou a estação, já estava lá o trem apitando pra sair, foi um corre-corre danado, mas o prefeito conseguiu embarcar. Chegando lá dentro, cansado, comentou com outro passageiro: que milagre foi esse que o trem não atrasou? O passageiro respondeu: Tá atrasado sim, esse é o de ontem.

Imagens antigas de Sertânia: 1. vista aérea; 2. Ambulância; 3. prefeitura e 4. saída para Cruzeiro do Nordeste

A empresa Great Western, além das redes ferroviárias, deixaram muitos legados nesse nosso Nordeste, vários times de futebol foram formados pelos ferroviários nesse Brasil afora, trouxeram também muitas palavras que enriqueceram nosso vocabulário, como “galego”, por exemplo, que era os loiros que vinham da região da Gália na Espanha, conterrâneos de Asterix e Obelix. Outro termo trazido pelos trabalhadores na construção das linhas férreas foi “baitola”, este lá no Ceará, onde um engenheiro “inglesava” a palavra “bitola”, que é a largura da linha, como ele era afeminado, baitola virou sinônimo de gay.

Deixe uma resposta