PERCIVAL PUGGINA

Com freqüência, lêem-se textos que nos trazem à mente um quase refrão: “Gostaria de ter escrito isso!”. Pois foi o que pensei hoje, diante de algo que me caiu diante dos olhos… Até perceber, durante a leitura, que era um texto meu. Por atual, embora escrito em 2013, eu o reproduzo e convido os leitores a refletir sobre o tema abordado.

O rufo de tambores que ouvimos mundo afora é de uma declarada guerra, nada santa, contra a influência do cristianismo na cultura, nos valores morais dos indivíduos e o reflexo disso no Direito. Guerra de um projeto totalitário pela completa abolição dessa influência. Todos, inclusive os militantes do ateísmo, sabem que: 1º) é quase impossível “desconverter” os indivíduos de uma fé em Deus para uma fé no Nada absoluto; 2º) é inaceitável pela imensa maioria das pessoas a ideia de um Direito cuja moral seja irrelevante, ou que ignore os princípios e valores compartilhados pelos membros da sociedade.

Diante de tais e tão grandes dificuldades, os militantes do ateísmo cultural propuseram-se a algo muito mais sutil – querem esterilizar a moral nos próprios indivíduos. Como? Convencendo-os de que os princípios e valores que adotam são, na origem, tão religiosos, e por isso mesmo tão particulares, quanto a própria religião que porventura professem. Integrariam, então, aquele foro íntimo no qual se enquadrariam a própria religião e suas práticas. Pronto! Segundo o princípio da laicidade do Estado, tais princípios e valores só teriam vigência na vida privada. Não faltam pessoas religiosas para entrarem com os dois pés nessa armadilha. Por isso, o projeto totalitário avança.

As investidas contra os símbolos religiosos são apenas a ponta do rabo do gato. O felino inteiro é muito mais malicioso e malévolo. O que de fato pretende é laicizar a cultura, as opiniões em geral e, principalmente, os critérios de juízo e decisão (os meios do poder). Toda a conversa fiada (ouça-a no STF) sobre supostas infrações à devida separação entre o Estado e a Igreja precisa ser entendida como aquilo que de fato é: atitude de quem adotou o Estado, e só o Estado, por fonte de todo bem. Assumiu-o como baliza perfeita para o certo e o errado, e vertente dos valores que devem conduzir a vida social.

Convenhamos, é uma tese. Mas – que diabos! – qual é, precisamente, a moral do Estado? Na prática, a gente conhece porque a conta é nossa. Na teoria, é a que a sociedade “majoritariamente” determine, excluída a parcela realmente majoritária, que moldou a civilização ocidental porque esta, como se viu acima, só pode ter expressão na vida privada e resulta inadmissível perante a laicidade do Estado, etc., etc., etc..

Tal linha de raciocínio não resiste ao primeiro safanão. Precisa de reforços e apoios propiciados pelo relativismo moral, um de seus subprodutos. Cabe a este filho do pós-modernismo mostrar que a moral majoritária é apenas uma das tantas que andam por aí através do tempo, do espaço e da miséria humana. Saem às ruas, então, representações desse nada admirável mundo novo: marcha das vadias, marcha pela maconha, marcha pelo aborto. Uma TV do Estado apresenta show das putinhas aborteiras, militantes partidários dançam pelados na Câmara Municipal de Porto Alegre ou fazem sexo com símbolos religiosos no Rio de Janeiro.

Escandalosos? Escandalosos perante qual senso moral? O totalitarismo pós muro de Berlim, o totalitarismo do século XXI, precisa do ateísmo cultural e do relativismo para derrogar o cristianismo presente na cultura de tantos povos. A nova ordem, o mundo novo, all-in-one, não se constituirão numa sociedade que creia em algo anterior, superior e posterior a si mesma. Não há como não ser totalitário esse novo poder global. A democracia se extingue naturalmente quando destruídos os valores que a fundamentam, pelo simples fato de que não se sustenta numa sociedade política sem princípios, sem valores e sem vergonha.

2 pensou em “SEM VIRTUDES, SEM VALORES E SEM VERGONHA

  1. Embora os chamados “princípios morais” variem segundo o lugar e a época, sempre houve e sempre haverá quem ache que os seus princípios são os corretos e devem ser impostos a todos os outros. Essa luta de atos privados x públicos de que fala o Puggina não é novidade nenhuma.

    Puggina está certíssimo ao condenar a “atitude de quem adotou o Estado, e só o Estado, por fonte de todo bem.” Mas se engana ao não enxergar o mesmo problema em quem adota a mesma atitude substituindo “Estado” por “Igreja”, seja ela qual for. Não há dúvida que muita gente adoraria que uma igreja tivesse o poder de impôr seus padrões morais, desde que fosse a sua.

    Muito tempo e palavreado está sendo perdido em uma luta entre “conservadores” e “progressistas”, ou “esquerda” e “direita”, ou qualquer outro nome que se queira dar, sem perceber que os dois lados dessa luta querem a mesma coisa: o poder de impôr suas idéias aos demais.

    O debate que deveria estar acontecendo não é entre o totalitarismo de um lado e o totalitarismo de outro, mas entre o totalitarismo e a liberdade, justamente aquilo que o Percival condena quando enfraquece o “seu” lado.

    A sociedade que eu desejo é laica sim, Percival. É uma sociedade onde cada um é livre para praticar a moral que desejar, tendo como limite óbvio a não-agressão a terceiros. É uma sociedade onde o Percival é livre para seguir a religião dele, assim como o Marcelo, o José, o Pedro, o Isaac, o Mohamed, o Guptra e o Takashi, mas ninguém vai pedir para os outros, muito menos para o estado, que imponha as suas regras sobre os outros porque tem certeza de que elas são as únicas certas.

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