MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em 1966 houve a formatura do jovem Sidney A., graduado pela Faculdade de Medicina da USP, uma das mais renomadas do país. Sua irmã Marlene A., minha grande amiga, me convidou para o churrasco de comemoração que seu pai Sebastião A. daria no sítio da família em Jundiaí, SP, para todos os 50 doutorandos, professores e amigos.

“Seu” Sebastião era um imigrante italiano oriundo de família simples e que veio para o Brasil logo depois da Segunda Guerra para tentar a sorte. Como todos os imigrantes daquela época, teve um início difícil em sua nova terra, mas prosperou bastante e em 1967 tinha uma cerâmica que fabricava tijolos, telhas e ladrilhos de boa qualidade e que tinham grande aceitação em Jundiaí, Campinas e região.

Na alegria da festa o orgulho e a felicidade de quem era apenas um pobre carcamano imigrante e agora tinha um filho médico foi muito para o coração simples de “seu” Sebastião. Começou a chorar de emoção, a pressão sanguínea se lhe subiu e começou a passar mal. Imediatamente o filho, agora médico, foi socorrê-lo.

Ele rejeitou:

– Você não, chame um médico de verdade.

– Pai, não somente sou médico, mas tenho aqui 49 outros colegas médicos e vários professores. Podemos cuidar de você muito bem.

– Não, não. Você é filho, não é médico, e essa meninada aí não sabe de nada. Chame então um dos professores, esses sim são médicos de verdade.

“Seu” Sebastião foi devidamente socorrido e medicado e ainda viveu por muitos anos depois desse incidente.

Algo parecido também se passou comigo um ano após esse incidente, pois graduei-me Engenheiro em 1967.

Em março de 1968 meu pai, então com 59 anos, comprou sua primeira casa própria em Bauru, SP. A casa ficava em um terreno trapezoidal com as dimensões abaixo:

O velho estava desconfiado que a área do terreno que constava na escritura (240 m2) podia não estar correta e tentava saber a exatidão daquele número para ter a tranquilidade de que não fora tapeado. Como seus estudos não foram além do curso primário, o cálculo da área de um trapézio era algo envolto em um profundo mistério. Fez várias tentativas:

18 x 12 + 22 = 238 m2. Hum, não sei. Será que é isso mesmo?

12 x 22 – 18 = 246 m2. Não, não pode ser isso. Ou pode?

22 x 18 = 396 m2. Há algo errado, não é por aí.

(12 + 18 + 22 + uns 14) = 66. Então 66/4 = 16,5, e daí 16,5 x 16,5 = 272,25 m2… não, isso deve estar errado!

E estava nessa angústia existencial quando cheguei para ficar com ele alguns dias em Bauru. Mostrou-me as dimensões do terreno e me perguntou se eu sabia calcular a sua área. Em dois tempos lhe mostrei as contas:

{(18 + 22) x 12} / 2 = 240 m2.

A área do terreno que constava na escritura estava correta! Achei que o velho tinha sossegado. Ledo engano!

Dois dias depois dei uma carona para meu pai até o seu local de trabalho. Fui recebido pelo seu chefe, o Eng. Rafael, bonachão, que me cumprimentou pela formatura e logo em seguida me comeu o fígado:

– Então, meu jovem, que droga de Engenheiro a Escola Politécnica forma? Você não sabe nem calcular a área de um trapézio? Precisou seu pai me pedir para que eu faça o cálculo?

Foi então que fiquei sabendo que no dia anterior meu pai havia pedido para o Eng. Rafael calcular a área do terreno, alegando que não havia ninguém na família que soubesse fazê-lo.

É impressionante a paciência que os filhos precisam ter com os pais!

2 pensou em “SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE

  1. Kkkkkk. Caramba, santo de casa não faz milagre. Minha irmã não anda com a sua dirigindo. Se ela pegar a direção do carro, minha irmã desce. Bota essas histórias num livro, cabra!!!!

    • É isso mesmo, Maurício. Minha mulher me obrigou a gastar 100 dólares para um eletricista puxar uma extensão de uma tomada elétrica aqui em casa por não confiar em que eu soubesse fazê-la, sem falar em outra ocasião similar em que eu fui tentar instalar um chuveiro no banheiro, chuveiro esse que nem elétrico era.
      Eu tenho 3 filhos médicos e, provavelmente, sou o único pai de médico do hemisfério norte que segue rigorosamente o que eles recomendam.
      Um grande abraço,

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