GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

No ano de 1938 chegou um padre novo em Tabira, a população em festa comemorou e recebeu o novo pároco: Padre Hosana de Siqueira e Silva. O Padre Hosana ficou na paróquia de Nossa Senhora dos Remédios por apenas um ano, criou muitos problemas na cidade com os fiéis, chegava atrasado nas missas e muitas vezes nem ia lá celebrar. Corria boatos que ele também tinha uma namorada na zona rural e sempre ia a cavalo visita-la e esquecia as obrigações eclesiásticas.

Foi acusado de ter vendido o ouro da igreja de Ingazeira e ficado com o dinheiro. Com as constantes reclamações, o deputado tabirense Pedro Pires Ferreira conseguiu devolve-lo à Diocese de Pesqueira, foi conduzido por um delegado de polícia por determinação do governador. Dom Adalberto, bispo de Pesqueira o “emprestou” imediatamente para a diocese de Garanhuns. Com a fama que tinha, ninguém o queria na sua cidade, era um garoto problema, só andava armado e tinha o pavio curto.

1 e 2. Igreja de Tabira em 1948 e 2010; 3. Igreja de Ingazeira PE

Chegando na diocese de Garanhuns, foi enviado para a paróquia de Belém de Maria, lá ele brigou com as freiras, com o pároco local e com os políticos, ficou mais uma vez sem paróquia, já havia sido expulso até do Rio Grande do Sul antes de assumir Tabira. Nesse período de “férias forçadas” comprou umas rezes com a venda do ouro de Ingazeira e começou a trabalhar com gado em Correntes, sua cidade natal, onde adquiriu uma fazenda. Dom Mário, bispo de Garanhuns, o chamou e disse que na sua diocese não tinha mais vaga para ele, mas o indicou para a diocese de Nazaré, onde foi recebido pelo bispo Dom Ricardo Vilela, com uma carta de recomendação e tudo mais. Dom Ricardo nomeou Padre Hosana para Vertentes, mas lá ele teve um atrito com um sacristão, então foi transferido para Timbaúba como cooperador, mas Padre Hosana não aceitou, só queria ser o principal, então foi devolvido para Garanhuns. Mais uma vez sem paróquia, falou com o bispo e foi para sua fazenda em Correntes, tocar a vida de gado.

Já no início de 1940, Dom Mario o indica para Panelas, lá ele conseguiu ficar dois anos, mesmo com muitas reclamações e brigas com os fiéis e políticos influentes. nesse período em Panelas ele matou uma besta a tiros só porque o cavalo do padre estava tendo um namoro com ela, Matou um cachorro que mordeu sua batina, esse vício de matar cachorros a tiros ele já tinha em Tabira. Enganou o próprio pai na compra de umas vacas, até com o chefe dos telégrafos ele arrumou intriga. Some-se a todos estes problemas, a cobrança do ouro desviado de Ingazeira, em carta enviada pelo Padre Luiz Flóride, seu sucessor em Tabira. Dom Mário fez o que? Transferiu pra Lajedo, mas Padre Hosana não obedeceu e foi morar na sua fazenda. Já sem paróquia, foi em Panelas e celebrou uma missa na marra, sem autorização do padre local, para entrar, quebrou a porta da igreja. Com a saída de Dom Mário e antes da chegada do novo bispo, Hosana foi nomeado para Palmeirina.

1.Jornal do Comércio da época; 2.Dom Expedito; 3 Absolvição de Padre Hosana 4. Padre Hosana já idoso 5. Dom Expedito no hospital

Em 46, o novo bispo de Garanhuns, Dom Juvêncio, o-nomeou vigário de Quipapá. Na segunda-feira ele ia de trem para a fazenda e só voltava na quinta, a comunidade católica local reclamava que ele era ausente, vivia mais no trem do que na igreja. Lá ele recebeu uma cobrança da paróquia de Panelas de dois garrotes q havia velhacado. Neste período, Dom Juvencio foi agredido pelo menos três vezes pelo padre. Para piorar a situação, Hosana levou uma prima, Maria José, para morar consigo na casa paroquial de Quipapá. A população da pequena cidade começou a falar que eles eram amancebados. Os fiéis reclamavam a Dom Juvêncio, que ignorou os fatos. Em 1955 chegou outra moça para ajudar na casa paroquial, Quitéria, mais nova e mais bonita que Maria José, que foi deixada de lado pelo padre e botou a boca no mundo, relatou ao Padre Lamprecht o ocorrido, que vivia como amante dele e que já havia até abortado em Recife com ajuda do padre.

Em Garanhuns a diocese recebia um novo Bispo, Dom Francisco Expedito Lopes, vindo de Oeiras no Piaui. De posse do relato de Maria José ao padre Lamprecht, Dom Expedito pede que Padre Hosana entregue a paróquia. Este não só não entrega como lhe enfrenta violentamente. Dom Expedito pede a vários padres da diocese que interceda junto a Hosana para que este cumpra a ordem. Padre Hosana se defendia dizendo que as denúncias eram falsas e era tudo perseguição. Depois de várias tentativas e adiamentos para que o padre cumprisse sua ordem, Dom Expedito o suspende da igreja.

Documentário sobre o livro Batinas Tintas de Sangue

No dia 1º de junho de 1957, após saber da suspensão, Padre Hosana se dirige a Garanhuns e vai à rádio Difusora no horário do programa da diocese onde se encontrava o Padre Acácio, que iria ler o decreto da suspensão, porém a diretoria da rádio não o autorizou a fazer uso do microfone. Hosana chama um taxi e vai ao Palácio Episcopal e é recebido pelo próprio Dom Expedito, que abre a porta e antes de falar qualquer coisa recebe dois tiros no peito e outro no braço. Foi levado ao hospital local e no dia seguinte veio a óbito. Esse tipo de homicídio, de um padre contra um bispo, foi o primeiro ocorrido no Brasil e o terceiro no mundo. A história correu o Brasil, virou cordel de José Soares que começava assim:

“Garanhuns está de luto
numa bisonha manhã
foi morto Dom Expedito
Um Bispo de alma sã
Pelo revólver dum padre
partidário de satã”

Padre Hosana foi julgado e preso, recebeu uma pena de dezenove anos e voltou a morar na fazenda, morreu idoso, em 1997, aos 84 anos de idade, dois vizinhos que viviam as turras com o ex-padre foram os suspeitos do assassinato a pauladas, eles negam, e esse foi o último capítulo da tumultuada vida do Padre Hosana.

7 pensou em “SANGUE NO PALÁCIO: A HISTÓRIA DO PADRE QUE MATOU O BISPO

  1. Um homem que não deveria ter sido ordenado ao sacerdócio católico. O cara foi se formar bem longe, no Sul, se não me engano, porque nas proximidades ninguém o queria. Carne de pescoço.
    A meu ver, o resto foi consequência desse ato. Apóstolo Paulo adverte “Não imponhas precipitadamente as mãos” consecratórias sobre um pastor de almas.

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