MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Deixando o Rio de Janeiro, em um ensolarado final de tarde, com destino a Brasília, desci do táxi e entrei no Aeroporto Santos Dumont. Não havia pressa alguma. O voo estava previsto para largas três horas depois. Teria tempo de sobra para fazer um lanche e observar o movimento, nessa fonte inesgotável de histórias que são os aeroportos.

“Todos os dias é um vaivém…”, diz a canção. E foi como se as vozes de Simone e Maria Rita disputassem um lugar em minha memória musical. É fato que a música fala de uma estação de trem; mas, de certa forma, dá no mesmo: os aeroportos são as novas plataformas para tantas chegadas e partidas, e outros tantos encontros e despedidas…

Decidido a não ter qualquer preocupação com o tempo, segui direto para o salão de embarque. Na fila do raio X, à minha frente, uma jovem tirou a jaqueta e a pôs na esteira, junto com a bolsa e o telefone celular. Usava uma calça um tanto quanto engraçada, ou pelo menos destoantes dos meus desatualizados padrões estéticos: colada ao corpo do joelho para cima, e abrindo-se em formato de cone, do joelho para baixo.

Chamou-me a atenção, ainda, o fato de ela ser mais alta que eu, característica pouco comum entre as mulheres que costumo encontrar cotidianamente.

Chegada a minha vez de passar os pertences pela máquina de raio X, pus a mala na esteira e o paletó em uma bandeja de plástico. Costumo tirar o paletó e pôr no raio X porque, assim, vão em seus bolsos meus dois telefones celulares, as chaves e outros objetos metálicos, como moedas. O notebook vai em outra bandeja, devidamente retirado da mochila e apoiado sobre ela.

Estava nessa fase do procedimento – tirando o notebook da mochila – quando ouvi uma voz feminina, logo à minha frente, demonstrando irritação.

Era a jovem de quem falei antes. Reclamava com o funcionário do aeroporto por ter que voltar e passar, novamente, pelo detector de metais. Uma luz vermelha piscava na parte inferior do portal a cada vez que ela transitava por ali.

O rapaz que controlava o equipamento tentava ser gentil, mas a moça queixava-se de já haver tirado todas as pulseiras e, até mesmo, o cinto.

– O problema é nos pés – explicava o rapaz. – Deve haver metal nos seus sapatos. Acontece muito isso…

O desentendimento entre os dois atrasava minha passagem, mas isso não chegava a ser um incômodo. Afinal, ainda restavam duas horas e quarenta e cinco minutos para o meu embarque.

Apesar dos protestos e da impaciência cada vez maior, a viajante acabou aceitando tirar os seus sapatos. Acomodou-se em um banco – aparentemente, posto naquele espaço para aquela exata finalidade – e pôs-se a descalçar, ali mesmo.

Foi, então, que contemplei os maiores saltos de sapatos que já pude ver em toda a minha vida!

A parte da frente, onde se apoiam os dedos e os metatarsos, deveria ter uns vinte centímetros de altura; os saltos propriamente ditos – que, em condições normais de temperatura e pressão, servem para apoiar o calcanhar – chegavam, facilmente, a uns trinta centímetros.

Não sei se a irritação da moça tinha alguma relação com o fato de ela ter que circular por ali, exibindo sua altura real. Aos meus olhos, a redução da estatura era algo que não a diminuía em nada – perdoem-me o trocadilho. Mas as pessoas têm suas preferências estéticas e, no caso, a diferença era bem grande.

Com os pés descalços, ela cruzou o portal do detector de metais, agora, sem acionar qualquer alarme. Pegou de volta seus sapatos com saltos gigantes, que haviam sido postos na esteira do raio X, e os calçou novamente. Ocultos sob sua calça engraçada – de pernas com bocas de sino –, ninguém suspeitava que eram eles que faziam a jovem ficar tão alta.

Se alguém me houvesse mostrado aqueles calçados na vitrine de uma loja, acharia que eram apenas uma peça decorativa. Como aqueles calçados conceituais, criados por grandes estilistas, para lançarem suas coleções, mas que são de uso improvável. Teria certeza de que ninguém seria capaz de andar equilibrando-se naquelas coisas.

Mas, ela andava. E rápido. O tempo que gastei repondo o notebook na mochila e vestindo novamente o paletó foi suficiente para que a moça dos saltos impossíveis sumisse na multidão.

3 pensou em “SALTOS IMPOSSÍVEIS

  1. Oops! upa! epa! Me explico: o texto começou convidativo, não é mesmo?

    “Todos os dias é um vaivém…”

    A foto sugestiva…
    Pensou Sancho: além de ótimo com o “martelo da sentença” na mão, melhor ainda soltando o vozeirão, o “cara” ainda vai “arrebentar com sacanagem da boa, no melhor estilo Bocage? Agora o MM vai atiçar o lobo que existe na velharada fubânica, com quase esquecidas ereções renascendo? Esfreguemos as mãos e aguardemos…

    Uma luz vermelha piscava na parte inferior do portal do MOTEL onde MM levou a moça para transformar a tal irritação em… etc, etc…

    “Tsc, tsc, tsc”.. Qual nada…

    Ainda bem que as lindas quadrigêmeas vietnamitas virão hoje, ao cair da noite, massagear os cansados pés de Sancho…

    Se fosse um texto “caliente”, ganharias 10 arre-éguas à moda ZéRamos, mas (broxante mas), como ficamos apenas na “irritação da baixinha”, o crítico literário Sancho oferta ao texto 8 arre-éguas.

    Abração, grandíssimo e sanchiano amigo

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