ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Há muitas décadas atrás, numa das primeiras vezes em que viajei para São Paulo a trabalho, fui jantar em uma cantina italiana que havia ao lado da Igreja de Moema. A comida lá era muito boa, mas o que eles tinham de mais interessante era mesmo o patriarca. Tocava numa espécie de órgão velho, enquanto os filhos tocavam violino, bandolim e percussão, e algumas irmãs (ou primas e esposas) serviam a comida e cantavam junto com a mãe.

Como toda boa reunião de italianos, especialmente depois de terem enchido a cara de vinho, era uma algazarra e uma balbúrdia dos diabos. Todo mundo falava aos gritos e ninguém entendia nada daquela mistura de italiano com português, ou sei lá eu quantos dialetos regionais da Itália mais.

O que mais me marcou naquela noite mágica foi o verdadeiro frenesi que se apossou da galera quando o “papa”, lá do seu trono junto ao órgão, tocou os acordes iniciais de uma linda canção e a galera, imediatamente, começou a cantar como se tivesse com o diabo no corpo, batendo em tampas de panelas, mesas, garrafas vazias, com os pés no chão, e com tudo o mais que estivesse à mão e que pudesse produzir algum som.

Fui me informar depois e me disseram que o nome daquela música linda era “Quel Mazzolin di Fiori”

Esta música é um canto popular italiano que foi composto por um autor anônimo lá em meados do século XIX. Apesar de não ter nenhuma ligação com a guerra, foi a canção mais cantada pelos soldados italianos engajados nas batalhas alpinas durante a 1ª Guerra Mundial, tornando-se assim famosa em toda a Itália. Por sua origem Lombarda, tornou-se o hino de resistência dos Partisans montanheses contra o fascismo de Mussolini. Os mesmos que pendurariam o seu cadáver de cabeça para baixo depois, sendo por isso mesmo associada a movimentos revolucionários, além de ser perseguida e proibida.

É uma música ingênua e, ao mesmo tempo, linda. São quatro versos, com quatro estrofes cada uma. As duas primeiras estrofes de um verso são sempre as duas últimas do verso anterior; e todas falando de flores.

Só bastante tempo depois foi que eu cheguei a associar essa linda canção com uma outra, cuja estrutura poética e temática é bastante parecida, só que, desta feita, com um espírito altamente soturno e deprimente. A música se chama “Where have all the flowers gone”. Seu autor é Peter Seeger, um ativista americano.

Acredito firmemente que, por ser um profundo conhecedor de canções folclóricas, as quais estudou durante toda a sua vida, Peter Seeger certamente deveria conhecer esta famosíssima canção. Assim, inconscientemente ou não, utilizou-se da mesma estrutura poética e da mesma temática para fazer a sua também belíssima canção de protesto contra todas as guerras e todas as loucuras humanas.

Marlene Dietrich cantou “Where have all the flowers gone”, de Peter Sieger, em alemão, na reunião de gala da UNICEF em 1962.

Com esta apresentação, ela compôs uma cena que, para qualquer pessoa dotada de um mínimo de sensibilidade, ficará gravada eternamente em sua memória. Pena que a maioria dos meus confrades fubânicos não manja “Niente” de alemão e de francês. Em vista disso, decidi quebrar o galho deles e coloquei a versão de um dos ídolos da minha adolescência: Johnny Rivers.

Clique aqui para ver, pois o vídeo só está disponível no Youtube.

Ah! Também não saca nada de inglês? É, tá difícil!

Mesmo assim, vou quebrar-lhes o galho. Vejam a versão abaixo. É toda legendada e as figuras fazem menção a tudo o que está sendo cantado. Agora, não é possível que não entendam.

No nosso cancioneiro nordestino, o que mais se aproxima dessa visão épica e trágica da humanidade, a meu ver, é a nossa conhecidíssima “Asa Branca”. Vejam e comparem.

Só que, na minha modesta visão, a mensagem dessa belíssima música deixa um certo desencanto no ouvinte, ao descrever as agruras do sertanejo na seca. Tanto é assim que, o próprio Luiz Gonzaga, se encarregou de desfazer essa visão soturna do Nordeste, através de outra composição belíssima, talvez mais bonita ainda que a própria “Asa Branca”: É “A Volta da Asa Branca”.

A conclusão que eu cheguei, após ouvir as mais belas canções folclóricas ao redor do mundo, é que há uma imensa identidade entre todas elas. É impressionante o quanto todas elas convergem em direção a alguns pontos básicos e simples da vida humana. Chega a dar a impressão de que Peter Seeger e Luiz Gonzaga, juntamente com os autores anônimos de “Mazzolin de Fiori” bateram longos papos, mesmo estando separados por milhares de quilômetros e tendo vivido em épocas bem distintas.

2 pensou em “SAG MIR, WO DIE BLUMEN SIND?

  1. Meu caro colega Engenheiro Adonis:
    Há anos acompanho seus escritos, os quais muito aprecio, pois seus pontos de vista são muitíssimo concordantes com os meus.
    Seu artigo é uma cereja no bolo da minha semana. Seguramente vai ficar marcado em minha memória. Muito obrigado pelos momentos que você me proporcionou.
    Tenha um ótimo final de semana, com muita paz, saúde e alegria.
    Magnovaldo

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