ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

“Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade”!

Bastos Tigre

Há já algum tempo, dentre as inúmeras e incontáveis baboseiras que me enviaram através da Internet, chegou-me uma mensagem que considerei tão interessante que guardei a sua essência cuidadosamente.

Dizia a mesma que todos nós, que estamos tendo o privilégio de enveredar pela maturidade, deveríamos lutar para ter:

• Idade de 60,
• Corpinho de 50,
• Cabeça de 40,
• Disposição de 30, e
• Sonhos de 20.

Dentre todas estas sábias recomendações, as únicas que consegui atingir foram a primeira e a última.

Isto porque ter um corpinho de 50 está bastante difícil, especialmente considerando que acho um saco ficar me exercitando indefinidamente, muito especialmente quando ainda existem tantas coisas maravilhosas que eu quero conhecer e fazer antes de morrer.

Depois, ter uma cabeça de 40 também me é muito difícil, especialmente levando em consideração que sempre fui um jovem com características de velho:

Individualista, misantropo, rabugento e sem a mínima paciência para ficar andando em patotas e conversando interminavelmente a respeito das mesmas besteiras.

Quanto à disposição de 30, esta é ainda mais difícil, já que a minha disposição para os exercícios é muito pequena e que tenho grande apreço pela glutonaria e pela bebedeira.

Quanto à idade de 60, considero-a apenas uma fatalidade, especialmente sabendo que a alternativa é muito pior. Basta relembrar a quantidade imensa de bons amigos que já foram devidamente ceifados, a seu tempo, pela malvada Caetana.

Uma das principais características de nosso tempo é a existência de verdadeiras multidões de seres humanos sem alma. O que eu denomino de “Alma” seria, num sentido mais corriqueiro, aquilo que se costumava chamar de “Vida Interior”. A maioria das pessoas vive em um eterno frenesi para atender a todas as mensagens que lhes chegam através de incontáveis grupos virtuais dos quais participa, para atender a todas as mensagens eletrônicas que lhes são enviadas diariamente, para estar sabendo dos últimos buchichos correntes entre a “galera”, para curtir os últimos lançamentos musicais de músicas que parecem mais ter sido compostas por alunos da APAE ou do Instituto Pestallozzi, e por aí vai. Ao se deitar, à noite, talvez sejam incapazes de detalhar o que fizeram durante todo um dia extremamente “ocupado” e estressante.

Durante meus muitos anos de atividade acadêmica, ensinando em cursos superiores de engenharia e de administração, costumava fazer a seguinte pergunta aos alunos logo no primeiro dia de aula:

Quem de vocês possui, em casa, um lugarzinho tranquilo, totalmente isolado de barulhos e ruídos externos, onde exista uma mesinha de trabalho, uma cadeira confortável e uma estante com livros? Um local feito para a simples prática de estudar e meditar?

A resposta foi sempre e inexoravelmente a mesma: NINGUÉM!

A coisa toda se inicia diante do simples fato de que a maioria das pessoas não se sente bem consigo mesma. Por este simples motivo, todas elas odeiam a solidão. Andam sempre em bandos cacarejantes de nulidades e irrelevâncias. Daí a necessidade de ter permanentemente uma televisão ligada no ambiente, mesmo que ninguém a esteja assistindo, um som ligado nas alturas logo ao entrar no carro, ou até mesmo um “headphone” permanentemente nos ouvidos. Tudo isso só para ter sempre uma fonte de barulhos que lhe impeça de se voltar para dentro de si mesmo.

A consequência deste imenso vazio interior nos salta à vista: Taxas de suicídio rampante entre os jovens, altíssimos níveis de depressão entre os mais velhos, multidões de pessoas perdidas e vivendo vidas melancólicas, na condição magistralmente descrita por Fernando Pessoa: “Vivem porque a vida dura! Nada na alma lhes diz mais que a lição de raiz de ter por vida a sepultura”!

Quem primeiro constatou o papel e a importância fundamental de se ter “Um sentido para a Vida” foi o psicólogo Viktor Frankl, talvez o grande injustiçado dentre os estudiosos da alma e da Psiquê humana. Suas obras são verdadeiramente fundamentais para qualquer ser humano que queira entender um pouco melhor algumas características fundamentais de nossa vida.

É exatamente aí que entra o último item da lista com que comecei esta conversa: Ter sonhos de um jovem de 20 anos! Esta parte, para mim, sempre foi extremamente fácil. Sempre fui um grande sonhador. Meu horizonte temporal sempre esteve ajustado para algumas décadas à frente. Por isso, fico profundamente impressionado com a total ausência de sonhos que constato nos “Walking Deads” com quem travo conhecimento. Seu horizonte temporal, se jovem, se limita ao planejamento da balada do próximo final de semana ou, no máximo, uma viagem que farão a uma praia um pouco mais distante daí a alguns dias.

Já o caso dos mais idosos é mais grave ainda! Basta você perguntar – Como vai? – Para que estes digam que não vão nada bem e comecem a fazer uma descrição meticulosa e detalhada de todas as doenças e males que os aflige, muito especialmente aqueles aspectos mais escatológicos e tenebrosos das ditas doenças. São pessoas que, quando à mesa, ao lhes ser oferecido um delicioso prato de qualquer comida mais condimentada, passam a descrever detalhada e interminavelmente o mau funcionamento das suas funções intestinais, mesmo os aspectos mais teratológicos e nojentos.

VADE RETRO, SATANÁS!!!

Manter o bom humor e o otimismo, mesmo depois de ter sido cooptado para vítima das lamúrias de uma pessoa como esta, é praticamente impossível. Tem que ter uma tesão para a vida digna de ator de filmes pornô.

Por falar em assuntos brochantes, minha paciência para aturar a imensa multidão de canalhas encastelados no congresso, no judiciário, assim como em todas as instâncias e meandros do mastodonte governamental já se esgotou há muito tempo.

Minha impressão é que as nossas gloriosas forças armadas devem estar fazendo treinamento assim atualmente:

Para mim, esta seria a ÚNICA explicação possível para o fato de não terem fechado ainda e prendido o congresso inteiro, o STF todinho, os corruptos do TCU, os desembargadores ladrões da Bahia, e uma lista imensa de canalhas e patifes que infelicitam esta espoliada nação há décadas.

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