CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

RÉQUIEM PARA MINHA MÃE

A primeira vez que você me abandonou, há muito tempo, tinha eu nem mês, semana talvez. E você me abandonou. Numa roda de enjeitados me deixou. Não sobrevivi. Talvez de fome, de frio, mas de saudades é certeza. E você se foi. Não voltou. Não te culpei. A pobreza, a indigência. A fome. O frio. O maltrato. Era um legado que você não queria para mim. Seu coração se apertou ao ver o choro tão pequeno. Mas é a vida. Naquela noite de chuva. Aldeia miserável. Lama. Pobreza. Agonia. Indiferença. E você me deixou.

Na segunda vez que você me deixou, ainda me lembro bem. Triste cidade brasileira. Homens gananciosos em busca do amarelo metal que cega o espírito e transforma pessoas em bichos. Nove filhos. Nove irmãos. Nove bocas passando fome. Você trabalhava rijo. Virou boneca de homens. Quase máquina. Via você chorando quando tinha somente um bocado de farinha e uma colher de sal que misturava e em nossas bocas colocava. Gente preta e encardida da fuligem do fogão de barro. Menos que gente. Menos que bicho. E anjinhos foram nascendo. Uns, o que a ceifadora não levou você deixou ir. Ir para servir de brinquedo a endinheirado, ou bicho de carga do ouro. No dia em que você me abandonou, mandou eu ficar em casa, pois voltaria ao final do dia. Esperei um dia, dois, três, uma semana. Sentava ao pé da porta. Tapera velha, caindo aos pedaços. Comi manga verde, goiaba bichada. Bebia água de cacimba. Com 14 anos era um fio de gente. Magro. Preto. Feio. Beiçudo. Sujo. Trabalhei. Gretei as mãos. E parti debaixo da terra. Era o tributo que o metal amarelo cobrava para poder servir aos caprichos do homem.

Hoje você me abandonou de novo. Dessa vez caminhamos trinta anos juntos. Reconhecemo-nos no primeiro olhar. No primeiro falar. Não só eu. Meus irmãos também. E você nos acolheu. A todos. E cumpriu sua missão. Nos criou. Nos amou. Nos abrigou. E brigou por nós. Como uma leoa. Uma guerreira. Deixei você ir porque era sua hora. Vi seu rosto uma última vez. Mesmo agora. Sou todo cachoeira. Sou pranto e tristeza. Você se foi mais uma vez. Seus filhos criados. Viu netos, bisnetos. Sou muito grato. Aqueles que outrora você abandonou. Por necessidade. Por miséria. Por imperativos que só o íntimo sabe te acompanharam. Te carregaram. E te colocaram no teu último leito. Se vamos nos encontrar de novo? Não sei. Só Deus sabe. Mas, vá em paz minha mãe. Você cumpriu seu destino. Agora eu preciso cumprir o meu.

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