ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Não sei por que cargas d’água sempre gosto de me envolver em questiúnculas sem futuro. Acho que é só para ver meu contendor se exasperar, ou eu mesmo ficar prostituto da vida com a ignorância oceânica que as pessoas têm. Quanto menos elas sabem de um assunto, discutem com mais paixões e mais argumentos. Não estou querendo dizer que eu sou a última bolacha do pacote, ou mesmo O sábio da tribo “caeté” aqui de minha terra. Na verdade, minha ignorância em muitas matérias é algo que me diverte. E, quando não sei de algo, sigo o conselho do presidente Abraham Lincoln. Fico quieto para não dar aos outros a certeza de minha estupidez.

Essa discussão aconteceu “nessoutro” dia, quando me sentei ao chão para catar carrapato na carcunda de meus cachorros. Aliás, eles estão espertos nesse assunto. É só me ver sentado ao chão e eles “azulam”. Mas como eu dizia, estava eu sentado ao chão, quando apareceu um “caeté” que sempre vem aqui e começamos a conversar sobre as riquezas das nações e as potencialidades de riqueza. E lá foi ele destrambelhar aquele discurso fácil de que somos um país rico. Que “Uzamericanos” têm planos sinistros para roubas nossas riquezas – petróleo, ouro, urânio, diamante, grafeno. Que uzamericanos estão em uma guerra sórdida com o bigodudo gigolô da fome venezuelana. Que todas as guerras em que uzamericanos se envolveram foi só para roubar o petróleo e as riquezas dos outros países, principalmente os países mais pobres.

Quando alguém começa com essa retórica eu fico pubo, sem deixar tanta bobagem me contaminar. Mas dessa fez fiquei a refletir sobre o conceito de riqueza. Mas afinal de contas o que vem a ser riqueza, e, na atualidade, qual a maior riqueza de um povo? O conceito de riqueza evoluiu com a história humana. Já foi representado pela posse de terras, posse de escravos, de animais. Passou pela acumulação de metal precioso, chegando à acumulação de cédula monetária até chegar à acumulação de papéis acionários.

Todas essas etapas de acumulação primitiva, em um tempo, ou outro, foi chamado de riqueza. Todavia, isso não era riqueza. Riqueza é uma sucessão de forças que geram bens que atendam as necessidades da sociedade humana, dando a seus membros capacidades e condições de atingirem seus próprios objetivos através de seus esforços e talentos pessoais. Em outras palavras: dê a todos um ponto de partida e condições igualitárias de competição. Onde cada um chegar vai depender do interesse, objetivo e talento.

Na atualidade, o conceito de riqueza expandiu-se e focou mais no ser humano. Riqueza é a capacidade intelectual e a criatividade que um povo tem para transformar os recursos de que dispõe em bens e serviços que atendam as necessidades da humanidade em seus aspectos básicos, fomentando outras oportunidades de afloramento de talentos. Mas, deixemos esses conceitos filosóficos de lado e vamos pelo lado prático.

Alguns exemplos de riqueza que as pessoas cantam em verso e prosa não são mais que matérias-primas. Aliás, veja-se o caso do petróleo. De maneira bem chã, não passa de uma lama negra e fedorenta dentro do solo. Se não houver engenho humano, talento e criatividade para extraí-lo, refiná-lo, continuará sendo uma lama negra e fedorenta dentro da terra. O caso do Brasil é exemplar nesse ponto. Em 1970 o Brasil tinha cerca de 90 milhões de pessoas e importava comida para alimentar essa gente. Em 2020, 50 anos depois o país tem 210 milhões de pessoas e produz comida suficiente para alimentar 3,7 bilhões de pessoas em todo o planeta. O que causou essa revolução? Uma empresa chamada Embrapa. Criada no governo militar, foi dedicada a pesquisar cultivares e introduzir tecnologia no campo. Hoje o Brasil produz mais comida em apenas 13% de seu território e alimenta mais gente do que há 50 anos. E tudo, graças à inteligência, à pesquisa e ao intelecto humano.

Hoje, o agronegócio brasileiro, tão odiado por aqueles que acreditam que um pacote de macarrão cresce em gôndola de supermercado e que um litro de leite é gerado em balcões refrigerados de mercearia, é, senão o mais avançado, um dos mais avançados do mundo. Aquela visão do peão de fazenda com gibão, esporas e arreios ficou apenas na visão romanceada do passado. O agronegócio hoje trabalha com tecnologia, mídias digitais, sensoriamento via satélite, seleção genética, controle sanitário mais avançado que muitos serviços hospitalares top de linha do país. E isso tudo graças à visão de um general que foi, muitas vezes chamado de retrógrado e gorila. O presidente Emílio Garrastazú Médici.

Adiante, vejam estes dois casos – e disse isso ao meu amigo “caeté”, chato de galochas – Cingapura é o maior refinador de petróleo do planeta. Sabem quantos barris de petróleo Cingapura produz? Zero. Nada. Niente. Mas, os cingaleses investiram grande quantidade de seus recursos em formar engenheiros na área petrolífera que, através de pesquisa conseguiram um processo de refinamento a baixo custo. Resultado: 35% de todo o petróleo consumido no leste asiático é refinado em Cingapura. E a Coreia do Sul? É a maior fabricante de plataforma e navios petrolíferos do planeta. E quantos barris de petróleo a Coreia do Sul produz? Nada. Niente. Zero. Porém, o país resolveu investir em criatividade, engenharia, talentos humanos e hoje fornece para, praticamente todos os países, plataformas petrolíferas e navios petroleiros que saem de seus estaleiros.

Ouro, prata, petróleo, gás natural, grafeno, nióbio, diamante, ou seja, lá o que for, serão apenas potencialidades debaixo da terra se não houver um talento humano para extraí-lo, processá-lo e dar-lhe algum valor. É até uma situação bizarra pensar uzamericanos chegarem ao Brasil, colocar o pré-sal em uma sacola e irem embora sem dizer nem “até mais otário”. Quando a sociedade brasileira se convencer dessa verdade, de que a riqueza no século XXI são as pessoas e sua criatividade e inteligência, aí sim, começaremos a deixar de ser atrasados e curibocas. Defender esse discurso tosco que de matérias-primas são riquezas por si só, apenas nos leva à protelação da riqueza e do bem-estar que deveria estar a serviço de todos e não apenas de alguns que, inclusive incentivam essa ideia tosca, com o objetivo de não perder seus privilégios.

8 pensou em “RIQUEZAS

  1. Concordo com as potencialidades não exploradas ou pouco exploradas desse país. A pesquisa no Brasil é amarrada pelos órgãos de controle, então pelo excesso de corrupção nós sofremos. A pesquisa pode não trazer resultados esperados e isso é complicado porque a CGU acha que houve desvio de dinheiro público. Nós Estados Unidos há investimento na busca de vidas em outros planetas, se fosse aqui, os pesquisadores teriam que devolver o dinheiro porque não encontraram, ainda.

    • Concordo contigo meu Caro Maurício.
      Aqui nos continuamos em um obscurantismo de dar inveja à Idade Média. E tem mais, isso quando a CGU e o TCU embargam a pesquisa e impõe milhões de exigências absurdas que, quando o pesquisador, a instituição de pesquisa consegue atender a pedidos só para pintar papel com tinta, o momentum da pesquisa já passou e a oportunidade de aprendizado também. Lembro-me de um caso aqui no MS mais, ou menos nessa toada. As exigências por preenchimento de papel para uma pesquisa com bioenergia a partir de ninfeias – aqui chamamos de camalote, no Rio de Janeiro é chamado de gigogas, e em outras paragens eu não o sei, por ignorância mesmo – foi tão grande que, apenas três anos depois se conseguiu preencher todas as exigências, mas aí uma empresa de bioenergia estrangeira já tinha patenteado o processo e nada mais podia ser feito, a não ser devolver o dinheiro e ir chorar na cama que é lugar quente. Infelizmente aqueles que estão em cargos públicos de comando são os mais obscurantistas e preferem acreditar em papel a acreditar na ciência. De minha parte, eu sou igual ao Vadinho – marido morto da dona Flor, na genial obra de Jorge Amado: Dona Flor e seus dois maridos -: papel para mim só tem duas funções: embrulhar pão e limpar a bunda. Tá ligado?

  2. Prezado Colega Fubânico,

    Parabéns pelo maravilhoso artigo.

    Gostaria de tê-lo escrito, de tão bom que o achei. Fiquei até com inveja. ahahahah

    • Bondade sua meu caro colega, membro da ICAS – Igreja Católica Apostólica Sertaneja – que tem no Papa Berto, primeiro e único, seu maior líder. Inveja tenho eu dos seus escritos, só fico na moita para não assustar a corruíra!

  3. Dom Roque Nunes:

    Como ex-professor (desde de 1997) – do tempo em que (ao total inverso de hoje!!!) ser professor era preciso, no mínimo, ter exemplar orgulho e amor à missão e a verdade, além da exigida mais profunda dedicação, honradez e dignidade, aliados à mais alta competência – digo, em alto e bom som, que:

    CONCORDO EM GÊNERO, NÚMERO E CASO,

    com tudo o que tu escreveste.

    Um baita abraço,

    Desde o Alegrete – RS,

    Adail.

    • Adail…. filho de terra de gente guapa e valente. Grande abraço. Eu, como professor desde 1991 tenho o mesmo dístico a respeito do magistério. Somos irmãos da mesma ôpa. Grande abraço.

  4. Excelente texto, Roque.

    Esse bobagem tão repetida de que “os estrangeiros” vão roubar nossas riquezas na calada da noite fica ainda mais tola quando os que a repetem colocam o grafeno ao lado de petróleo e urânio, como se o Brasil ou algum país do mundo tivesse minas de grafeno.

    • Marcelo, digno colega de escrita.

      Muito honrado com seu elogio rasgado neste texto. Como se diz aqui no glorioso Mato Grosso do Sul – conversa de cerca lourenço, para passar o tempo. Mas verdadeiras as informações a serem passadas.

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