ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Lourival Batista e Pinto de Monteiro

Severino Lourenço da Silva Pinto (1895-1990), conhecido como Pinto do Monteiro, foi um dos maiores representantes do admirável universo do repente. Ele participou de Cantorias, Congressos e Festivais, onde era aclamado pelo público presente nesses eventos, como aconteceu no Teatro Santa Izabel, em Recife/PE, na noite de 05 de outubro de 1948.

Naquele momento, o repentista Lourival Batista (1915-1992) cantou com Pinto do Monteiro para uma grande plateia que lotou o teatro, surpreendida com aquela forma de fazer verso. Lourival, entusiasmado com os aplausos, iniciou de improviso esta sextilha:

A cantoria vai boa
E os versos são colossais

Nesse instante, aproximou-se um fotógrafo, que, de cócoras, fez uma foto dos dois violeiros. E Lourival Batista, também conhecido como Louro do Pajeú, continuou:

Pinto, aí da tua banda
Acocorou-se um rapaz
Assim nessa posição
Eu não sei o que ele faz?

Pintou aproveitou a oportunidade e completou:

Chegou ali o rapaz
Começou a se bulir
Focou na cara da gente
E eu vi a luz explodir
Pensei até que era um bicho
Que nos quisesse engolir.

Lourival, instantaneamente, descreveu o desfecho da saga poética com versos criativos e bem-humorados:

Pinto, eu não sei distinguir
Se ele é da praça ou da aldeia
Pois quando se acocorou
Meu sangue tremeu na veia
A foto pode ser boa
Mas a posição foi feia.

7 pensou em “REVISITANDO O LEGADO POÉTICO DE PINTO DO MONTEIRO E LOURIVAL BATISTA

  1. Parabéns pelo artigo lembrar o I Congresso de Cantadores do Recife, no Teatro de Santa Isabel, organizado por Rogaciano Leite em 1948. A cantoria de improviso, uma das representações máximas da poesia oral, é bela, não apenas pela riqueza de conhecimentos culturais, mas também pela difícil elaboração do fazer poético. Pinto do Monteiro e Lourival Batista deixaram a plateia desse Congresso encantada com seus improvisos rimados e bem elaborados.

    • Agradeço ao excelente comentário. O meu objetivo foi fazer um tributo a Pinto do Monteiro (1895-1990) e Lourival Batista (1915-1992). Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para contar um episódio desses dois talentosos repentistas.

      Pinto do Monteiro, que depois de algum tempo sem canta com Lourival Batista, concluiu a sextilha:

      Nunca mais tinha enfrentado
      O colega em cantoria.

      Lourival responde de forma brilhante;

      No prado da poesia,
      Eu estava sem parelha.
      Hoje eu me acho ombreado
      Para correr na orelha,
      Pois quando as ripas são certas,
      Não dá defeito na telha.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. Excelente a homenagem a esses dois repentistas – Pinto do Monteiro e Lourival Batista – que contribuiram para tornar a difícil arte de improvisar versos em sucesso de público e, posteriormente, tornar a cantoria de viola uma profissão. Na cantoria do repente, poeta e público têm uma ligação recíproca, ou seja, os temas e motes desenvolvidos pelos repentistas, de maneira geral, refletem muito a realidade dos ouvintes. É interessante que o simples fato do fotógrrafo se abaixar para ter uma posição melhor para tirar a foto leva os repentistas a fazer vesos engraçados deixando o público cativo do talento desses gênios do repente.

  3. Messias,

    Muito obrigado por seu formidável comentário com observações sobre a cantoria do repente. No Jornal da Besta Fubana, aprendemos uns com os outros sempre. Aproveito a ocasião para contar um episódio de Pinto do Monteiro (1895-1990) ao prezado amigo.

    O vaqueiro tabirense Raul Pimpão deu o seguinte mote a Pinto do Monteiro;

    Quem é vaqueiro não pode
    Ser cantador de viola.

    Pinto glosou com seu extraordinário poder de síntese:

    Vaqueiro é pra pegar touro,
    Amansar bezerro e vaca,
    Cortar pau, fazer estaca
    E preparar bebedouro.
    Comer queijo e beber soro,
    Curtir couro e fazer sola;
    Fazer freio e rabichola,
    Tirar leite e capar bode,
    Quem é vaqueiro não pode
    Ser cantador de viola.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Parabéns, prezado Aristeu, pela rica postagem, “REVISITANDO O LEGADO POÉTICO DE PINTO DO MONTEIRO E LOURIVAL BATISTA”!

    O raciocínio rápido, o poder de improviso e o senso de humor desses dois famosos repentistas, fizeram com que eles marcassem época na história do repente nordestino..

    A participação deles em Cantorias, Congressos e Festivais, onde eram aclamados pelo público presente, tornou-os famosos e consagrados na Literatura de Cordel.
    O episódio do improviso, feito entre Pinto do Monteiro e Louro do Pajeú, na ocasião em que se apresentavam no teatro, e um fotógrafo se acocorou em frente ao palco para melhor os fotografar, foi hilário. O desafio dos dois foi impagável! rsrs,

    A leitura do seu texto é uma verdadeira terapia!

    Uma ótima semana, com muita Saúde e Paz!.

    Violante Pimentel.

  5. Violante,

    É gratificante receber seu primoroso comentário com observações importantes sobre o magnifico mundo do repente. Quando você falou sobre a leitura ser uma terapia, lembrei-me que ao pesquisar a cultura popular fico de bem comigo e com a vida.
    Aproveito essa oportunidade nesse espaço democrátido do JBF para compartilhar uma estrofe de Otacílio Batista, conhecido como “Rei dos Trocadilhos”, com a prezada amiga:

    Nem tudo que é triste, chora,
    Nem tudo que é alegre, canta,
    Nem toda comida é janta,
    Nem todo velho se escora,
    Nem toda moça namora,
    Nem todo amor é paixão,
    Nem toda prática é sermão,
    Nem tudo que amarga é lima,
    Nem todo poeta rima,
    Nem toda terra é sertão!

    Desejo uma semana plena de saúde, paz, harmonia e alegria

    Aristeu

  6. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo estes belíssimos versos, do poeta Otacílio Batista, conhecido como “Rei dos Trocadilhos”! Adorei !!!

    Uma semana muito feliz, com muita saúde, alegria e paz!

    Violante

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