ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Este texto pretende ser o último a tratar da república do lumpesinato que tomou conta do país em 2003 e ainda sentimos seus efeitos em todas as áreas da vida humana. O rebaixamento moral da sociedade, a naturalização da corrupção como se fosse algo inerente à dinâmica da vida humana, o ataque à estrutura familiar, a erotização da infância, a tentativa de demolição da sacralidade religiosa, independente da matriz de culto, o furto institucionalizado, e a desestabilização institucional foram os resultados colhidos após catorze amargos anos.

Porém, uma seara foi a que mais sofreu e a que mais sofre e sofrerá os efeitos da república do lumpesinato: a Educação. E, digo isso como educador e professor de Educação Básica que esteve dos dois lados da máquina que opera o sistema educacional brasileiro. Nesse aspecto, a república do lumpesinato arquitetou, desenhou, montou e colocou uma estrutura cuja função é fracassar. E fracassar de maneira retumbante, épica e total.

Mas, vamos por parte, tentando demonstrar como a república lumpesina, apesar de investir tubos grossos de dinheiros na rubrica educação conseguiu a façanha de aumentar o número de analfabetos, fazer o país retroagir nos indicadores de educação mensurados internacionalmente, e mais escandaloso, ficar parado em termos de evolução da qualidade educacional. Só para se ter uma ideia, e não confiem em mim, não. Se estão em dúvida, vão até o site do Ministério da Educação e puxem os dados da evolução do Índice de Educação Básica do Brasil, no período 2003 -2015.

Mas, você pode ir mais além. Se forem um pouco mais curiosos busquem os dados de 1985 a 2015. Nesses trinta anos de “regime democrático”, o IDEB nacional saiu de 4,3 pontos para 4,5 pontos. Isto é, em trinta e cinco anos, avançamos 0,2 pontos. Agora façamos uma conta simples. Só multiplicação mesmo. Coloquem aí, se em cada anos gastou-se cerca de cem bilhões de reais em educação básica – apenas contabilizando o governo federal, através dos repasses -, pense no volume total gasto. Agora some a esse valor os investimentos dos estados e dos municípios. Feito isso se pergunte: esse volume de investimento reverteu-se em benefícios para a sociedade?

Mas, durante a república do lumpesinato, até na Educação institucionalizou-se a corrupção, de modo que o sobrepreço, a majoração, a inflação e a propina tornaram-se quase que naturais. Mas aqui, peço vênia para fazer uma explicação sobre os preços praticados pelo governo.

Todo governo possui uma central de compras, que é uma espécie de tabela pública pelo qual o governo estabelece onde comprar, sempre levando em consideração “o melhor preço” para o erário. Mas essa central de preços funciona assim: o governo faz uma chamada pública para empresas e comerciantes que querem vender para o governo. Cada coisa que se possa comprar é precificado. Nós meros mortais, quando vamos construir um quarto, ou uma casa, ou mesmo um “puxadinho” compramos tijolo por milheiro, ou seja, pagamos um valor por mil tijolos. O governo por sua vez precifica por unidade. Isso mesmo. O tijolo é precificado na central de compras por unidade e não por milheiro.

Isso vale para um tijolo, um clipe de papel, ou mesmo uma folha de papel sulfite. Faz-se a coleta de preços de possíveis fornecedores, tira-se uma média desses preços e majora-se esse valor entre 25% e 30% e se estabelece esse preço como referência. Quando se assina qualquer contrato que envolva compra de qualquer coisa, segue-se o valor definido pela central. A marotagem está no fato de que, todo contrato admite a correção, por item, em até 25% do valor total. Assim, numa situação hipotética, tijolo é um item, colher de pedreiro é outro item, areia é um item, brita é outro item, e por aí vai.

Mas, voltando à vaca fria, dos malefícios da república do lumpesinato na educação, investiu-se no anti-intectualismo, na fraude histórica, na formação de docentes que são ótimos em repetir chavões, mas não conseguem fazer uma análise sintática de um período simples. São excelentes em brandir gritos de greve, mas não sabem uma regra de três, mesmo utilizando uma calculadora.

O investimento na fraude histórica é de assustar. Certa vez ouvi um professor de história dizer que Tiradentes foi enforcado porque ele era proletário e lutava contra a burguesia dominante europeia e queria libertação do campesinato brasileiro. Quase engoli a caneta que estava usando ao ouvir tamanho despautério. No campus universitário onde faço meu doutorado, fui convidado para uma roda de estudos sobre Marx e o proletariado. Dei um sorriso mofino para meu convidante, cocei a virilha e fui cuidar da minha vida. Falar sobre proletariado em uma sociedade em que, nem quem é assalariado se considera mais proletário, em pleno século XXI, não é mais ser idiota: é ser pilantra.

Certa vez, e conto essa história com mais preocupação, do que com jocosidade, duas professoras de Língua Portuguesa solicitaram que eu corrigisse uma “carta aberta” que seria entregue ao governador do Estado, em nome dos “Profissionais da Educação”. Em três folhas de papel encontrei 72 erros formais de grafia, 56 erros de concordância e 39 erros de regência verbal. Devolvi o papelucho corrigido e pedi, encarecidamente que, quando fossem publicar aquilo, dissessem que eu, este caeté que vos fala, estava fora desse movimento.

Assim chegamos em 2021 com o Brasil na 66ª sétima posição em leitura e 69ª posição em cálculo pela OCDE – Organização e Cooperação para o Desenvolvimento Econômico -, entre setenta países pesquisados. E o que ocorreu, aqui no glorioso Mato Grosso do Sul que também teve alunos avaliados, já que a OCDE avalia alunos com 15 anos de idade dos países alvo da pesquisa? O governo estadual em vez de aumentar as horas de estudo dessas duas disciplinas, requalificando docente, investindo na formação continuada e em novas tecnologias de aprendizagem, criou duas disciplinas: uma se chama Projeto de Vida e a outra Caminho de Formação. Não me perguntem o que é isso, pois se qualquer um ligar para o órgão gestor e perguntar qual a matriz curricular dessas duas disciplinas, a resposta será: o professor irá construir essa matriz ao longo do ano letivo, junto com os alunos.

Tudo isso é reflexo da república do lumpesinato: investiu-se na ignorância formal, na falsificação histórica, na divisão social dentro da escola, no sexismo, no racismo, na tara psicopata em erotizar nossas crianças e investir na pauta de gênero e no movimento gay. E, nessa pauta eu sempre compro briga. Quando qualquer pessoa vem falar comigo sobre os “gêneros”, saio com dois tijolos oito furos nos dedos caeté e falo: gênero quem tem são palavras. Seres biológicos, independente ao qual filo pertençam possuem sexo. E ainda peço ao meu interlocutor para me provar o contrário.

Esse é o legado da república lúmpen para as futuras gerações brasileiras. São três gerações perdidas, mal formadas e semialfabetizada que dificilmente encontrarão seu lugar “à sombra”, afinal de contas, o sol nasce para todos, mas a sombra apenas para aqueles que fazem do momento a sua oportunidade de ouro.

2 pensou em “REPÚBLICA DO LUMPESINATO – EPÍLOGO

  1. Ingressando, como professor, na Universidade Federal da Paraíba em 1965 e dela saindo, pela aposentadoria por tempo de serviço, no final da década de 80, tudo no século passado, tive oportunidade de acompanhar e vivenciar o período de pujança experimentado pela instituição nos anos do Governo Militar e, mais adiante, o início de sua degradação, infelizmente manifestada ao final dessa era, quando começaram a surgir as “sumidades” educacionais que não tendo condições para concorrer no mercado de trabalho, postulavam as famosas bolsas da CAPES para cursos no exterior, na grande maioria em condições “que só Deus sabe, quais”.
    Vi alunos de pós graduação marriculado em universidade de país de língua espanhola, requererem da Reitoria da UFPb, uma ajuda de custo para contratar um intérprete para ajudá-los a ler a bibliografia indicada pelos professores.
    E, por aí foi.
    Hoje, temos esse universo de sábios a dominar o ensino, com os resultados que bem vemos.
    Com isto, só fazendo ou dizendo como os cearenses: “Arre, égua!!!”,

    • Concordo contigo. Na minha pós eu vejo estudante de doutorado em Letras falar “nóis vai”… e isso é aceito com normalidade. Quando ouço uma jumentice desse quilate sobe-me um visgo amargo na boca e penso como nossos estudantes estão indefesos diante dessa aberração toda.

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