FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Na semana passada, numas das esquinas de um supermercado, deparo-me com um amigo-irmão que há mais de três anos não o abraçava, salvo através da Internet. Uma pedida de cervejas sem álcool semeou, na ocasião, um papo sobre livros, política, Brasil, peitos e bundas, Leão do Norte, religião e futebol arrumado, televisão e outras patacoadas contemporâneas.

Como de costume, o João Silvino da Conceição portava um livro recentemente adquirido, que tratava dos empanturramentos informacionais dos últimos tempos nos diversos meios da comunicação, nos quatro cantos do mundo, promovendo um estrondoso desprezo pelos conhecimentos comprovados que minimizam angústia, sofrimentos e ignorâncias de povos e nações, edificando uma era de insensatezes as mais diversas, civis, políticas, militares, científicas e religiosas.

Segundo Silvino, urge uma muito ampla oxigenação comportamental em todos aqueles que postulam uma trabalhabilidade pensante duradoura, abandonando definitivamente as meras concretizações do viável e perseguindo as viabilizações do nunca tentado. Com inúmeras usinas de ideias múltiplas, envolvendo empresas, universidades, sindicatos, sociedade civil, partidos políticos e comunidades periféricas, todos buscando um mundo mais humano, mais social-democrático, nunca liberal nem marxista, sem o qual estaremos condenados a repetir, sempre para pior, incontáveis passados da História, hoje mal embalados num Desenvolvimento Tecnológico que, breve, avaliará até o volume global diário de gás emitido pelos anus mundi.

Segundo Silvino, um papo para lá de muito arretado de ótimo, os pensantes responsáveis do mundo inteiro estão sempre desejando entender melhor o panorama atual que se vive, buscando erradicar o monopólio do saber apenas para os de cima, com o qual estaremos todos condenados a repetir a sorte de um pardalzinho que odiava viver melhor. E tirou do bolso uma folha de papel impressa que contava a seguinte história:

Era uma vez um pardalzinho que odiava deslocar-se para outros ambientes, todas as vezes que o inverno chegava. Por esse motivo, deixava sempre para última hora a ideia de abandonar seu aconchego por uns tempos. Costumeiramente, despedia-se dos companheiros, retornando ao ninho para mais umas noites de sono bem-bom.

Certa feita, com um tempo já desesperadamente frio, ao iniciar seu voo, deparou-se com uma chuvinha continuada. Molhadas as asas, estas se petrificaram, congelando-se, fazendo o pardalzinho despencar das alturas e cair no interior de uma vacaria de pequeno porte.

Quando já se imaginava próximo do seu final de vida, o pardalzinho recebeu uma descomunal carga excremental, oportunamente quentinha, de uma vaca que de costas para ele se encontrava.

Apesar de todo bostado, o pardalzinho logo percebeu que aquela massa fétida derretia rapidamente o gelo acumulado das suas asas, aquecendo-o providencialmente e tornando-o muito distanciado da morte prematura que se avizinhava.

Sentindo-se feliz, plenamente reaquecido, o pardalzinho começou a cantar alto e bom som, desapercebendo-se por completo de um enorme gato que o espreitava estrategicamente, atraído pelos seus trinados, e que, de uma só abocanhada, matou-o instantaneamente.

A história do pardalzinho reflete quatro portentosos ensinamentos. O primeiro proclama que nem sempre aquele que caga em você é seu inimigo. Um famoso ditado, topada só bota para frente, muito ouvido nas camadas populares, reflete, contraponto felicíssimo, a lição encerrada naquela advertência. O segundo ensinamento revela que nem sempre aquele que tira você de um monte de merda é seu amigo. Uma lição ainda muito desapercebida por inúmeros eleitores brasileiros, responsáveis por feudos oligárquicos conservadores, perpetuados pela gratidão eterna dos beneficiados que continuam vítimas. O terceiro ensinamento é oportuno para muitos: desde que você se sinta quente e confortável, conserve o bico calado, mesmo que situado num monte de merda. Reclamar muito, por tudo e todos, quando não se pode dar um passo seguro, é o mesmo que cutucar leão faminto e solto com uma vara bem curtinha. Finalmente, o quarto ensinamento da parábola do pardalzinho é a chave de ouro dos anteriores: quem está na merda não canta. Traduzindo: deve-se procurar a melhor das alternativas, jamais se distanciando de uma consistente simancolidade, capacidade de se perceber imaturo, incompleto ou muito inconveniente.

Busquemos sempre ficar distantes de uma mentalidade pardalzínica!!!

PS. Neste domingo, Dia das Mães! Sempre com imensas saudades da minha mãe Maria Luiza, já eternizada, reverencio todas as mães dos quatro cantos do mundo, de modo especial as desassistidas, que necessitam de ampla solidariedade e apoio. Que a Mãe de todos nós, Nossa Senhora, tenha todas as mães, encarnadas e desencarnadas, sob o seu manto de muita Luz Divina!

2 pensou em “REENCONTRANDO JSC

  1. Historieta edificante por conter ensinamentos preciosos. Conheço-a desde os tempos em tinha cabelos pretos, só que com o terceiro ensinamento mais conciso e direto: “Quem está na merda não pia.”

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