QUEM TEM MEDO DO BITCOIN?

Ultimamente, quase todo escândalo na TV tem alguma menção a um tal “bitcoin”, que é sempre pronunciado com aquela entonação que indica ser alguma coisa “do mal”. Mas você sabe o que é um bitcoin? Para entender, primeiro é preciso entender bem o que é dinheiro.

Todo mundo já escutou que a economia nasceu com a troca (ou escambo), e que o dinheiro surgiu como um intermediário para facilitar: Se você cria galinhas e quer um iPhone, não precisa procurar alguém que aceite trocar um iPhone por galinhas; você vende as galinhas para uma pessoa, recebe dinheiro, e compra o iPhone de outra com este dinheiro. Por isso, dinheiro também é chamado pelos economistas de meio de troca ou meio de pagamento.

O conceito fundamental da moeda é a confiança coletiva. Ao vender suas galinhas, você recebe uns papéis coloridos com números impressos nele. Você só aceita fechar o negócio porque acredita que alguém vai topar entregar um iPhone em troca destes mesmos papéis coloridos. Ou seja, não adianta apenas você acreditar que os papéis tem valor: você precisa acreditar que os outros também vão acreditar.

Desde a invenção do dinheiro, a sua produção tem sido monopólio dos governos, embora sempre tenham existido outros objetos ou papéis que, na prática, funcionam como dinheiro. Vamos imaginar que você é uma pessoa muito conhecida e respeitada em sua cidade: você pode ir à loja e pedir um iPhone, deixando em troca um papel escrito “Vale trezentas galinhas. Assinado, fulano”. Se o dono da loja aceitar, é porque ele acredita que este papel será aceito por outras pessoas; talvez ele use o papel para pagar seu funcionário, que usará o papel para pagar o aluguel do apartamento dele, e assim por diante. Talvez passe muito tempo até que alguém traga o papel até você e diga “quero minhas trezentas galinhas”. Talvez o papel não volte nunca, e permaneça circulando como se fosse dinheiro, uma nota no valor de “trezentas galinhas”.

Claro que não é prático fazer negócios com base no valor de uma galinha; é melhor usar algo mais sólido, estável e duradouro. Por isso, a referência de valor mais popular sempre foi o ouro. Ouro é difícil de falsificar, é resistente, pode ser guardado por longos períodos, é fácil de dividir, não estraga se molhar ou cair no chão. Durante muito tempo, o valor do dinheiro de cada país era definido por uma quantidade de ouro. Hoje não é mais.

Os governos costumam impôr leis sobre a circulação de dinheiro. Nos países mais autoritários, é proibido usar dinheiro estrangeiro. Por outro lado, quase sempre, a moeda do próprio país recebe o status de “curso forçado”, o que, em termos leigos, significa que todos no país são obrigados a acreditar em seu valor. Uma loja de iPhones no Brasil pode aceitar galinhas ou vale-galinhas se quiser, mas é obrigada a aceitar notas de real. Ao substituir a confiança pela obrigação, o governo dá para si mesmo o poder de criar dinheiro: basta imprimir mais “papelzinho colorido”, que todos serão obrigados a aceitar. Usado em excesso, este poder causa uma desgraça chamada hiperinflação: é quando o governo não consegue mais forçar as pessoas a acreditar que os papéis coloridos feitos pelo governo valem alguma coisa. Aconteceu no Império Romano no século III, na Alemanha em 1923, no Brasil em 1990, e está acontecendo hoje na Venezuela.

Um fenômeno moderno é a digitalização do dinheiro: ao invés de usar papéis ou moedas, usamos cartões e senhas para efetuar transferências virtuais. Nenhuma movimentação física acontece: apenas dados armazenados em computadores são alterados, dizendo que o saldo da conta X diminuiu e o da conta Y aumentou.

Bem, e o bitcoin, o que é? É uma moeda virtual, que existe apenas em computadores, como a maioria do dinheiro de hoje, com a diferença de não ser regulamentada por governo nenhum. De certa forma, é um retorno ao passado: uma moeda que se baseia na confiança voluntária, e não no poder de um governo em obrigar as pessoas a acreditar no valor da moeda. Seu valor é determinado pela oferta e procura, exatamente como qualquer moeda ou mercadoria, mas de novo com a diferença de que nenhum governo tem o poder de manipular ou forçar seu valor.

Em termos leigos, cada bitcoin é um número. Existe um algoritmo pré-definido que determina quais números são válidos para representar um bitcoin. Qualquer pessoa pode obter um bitcoin “de graça”, descobrindo um número que satisfaça o algoritmo. Naturalmente, os números envolvidos são enormes e exigem computadores potentes para efetuar os cálculos. Além disso, existe uma quantidade pré-definida de bitcoins possíveis: 21 milhões. Naturalmente, à medida em que os números vão sendo “descobertos”, mais difícil fica descobrir os últimos. Pode-se fazer uma analogia com o ouro: qualquer pessoa pode obter ouro se garimpá-lo. Claro que não é exatamente de graça, exige esforço – e em alguns países o governo declara que ele é o verdadeiro dono, não quem o garimpou. Mais ainda, a medida que os garimpos se esgotam, encontrar ouro fica mais difícil, e a quantidade total também é limitada – embora, no caso do ouro, seja muito difícil saber exatamente quanto ouro existe no planeta para ser garimpado.

Se você quer ser dono de um bitcoin sem ter o trabalho de “garimpá-lo” você pode simplesmente comprar, com reais, dólares, euros, galinhas ou qualquer coisa que o dono aceite em troca. O negócio será feito eletronicamente através de um conjunto de bytes que formam um “bloco”. Este bloco é armazenado através da internet como parte de uma sequência de códigos que fica espalhada por todos os “servidores” da rede bitcoin. Em termos práticos, é impossível falsificar um bloco, porque seria necessário “hackear” todos os computadores da rede no mesmo instante. Se você ficou apavorado em pensar que algo de valor existe apenas como bytes gravados em computadores, lembre-se que a maior parte do que costumamos chamar de “dinheiro de verdade” é exatamente a mesma coisa: bytes gravados em computadores.

Quem garante que um bitcoin é seu é um outro número, que para simplificar podemos chamar de “a sua senha”. Exatamente como no dinheiro do governo, a segurança dos seus bitcoins depende da segurança de sua senha: assim como o banco não pode fazer nada se você deixar que descubram sua senha, a rede bitcoin também não. Por outro lado, por espantoso que possa parecer, a rede bitcoin é infinitamente mais segura que um banco tradicional: como acabei de contar, é matematicamente impossível fraudar a sequência de blocos em que se baseia o bitcoin. Já contas em bancos são roubadas o tempo todo, com clonagem de cartões, documentos falsos, etc. Em termos práticos, o único jeito de perder bitcoins é não tomando os devidos cuidados com a senha, que no bitcoin não é um número de quatro ou seis dígitos como no banco, mas 77 dígitos numéricos ou 64 digitos hexadecimais.

Mas então, por que falam o tempo todo que o bitcoin é tão ruim? Provavelmente porque a imprensa fala o que o governo manda, e governos odeiam o bitcoin por dois motivos: ele tira do governo o poder de criar dinheiro, e o poder de cobrar impostos. Para explicar melhor: como o bitcoin pode ser usado por qualquer um, e é muito difícil de proibir, o governo perde o poder de impor a “sua” moeda como a única. Se o governo tenta resolver seus problemas “girando a maquininha”, como se diz, as pessoas poderão abandonar esta moeda desvalorizada com muito mais facilidade do que se precisassem recorrer a dinheiro estrangeiro. O bitcoin também permite que, ao não usar o sistema bancário tradicional, as pessoas fujam da fiscalização do governo que as obriga a pagar impostos. (se fugir dos impostos é uma coisa boa ou não, deixo para cada um ter sua opinião)

Bitcoin é usado para atividades criminosas? Sim, tanto quanto notas de dólar ou barras de ouro. Na minha opinião pessoal, proibir o bitcoin para evitar crimes é meio como proibir sofás para evitar o adultério. Além disso, muito daquilo que o governo chama, através da imprensa, de “atividades criminosas” é simplesmente gente fazendo alguma coisa sem pagar ao governo a parte que ele gostaria. Lembra um outro caso interessante: o horror com que governos e imprensa falam de “paraísos fiscais”. Um paraíso não costuma ser algo bom? Estaria o governo admitindo que deseja que as pessoas morem em “infernos fiscais” ?

Bem, tentei explicar o que o tal do bitcoin é (e esteja à vontade para perguntar, tentarei responder o melhor que puder). Gostar ou não, é problema seu. Mas, por favor, não esqueça que, como disse Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar”. Se você acha que pode confiar cegamente em algo baseado apenas nas promessas de um governo, você pode estar cometendo o mesmo erro daqueles que você acusa de inocentes ou irresponsáveis.

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