MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

Posso perguntar a vossuncê, que lê minhas patacoadas, se já passou por momentos psicológicos existenciais sobre sua própria personalidade? Como, por exemplo, “quem sou?”, “o que quero da vida?”, “qual o caminho que devo seguir para ser feliz”?, e outras questões hiperbólicas cujas respostas parabólicas nunca são totalmente convincentes ou não servem para nada?

Pois eu já.

Explico.

Em 1965, cursando o terceiro ano de Engenharia, dividia com dois outros colegas o apartamento E-611 no CRUSP – Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo.

Uma de minhas mais agradáveis companhias, nas horas vagas do final de tarde, era uma japinha estudante de Geografia, Toshiko H., conhecida por “Chiquinha”. Como até hoje as coisas de geografia me chamam a atenção, e as coisas matemáticas atraiam a atenção da Chiquinha, essas características faziam com que tivéssemos mútuo interesse em nossas conversas – e, porque não negar, Chiquinha era uma menina muito simpática e atraente. Mas, além disso, nada especialmente sacudido acontecia em nossos papos vespertinos.

Em um domingo de manhã no começo do mês de Abril, totalmente esbodegado da sobrecarga de estudo e trabalhos escolares, estava eu largado sobre a cama, recuperando energia para ver se conseguia levantar-me e encarar mais um dia, quando um rangido da porta avisou que alguém estava entrando, já que sabidamente meu cérebro havia sinalizado que meus dois colegas estavam fora.

Bem, pensei, deve ser um dois colegas entrando.

Silêncio. Aliás, silêncio incomodante, porque, mesmo deitado de bruços, já sentia a presença de alguém observante que me observava observadamente.

Devagarinho virei-me, abri os olhos e deparei-me com dois japas: um, normal, era parecido com a Chiquinha, o que me fez suspeitar que era seu irmão. E era.

O outro, cabelo tipo rabinho de cavalo, com uma cara de membro da Yakuza (ou Gokudō, como também é conhecida), a máfia japonesa. Enorme, parecia que havia recém conquistado a medalha de ouro de sumô na Olimpíada de Mundurucú.

O primeiro adiantou-se e me perguntou:

– Você, por acaso, é o Magnovaldo?

Tal qual uma zebra acossada por dois leões e ante a severidade com que me foi formulada a questão, respondi:

– Não sei ainda! Tanto posso ser como também posso não ser!

– É sim, não venha com esse papo. Quero deixar claro que nossa família nunca vai aprovar nenhum eventual namoro entre você, um “Gaijin”, e minha irmã Toshiko. E, se insistir, vai levar uns catiripapos do nosso primo aqui – e apontou para o brutamontes lutador de sumô que ocupava ameaçadoramente o meu horizonte visual.

O grandalhão não disse nada. Franziu a testa, deu uma inclinada na minha direção com os braços cruzados, estufou a barriga, em seguida sugou tal quantidade de ar que não sobrou oxigênio no quarto, e afastou-se, junto com seu primo, andando de costas até a porta sem deixar de me encarar, por onde desapareceu.

Interessante é que, a partir daquele dia, Chiquinha não mais me dirigiu nenhuma palavra. Quando me via, desviava o olhar, baixava a cabeça e seguia seu caminho sem olhar para mim.

Nada como um E.A.V.C. – “Entusiasmante Acochambrativo Via Colateral” para reorganizar a auto-estima e as amizades.

3 pensou em “QUEM SOU EU?

  1. Ih…. Magnovaldo…. é nessas horas que omais convicto ateu reza ao Padre Eterno, encomendando sua alma. Sei como é dá um “arrupio” no espinhaço que chega até o ossinho do mucumbu….Ainda bem que a atmosfera tinha bastante oxigênio…. só essa fungada do japa já faria você desmaiar por asfixia.

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