CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

O mundo inteiro se manifestou contra as queimadas. Grita, protesta, critica, desaprova, mete o pau. Até certo ponto, tem fundamentos. Infelizmente, no Brasil, ainda se utiliza uma das mais antigas técnicas para executar uma rápida e barata tarefa para o plantio. Como faltou maior vigilância, as reclamações foram constantes. Corriqueiras.

Até certo ponto, a censura foi válida. A fumaceira libera dióxido de carbono, um elemento causado do aquecimento global. Mas, antes de detonarem cacetadas, os críticos deveriam apresentar melhor conhecimento de causa para ajudar o país a combater o grave problema. Causador de muitos prejuízos. Sem criar outras celeumas.

Como a Amazônia encontra-se em plena temporada de seca, que começa em junho e se estende até outubro, o fogo aparece de repente. O fogaréu aproveita o tempo seco, o vento forte e o calor abundante para se expandir pelo ambiente, espalhar centelhas na vegetação, queimar habitats naturais, matar muitas espécies vivas, causar erosão, poluir nascentes.

De fato, as queimadas em 2019 aumentaram excessivamente no Brasil, aponta o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), baseado nos dados fornecidos pelos oito satélites que permanecem de olho vivo sobre as matas brasileiras.

Somente em agosto deste ano foram identificados 22 pontos de queimadas de reservas florestais. É demais. Até os estrangeiros abriram o berreiro contra a queimação generalizada. Alemanha e Noruega que ajudam com recursos no Fundo da Amazônia, foram os países que mais protestaram. Manifestaram-se com contundência.

Como as queimadas são proibidas pela legislação do país, quem toca fogo nas matas, sem autorização, comete crime. Talvez nem imagine as consequências provocadas pelo fogo assassino que mata animais, queima a vegetação, devasta e empobrece o solo, impede que a água penetre nas profundezas da terra para molhar o chão. Umedecer a terra.

É o homem, na sua santa ignorância, cometendo agressão contra a própria humanidade. Como desconhece as consequências das queimadas, obriga milhares de pessoas a se internar em hospitais reclamando de problemas respiratórios. Afinal, a fumaça invade o ar e como se propaga fácil, penetra em outras regiões ao cruzar fronteiras.

Além de ser uma prática agrícola, até no cultivo da cana-de-açúcar é comum botar fogo no canavial para limpar o terreno, simplificar e acelerar o corte da cana.

Tudo começa com o desmatamento. Após a derrubada das árvores, na ânsia de limpar imediatamente, sem gastar muito dinheiro, a área para roçar ou explorar a pecuária, o homem atiça fogo pra tudo quanto é lado.

Pouco importa se o desmatamento e as queimadas aconteçam na Mata Atlântica, na Caatinga, no Cerrado, na Mata Araucária, no Pantanal ou na Floresta Amazônica, uma das áreas mais atingidas no momento.

Por ser imensa, coberta de florestas e de recursos naturais, a Floresta Amazônica é a preferida no processo de desmatamento, sob o pretexto de expandir a fronteira agrícola para dar vez ao crescimento da agropecuária. Embora haja registro de que a Mata Atlântica também sofre enorme devastação.

Segundo estimativas, é possível o Brasil perder anualmente 21 mil quilômetros quadrados de florestas, em virtude da precariedade no controle, no fraco monitoramento e, sobretudo, no frouxo sistema de vigilância.

Os latifundiários tocam fogo na mata visando limpar a área, renovar a vegetação e duplicar a pastagem para o gado. Acontece que a continuidade das queimadas produz consequências desagradáveis. Afeta a atmosfera local, favorece as mudanças climáticas. Contribui efetivamente para aumentar a poluição, a erosão do solo e o desequilíbrio do ecossistema.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) é taxativo. Os municípios onde aconteceram mais focos de incêndios foram justamente os que mais sofreram desmatamento.

Ao ceder espaços para o agronegócio e a criação de gado, as chamas facilmente se propagam, consome a mata. A fumaça, levada pelo vento, sobe ao céu, e levada pelo vento, vai longe. Causando enormes prejuízos por onde passar. Notadamente para a saúde pública.

Os estados mais atingidos pelas queimadas, muitas criminosas, são Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima. No fim das contas, o Acre é a maior vítima do fogaréu.

Acontece que o problema não é novidade. Por causa de preguiça, desconhecimento e esperteza, a prática de queimar matas se repete desde o tempo colonial com a mesma alegação. O pó das árvores queimadas serve para fertilizar o solo. Justamente por ser um adubo natural. Fato que é contestado por ambientalistas e técnicos agrícolas.

Uma coisa é certa. O costume das queimadas bateu recorde nos anos de 1995, 1997, 2002 e 2004, quando os pecuaristas, estimulados pela incerteza econômica, danaram-se a desmatar e provocar queimadas.

A finalidade é aumentar o lucro por causa da elevação do preço da madeira e das commodities. Além de aproveitar o carisma da terra desmatada, a fim de dobrar os locais de pastagens.

Faz vinte anos, A Embrapa-Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária acompanha o efeito das queimadas nas áreas rurais e na vegetação nativa.

No Cerrado é normal desmatar e queimar os troncos de árvores para produzir carvão vegetal. Existem vários tipos de queimadas. As criminosas são provocadas por vandalismo e disputa de posse do terreno. Tem as feitas por negligência e também por falta de chuva. Neste caso o solo pobre de umidade é chegado a queimação.

Ora, qualquer fagulha que caia na vegetação ressecada, pode resultar em queimada. Todavia, na medida em que a tecnologia possa substituir o fogo na preparação do terreno, a coisa muda de figura.

Em 2016, era nítida a falta de programas de conservação de florestas. A questão ambiental foi esquecida para ceder a vez a projetos de infraestrutura. Construção de estradas e das represas no rio Madeira, Jirau e Belo Monte.

Como a ideologia era outra, as queimadas não eram tão intensamente criticadas.

Agora, a imprensa internacional encontrou pano pras mangas para estampar criativas e chamativas manchetes. Descendo a lenha nas costas do Brasil. Sem especificar que qualquer fagulha que caia na vegetação ressecada e com o vento

Na Alemanha, a mídia repercutiu com o título. “Incêndios destroem o pulmão verde do Brasil”.

Nos Estados Unidos, o The New York Times estampou “Brasil enfrenta críticas mundiais pelos incêndios na Amazônia”.

Ainda bem que o Brasil não se calou. Nem se curvou diante das pressões internacionais. No momento certo, rebateu com categoria e sensibilidade as críticas disparadas por boa parte do estrangeiro. O governo brasileiro não esperou tempo bom para mostrar que o Brasil não é submisso aos interesses mundiais.

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