MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Em 2012, em seu discurso anual no Congresso, o presidente Obama declarou que “mais de mil empregos na indústria de pneus foram salvos graças à ação do governo para limitar a importação de pneus da China”. Não foram milhões, ou centenas de milhares. Ele disse apenas “milhares”. Segundo um estudo do Peterson Institute for International Economics, o número exato de empregos “salvos” foi de 1200. O estudo também concluiu que graças à ação do governo, os cidadãos dos EUA gastaram naquele ano 1,1 bilhões de dólares a mais para comprar os pneus, o que significa que cada emprego “salvo” custou 926 mil dólares por ano.

Um exemplo mais completo: até o final dos anos 70, praticamente todos os “chips” de memória para computadores eram fabricados nos EUA. No início dos anos 80, os fabricantes japoneses começaram a ganhar mercado. Em 1985, os grandes fabricantes norte-americanos procuraram o governo com as queixas de sempre: o governo deveria “proteger a indústria local”. Os fabricantes estrangeiros estariam adotando “práticas desleais” e supostamente vendendo seus chips por preços abaixo do custo de produção. Estes argumentos são como música para os ouvidos dos políticos. O governo Reagan negociou com o Japão um acordo para “regular” o mercado através de cotas de importação, preços mínimos e tarifas especiais. O resultado? Uma memória 256K que custava 2,50 em maio de 1987 passou a custar 12,50 em junho do ano seguinte, quando as restrições entraram em vigor. Vários fabricantes de computadores enfrentaram crises na produção por falta de componentes. Os preços subiram, e os consumidores foram prejudicados.

O que havia de verdade nas alegações das indústrias norte-americanas? Nada, apenas a choradeira de sempre. Os fabricantes japoneses estavam ganhando mercado porque seu produto era melhor e mais barato. Um estudo da Hewlett-Packard (que é americana) mostrou que em 1980 a taxa média de defeitos dos chips fabricados nos EUA era de 0,78 ppm, contra 0,16 dos fabricantes japoneses. E as fábricas japonesas vendiam mais barato porque sua produção era mais eficiente. Após dois anos de crise e muito prejuízo para o consumidor, o mercado voltou a se estabilizar, e a bagunça que o governo inventou não ajudou em nada a indústria local: até o final da década, todas as grandes indústrias eletrônicas dos EUA desistiram de fabricar chips de memória RAM, incapazes de concorrer com as indústrias japonesas. Estas, por sua vez, também viram sua alegria durar pouco: no início do século 21, dois terços do mercado mundial já estava nas mãos de fábricas sul-coreanas.

Claro que isso não é novidade. Na verdade, governos meterem os pés pelas mãos ao tentar “corrigir o mercado” é a regra do que a exceção. Na Europa já é tradição os ricos mudarem de país conforme os diversos países mudam seus impostos, sempre com uma míope visão de curto prazo. Nos anos 60, por exemplo, a Inglaterra aumentou a alíquota máxima do imposto de renda para 95%. Todos os milionários, incluíndo celebridades da música e do cinema, saíram de lá. A Inglaterra desistiu, mas o exemplo não serviu para a França, que recentemente adotou a mesma medida populista de “cobrar mais dos ricos”. Serviu para gerar a publicidade negativa de ver Gerard Depardieu adotar a nacionalidade russa.

Aqui no Brasil, histórias como essa não são ensinadas nas escolas. Pelo contrário, histórias sobre a “maldade” dos empresários e a “sabedoria” dos governos ao regular o mercado são considerados dogmas que não admitem questionamento, e devem ser repetidos com fé e crença inabalável.

Por exemplo: temos, faz muito tempo, um acordo comercial com o México para importação e exportação de veículos. O mercado entre os dois países deveria ser totalmente aberto, mas sempre esteve sujeito a cotas “temporárias”. Recentemente, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) pediu ao governo “a prorrogação, por mais três anos, do sistema de cotas, por que a competitividade da indústria brasileira é muito inferior à do parceiro, que tem carga tributária interna menor, infraestrutura mais eficiente e elevada escala, por exportar a maior parte de sua produção”. Em outras palavras: somos incompetentes para produzir; as pessoas devem ser proibidas de comprar automóveis fabricados por gente mais competente que nós e obrigadas a pagar mais caro pelos automóveis que nós, os incompetentes, produzimos.

É um círculo vicioso: se a indústria local tem comprador garantido para seu produto mais caro, porque ela vai se esforçar para ser eficiente? Na verdade, ela vai tentar ser cada vez menos eficiente, para ter mais argumentos para pedir ainda mais proteção ao governo. Cada vez que o governo obriga as pessoas a pagar mais caro do que seria necessário por algo, ele prejudica todas as pessoas e todas as outras empresas, já que quem gasta mais em uma coisa precisa gastar menos em outra.

Para quem gosta de analisar a economia a partir de números, existem vários índices e parâmetros para comparar as opções que diferentes países fazem. Comparando diferentes parâmetros (em economês, “correlacionando”), é possível dizer quais as escolhas boas e ruins. Existe uma correlação quase impossível de refutar: países ricos tem a economia aberta, sem restrições à importação; países pobres são o contrário, o governo impõe um sem-fim de obstáculos, tarifas, normas e proibições ao comércio exterior.

O Brasil, obviamente, está no segundo grupo. Os otimistas podem dizer que estamos melhorando: no ranking 2020 da Heritage Foundation, subimos para a 144ª posição e ultrapassamos o Haiti.

19 pensou em “PROTECIONISMO

  1. Caro Marcelo, v. está certo em sua análise. O índice de abertura econômica é um dos meios de comparação entre países para analisar sua liberdade econômica em relação a outros.

    Mas não é só isso que irá tornar o Brasil um país competitivo. Tem que se levar em conta o Estado de Direito; com o direito de propriedade, eficácia judicial e integridade do governo. Tem também o tamanho do Governo, com carga tributária, gastos públicos e saúde fiscal. Por último e não menos importante a Eficiência Regulatória, com as liberdades nos negócios, trabalhista e monetária.

    Ainda tem a eficiência do trabalhador, o que depende da educação, infra estrutura de transportes, energia, e outras.

    Liberar importações antes de resolver estas outras questões seria um desastre para a economia. A reforma do estado é questão prioritária hoje e é onde o governo coloca a prioridade na economia.

    • Não tem vaga de colunista aqui no JBF para o João Francisco, o Arthur Tavares e o Joaquimfrancisco? Esses três são excelentes comentaristas. Estou muito orgulhosa de ser uma fubânica e poder ler todos os dias textos maravilhosos e comentários brilhantes. O Berto vai acabar perdendo esses caras para a grande mídia

      • Uau …. !!!

        Como diz o mestre ……. ” …..Fiquei ancho que só a p……. !!!!!!! ”

        Obrigado Belarmina …….. mas, e sempre existe um mas, acho que é bem mais fácil fazer comentários sobre um texto pronto ……

        Difícil mesmo é ter a criatividade, articulação, bons conhecimentos e boa escrita para tornar um texto, enxuto, instrutivo, de fácil leitura e de tornar óbvio seu entendimento.

        Isso sómente nossos grandes mestres fubânicos, contadores de causos e histórias conseguem com maestria…. ……..

        Quem sabe faz, quem não sabe bate palmas ……….. ou dá pitacos….

        • . Sancho inicia, nesta exato momento (13:07) greve de fome até os acima citados virare colunisas fubânicos.
          Porra, João Francisco, o Arthur Tavares e o Joaquimfrancisco,
          vocês não vão me deixar morrer de fome… ou vão!? Aguardo vossas colunas. minha barriga já está roncando…

          • Sancho…!!!

            Não faça isso pelo amor de Deus ….!!!

            Não quero ser responsável por uma morte desnecessária, com uma perda INCALCULAVEL pra essa gazeta…..

            A lado bom, se é que podemos considerar assim, é que o mestre Berto, apesar da tristeza inenarravel, vai economizar uma fortuna em salários e bonus futuros ao ex colunista……

            Bola pra frente que atras vem gente……

            Rsrsrsrsrsrs…

      • Cara Belarmina,

        Agradeço demais a lembrança de meu nome para ter uma coluna nesta Gazeta Escrota.

        Para ser justo com nosso Editor Berto, tal oferta já foi feita e eu declinei, pois julgo ter mais utilidade participando dos debates nas áreas de comentários, que pode ter tanta importância quanto o espaço das Colunas.

        Peço à Sra. que não se sinta acanhada e escreva mais vezes neste espaço, que é o mais democrático e de alto nível de toda a internet.

        Um grande abraço

        • PRESTENÇÃO, JOÃO. Sancho inicia, nesta exato momento (13:07) greve de fome até os acima citados virare colunisas fubânicos.
          Porra, João Francisco, o Arthur Tavares e o Joaquimfrancisco,
          vocês não vão me deixar morrer de fome… ou vão!? Aguardo vossas colunas. minha barriga já está roncando…

          • Ahhhh……

            Chantagem é crime, emocional então, a sentença será de prisão…….. de ventre….

            Se cuida Sancho…..

          • João Francisco, Arthur Tavares e Joaquimfrancisco, estou com o Sancho e a Belarmina e não abro.

            Já iniciei minha grave de fome.

            Enquanto vocês não assinarem uma coluna eu me mantenho em abstinência alimentar, só tomando suco.

            Eu sou um simples corretor de imóvel. Escrevia comentários ao JBF sobre putaria e um dia, para minha surpresa, Luiz Berto me convida para ser colunista!!!

            Prontamente eu responto:

            – Mas eu não sei escrever texto!!

            E ele insiste:

            – Me mande o título de sua coluna e o dia que vai publicá-la.

            E eu pensei: Vou ou não vou, Hamlet?

            Fui e aqui estou há mais de três anos!

            Luiz Berto é um gênio que gosta do que faz e sua amente predileta é a Gazeta Escrota.

            • Tá ficando feia a coisa pra vocês João Francisco, Arthur Tavares e Joaquimfrancisco. entrou na parada gente graúda, fubânico de quatro costados, o nosso Cícero Tavares, que escreve: “estou com o Sancho e a Belarmina e não abro”.

              Cês vão aguentar a pressão?

        • Caros Sancho, Belarmina e Cícero.

          Aqui no JBF tem espaço para todos, cada qual pode dar sua contribuição, não importa se seja no espaço das colunas ou no de comentários. Ambos são nobres.

          Eu prefiro ficar aqui nos comentários e entro em quase todas as colunas para dar meus pitacos.

          Um bom final de semana para todos e eu estarei aqui, sem dúvidas.

      • Bela Mina que nome grande ocê tem!!!! Concordo em gênero, número e grau com vosmicê. Sancho inicia, nesta exato momento (13:07) greve de fome até os acima citados virare colunisas fubânicos.
        Porra, João Francisco, o Arthur Tavares e o Joaquimfrancisco,
        vocês não vão me deixar morrer de fome… ou vão!? Aguardo vossas colunas. minha barriga já está roncando…

  2. João, você está certo ao dizer que falta muita coisa para resolver. Mas não esqueça que são justamente esses os argumentos para pedir proteção “só mais um pouquinho”. A Anfavea, que citei no texto, pediu “só mais três anos”. Só que já vão trinta anos que o Collor “desproibiu” a importação, mas concorrência de verdade nunca houve: sempre precisa esperar mais um pouquinho, mais dois anos, mais três anos…

    Se fizer a conta que os grigos do Peterson Institute fizeram, quanto os brasileiros pagam para cada emprego “salvo” no setor automobilistico? Três milhões de carros por ano vezes dez mil reais (chutando) dá trinta bilhões por ano. Dá para trinta mil funcionários passar a vida em uma cobertura à beira-mar na praia que eles preferirem, ganhando um milhão por ano; e não sei se todas as montadoras juntas chegam a trinta mil empregos.

    • Continuo falando. Primeiro diminui o tamanho do Estado, reduz e simplifica os tributos, resolve a insegurança jurídica em que estamos, diminui o custo Brasil, melhora a produtividade de nossa MDO; para depois jogar nossas indústrias para competir de igual para igual com outros países democráticos e desenvolvidos.

      Com a China ou outros países do tipo jamais seremos competitivos, pois neles se trabalha 12 horas por dia de segunda a sábado, sem 13º férias de 2 semanas ao ano, sem sindicatos ou qualquer direito a mais.

      a nossa indústria deve competir de igual par igual.

      • Se para cada problema que podemos resolver temos que esperar resolver os outros, não resolvemos problema nenhum. Diminuir o tamanho e a gula por impostos de nosso governo não vai acontecer tão cedo.

        Enquanto isso, todo mundo tem que pagar mais caro para sustentar os empresários amigos do governo e os funcionários improdutivos? Aí é que não acontece nada, porque esses empresários e funcionários “protegidos” são justamente os que sustentam o estado enorme.

        Quanto à China, não acho que a competitividade dependa só de jornada de trabalho e férias, mas supondo que seja: então nossos funcionários querem trabalhar menos e nós somos obrigados a pagar? E se decidirmos que aqui se deve trabalhar só três horas por dia com cinco meses de férias por ano, tudo bem? Basta “proteger o mercado”?

        Competir de igual para igual é oferecer o melhor produto pelo melhor preço, não repassar eventuais desvantagens para o consumidor.

  3. Perfeito…!!!

    Para quem nao se lembra há uma coluna do próprio Marcelo, dando pitacos, sobre protecionismo, acho que em meados de 2019, vividos com sua experiência pessoal, na área da informática, e os resultados desastrosos para o Brasil…..

    Relembrando este fato acho que fica claro os beneficios da extinção da SEI, no governo Collor, e a abertura do País aos produtos eletrônicos importados….

    De todas as mentiras, merdas, ruindade e incompetência da era Collor (menos de 2 anos), pelo menos sobrou este lado bom…..

    Parabens Marcelo pelas duas colunas……

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