DEU NO JORNAL

Leonardo Coutinho

Em novembro de 2015, dois familiares do ditador venezuelano Nicolás Maduro foram presos em flagrante no Haiti. Eles estavam negociando com um agente encoberto da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA, conforme a sigla em inglês) o envio de 800 quilos de cocaína para os Estados Unidos. Várias outras evidências já confirmavam que não existia uma fronteira entre o regime venezuelano e o narcotráfico, mas a prisão de um sobrinho do presidente, que era tratado por ele como filho, levou para dentro o seio da família a vinculação com o tráfico de cocaína.

Nesta semana, Nicolás Maduro foi formalmente denunciado pela Justiça dos Estados Unidos. O procurador-geral William Barr leu a lista de crimes pelos quais o venezuelano é acusado: narcotráfico, terrorismo internacional e corrupção. Além de Maduro, foram denunciados outros quatorze chavistas, entre eles o ministro da Defesa, Vladimir Padrino; o presidente da Suprema Corte, Maikel Moreno; e o poderoso Diosdado Cabello, peça central no comando do tráfico de drogas na Venezuela.

Esta é a primeira vez, desde o final dos anos 1980, que os Estados Unidos acusam formalmente um presidente por narcotráfico. Antes de Maduro, apenas o panamenho Manuel Noriega, preso em dezembro de 1989.

Formalmente, para as autoridades dos Estados Unidos, Nicolás Maduro é um traficante. Aliás, um chefe do tráfico que o colombiano Pablo Escobar jamais foi capaz de ser. O ditador venezuelano herdou em 2013, com a morte de Hugo Chávez, um modelo de negócio de fazer inveja.

Na Colômbia, os poderosos carteis de Cali e Medellín torravam milhões de dólares corrompendo autoridades, desde os policiais em portas de delegacia até as mais altas autoridades do país. Em 1994, um ano depois da morte de Escobar, o narcotráfico conseguiu eleger um presidente, Ernesto Samper. Mesmo com o presidente preferido dos criminosos tenha chegado ao poder, o tráfico sempre concorreu com as instituições colombianas.

O clássico narcoestado. Situação em que o poder formal é penetrado pelo crime e com ele cria uma relação de mutualismo na qual políticos criminosos e criminosos políticos interagem para o bem de seus negócios. Situação em que a corrupção e o crime funcionam no coração das instituições, mas nas trevas. Por serem absolutamente incompatíveis a normalidade institucional do país que ainda sobrevive.

Na Venezuela, Hugo Chávez foi além. Quando atendeu a um conselho de Fidel Castro, ele construiu as bases do que projetaria a Venezuela para além do que foi o narcoestado colombiano.

Chávez empregou as forças armadas na logística do tráfico de drogas. Abriu corredores, cedeu territórios, transformou o hangar presidencial em hub de distribuição de cocaína e viciou os poderes que constituem o Estado no dinheiro fácil e farto do narcotráfico. Diferentemente do que ocorre nos narcoestados, na Venezuela, o tráfico e Estado eram a mesma coisa. Jamais concorreram entre em si. Chávez fundou e Maduro herdou um “estado-narco”, conceito que vai além de um jogo de palavras. Define a criminalização máxima de regimes. Quando o Estado passa a assumir as vezes de um cartel de drogas.

Sob a orientação de Fidel Castro, Chávez fez isso sob a “justificativa moral”. A cocaína seria usada como arma contra o inimigo eterno, os Estados Unidos. Além disso, seria um ato de solidariedade para com as FARC, que na Colômbia caminhavam para uma derrota militar.

“Cocaína como arma”, como finalmente as autoridades americanas entenderam, não é uma novidade para os cubanos. Em 1983, Fidel Castro fechou um contrato com Pablo Escobar para enviar milhares de quilos de cocaína para os Estados Unidos. O ditador cubano recebia 1 milhão de dólares por dia para oferecer Cuba como base operacional. Armazenava a droga que chegava da Colômbia em pequenos aviões e oferecia a infraestrutura militar, como radares para monitorar a presença da Guarda Costeira americana.

Como fundador do primeiro “estado-narco” do Ocidente, Fidel Castro foi o padrinho da destruição institucional da Venezuela.

Maduro, seus generais e auxiliares mais próximos finalmente passam a ser vistos não mais como autoridades políticas, mas chefes e membros de uma organização de crime transnacional em escala estatal. Capaz de distribuir toneladas de cocaína pelo mundo, lavar dinheiro por meio de empresas públicas como a petroleira PDVSA, usar veículos e aviões militares para o transporte de drogas em escala industrial e, como se não bastasse gozando da legitimidade de um Estado formal com direito a assento e influência em todos os organismos multilaterais internacionais.

Para fins ilustrativos, seria como pensar Marcola do PCC fazendo discurso na Assembleia-Geral da ONU e indicando alguns de seus parças para fazer parte do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Surreal? Não. Para o “estado-narco” de Nicolas Maduro, não.

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