GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Como todos sabem, eu sou uma figura estranha, um tipo de Rasputin moderno que, por poderes mágicos, extra-sensoriais, fui capaz de perceber, há anos (e denunciar isso constantemente em minhas conversas, colunas e debates), que Lula é inocente das acusações de corrupção que o levaram a processos judiciais e a condenações.

Juntei uns pontinhos para isso: Lula nunca foi, em suas atividades profissionais e sindicais, bem como políticas, como presidente do Partido dos Trabalhadores e como deputado federal, envolvido em atividades ilícitas.

Lembro, também, que as acusações contra Lula surgiram como a cereja no bolo das delações premiadas.

Percebi, logo, que uma série de circunstâncias as favoreceram, sendo uma delas, talvez, algum deslize ético de sua parte, de fazer pouco caso de favorecimentos a sua pessoa que se articulavam a sua volta – políticos importantes em geral são alvo desse tipo de puxa-saquismo.

Tais circunstâncias se juntavam ao interesse do mesmo tipo que levou ao “impeachment” de Dilma Roussef (lembram do “conjunto da obra” que serviu a sua destituição, não é mesmo?) e vinham a calhar para afastar o empecilho de que falou Drummond, a pedra no meio do caminho.

Por fim, li tudo o que pude a respeito do seu julgamento, desde as suspeitas, delações, de investigações, “powers points”, às denúncias, testemunhos, depoimentos; e me pude surpreender com a carga extensa que foi preciso armar: não bastavam o apartamento e o sítio, era preciso pensar em apropriação de bens do Planalto; e arranjar um depósito irregular de parte desses bens valiosos em banco, pago por alguém como forma de propina; e um terreno; e um outro apartamento; e quem sabe atravessar uma obstrução à justiça e o que mais possível fosse.

Por mais que se procurasse, porém, faltava sempre alguma coisa, como, por exemplo, a posse por Lula de uma soma de dinheiro de pelo menos uma centena de milhões de reais que compensasse sua corrupção, já que os que deveriam ser seus subordinados na prática dos crimes, os criminosos confessos, entraram na posse de propinas de centenas de milhões de reais, tanto que foram capazes de devolver essa grana e, é claro, devem ter reservado algum por aí, para quando saírem da cana beneficiados por sua própria indignidade.

Mas, mais do que o dinheiro, sempre faltaram nos processos as chamadas provas robustas, concretas, objetivas, de modo que os julgadores tiveram de se curvar a isso para sentenciar com base no livre convencimento do juiz em torno de circunstâncias indeterminadas, ou algo que o valha.

Assim como a fortuna fabulosa de Lula, as provas nunca surgiram; nem mesmo qualquer delator foi capaz de afirmar que lhe pagou propina por ato conhecido de corrupção, apenas se alegou que o dinheiro disso ou daquilo saiu de uma conta de propina do PT. Pronto, tudo resolvido, raciocínio fechado!

Pois, a certeza, vinda de meus dons mediúnicos, de que Lula é inocente e de que seu sentenciamento à prisão decorreu de um esforço de retirá-lo da jogada, esforço vindo de sentimentos, intenções e ações de cunho parcial e partidário, materializou-se de fatos mais além da aceitação de um ministério pelo juiz que sentenciou um caso e conduziu o outro às portas da sentença: o ministério é do governo declaradamente de direita, que promete eliminar a esquerda, e o juiz que afastou Lula da disputa presidencial abandonou a magistratura promissora para ser politico dentro desse governo de direita e com vistas a mair tarde assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Os fatos “mais além” vou me dispensar de referi-los: o juiz conduziu a condenação de Lula, é o que eles atestam.

Vendo, olhando, enxergando com olhos de águia lá ao longe o meu Brasil distante, nada posso fazer quanto a isso, nem mesmo uma crônica forte, uma trova, uma canção ou um poema que preste.

BRASIL SURREAL

Estou em Paris, com a vida normal,
comendo o pão que o padeiro amassou,
mas quando me sento pra ler o jornal
vejo com surpresa que o Brasil pirou.
Aqui o calor está tropical,
mas no meu País dizem que até nevou,
e os políticos do Congresso Nacional
ainda não sabem que o barco virou.
A bolsa subiu, o dólar baixou,
se pode lucrar plantando laranjal;
e tem o acordo que a gente fechou
sem saber como é que será no final.
A mais nova moda é um carnaval
de povo enchendo manifestação,
até se tornou uma coisa banal
criança fazendo arminha com a mão.
A mim me parece que a coisa vai mal
e ainda pior com a Interceptação:
– Olhando daqui parece surreal
o Lula ainda estar na prisão!

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