MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Einstein disse uma vez: “Não conseguimos resolver um problema com base no mesmo raciocínio usado para criá-lo.”

Esperar que nossos problemas sejam resolvidos dentro dos conceitos e das instituições que os criaram é inútil. Achar que nossos deputados, senadores e juízes vão agir contra seus próprios interesses em nome de um “bem comum” é de uma inocência ímpar.

Um dos fundamentos mais firmes da nossa sociedade, que está na mente de praticamente todos os brasileiros, é que existem dois tipos de pessoas: as que podem tudo, ou quase tudo, e as que não podem quase nada; e para sair do segundo grupo e fazer parte do primeiro, é preciso estar junto ao estado, isto é, ao governo.

Este conceito vem de séculos; mais precisamente, da época do fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Foi a época em que se formaram os chamados Estados Nacionais, quando o poder deixou de estar disperso em centenas de pequenos principados, condados e ducados para se concentrar nos reis. Entre os reinos que se destacaram na época, pode-se citar França, Inglaterra, Espanha e Portugal. Estes dois últimos nos interessam mais, pois nossa cultura sócio-política vêm deles.

No final do século XV, duas importantes descobertas aconteceram: os portugueses descobriram como chegar à Ásia contornando o continente africano, criando uma importante linha comercial; e os espanhóis descobriram o continente que viria a ser chamado de América. No século seguinte, o comércio com a Ásia e a exploração das minas de prata americanas trouxeram enormes riquezas para os reinos de Portugal e Espanha. Importante: tanto uma atividade como a outra eram monopólio do Estado; a riqueza vinha diretamente para o Estado, e, portanto, a única maneira de ser rico era estando junto do Estado.

O Brasil foi sendo povoado pelos portugueses (e alguns outros emigrantes), criou cidades, tornou-se sede do governo quando recebeu a côrte em 1808 e proclamou sua independência em 1822, passando a ser um país independente. O modelo econômico permaneceu o mesmo: a riqueza deve pertencer ao Estado. É o velho e conhecido círculo: Buscar o poder para conquistar mais riqueza, e buscar a riqueza para conquistar mais poder.

Nestes quase duzentos anos de independência, não passou um único dia em que os brasileiros não vivessem e sentissem na pele esta realidade: o poder e a riqueza pertencem ao Estado, não importam as demagogias que se escrevem na Constituição. “Todo poder emana do povo” é apenas uma frase de efeito, de certo mau gosto, que ninguém leva a sério.

É até difícil condenar nossos políticos e nosso judiciário por serem como são; eles são, afinal, apenas frutos de um sistema. Qualquer um que ganha uma eleição ou passa em um concurso passa subitamente a fazer parte de um “reino encantado”, onde todas suas vontades são satisfeitas, todas suas necessidades são supridas, cada movimento é acompanhado por uma côrte de serviçais, ajudantes, assistentes, criados, todos eles recebendo avidamente as migalhas de riqueza que o Estado distribui. Para este séquito, ser puxa-saco, subserviente e solícito até o ponto da humilhação não é um grande sacrifício diante da chance de viver no ambiente do poder. As vantagens compensam estes dissabores.

Nossos juízes e políticos estão acostumados a ganhar, além de seu salário, auxílio-moradia, auxílio-vestuário, auxílio-alimentação, auxílio-saúde, auxílio-educação, auxílio-transporte, auxílio para praticamente tudo. Tudo aquilo que para nós, pobres mortais, é pago com nosso salário, para eles é um direito adquirido. De cada pequeno desconforto que a vida possa trazer, sua excelência será poupada. Sua excelência deseja um carro novo? O carro novo aparecerá em sua garagem. Sua excelência deseja redecorar sua casa? A reforma acontecerá, sem que sua excelência precise ter a mais vaga idéia de quanto custou ou de onde veio o dinheiro. E não esqueçamos que cada ministro do Supremo têm à sua disposição um funcionário cuja tarefa principal é ajudá-lo a vestir a toga antes de cada julgamento.

Alguém acredita que alguém, vivendo deste modo, manterá alguma noção da realidade e agirá de foma condizente com esta? Só mesmo ignorando completamente a natureza humana. Pessoas são movidas por interesses. O interesse de todos os milhões de brasileiros que vivem às custas do governo é que tudo continue exatamente como está.

Para ser mais enfático: O Brasil não vai se transformar em um país sério, honesto ou produtivo com as instituições que tem. Nosso Congresso não vai consertar nossas leis ou nossa Constituição. Nosso judiciário não vai trabalhar em prol da justiça. Não importa se temos uma Lava-Jato. A corrupção do governo não é um erro ou um desvio: é a sua razão de ser. O roubo, o desperdício, a ineficiência são os objetivos do Estado: garantir que tudo permaneça como está é a primeira preocupação de cada um dos integrantes deste mecanismo (como chamou o cineasta José Padilha).

Nenhum país do mundo passou de corrupto e sub-desenvolvido para honesto e desenvolvido por iniciativa de seu governo, seus políticos ou seus juízes. Quando isto aconteceu, e os casos não são muitos, foi através de revoluções, não de “respeito às instituições”. E é fácil afirmar que aqui, graças à “índole pacífica e ordeira do povo brasileiro”, as chances são mínimas.

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