FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

Parabenizando com euforia a UPE e a UNICAP pelo convênio firmado recentemente, indagaria a ambas se não teria chegada a hora de se estruturar, em Pernambuco, uma Secretaria de Ensino Superior, com um Conselho de Educação Superior, desafogando a atual Secretaria de Educação de Pernambuco e dinamizando IES públicas e privadas?

Outro dia li uma declaração de pesquisador do Reino Unido, Ronald Barnett, com a qual concordo integralmente: “A universidade pós-moderna está transformando a maneira como nós educadores e gestores teremos de lidar com os desafios que estão surgindo e repensar como nossas Instituições irão sobreviver em uma era de supercomplexidades.”

Em nosso estado, os dirigentes de ensino superior bem que poderiam distribuir nos primeiros dias de aula dos vestibulandos, o Mapa do Fracasso, de Paul Krugman, Nobel de Economia:

1. Pensar em curto prazo – Não projetar, nem raciocinar para além de cinco anos;

2. Ser obsessivo – Ter como objetivo ganhar sempre, sem considerar os seus limites;

3. Acreditar que existe sempre alguém mais tolo do que você – Desprezar o ditado que diz “Sempre haverá alguém, como você, suficientemente estúpido para só perceber o que está acontecendo quando for tarde demais”;

4. Acompanhar a manada – Não ouvir as vozes discordantes, que são até ridicularizadas e silenciadas;

5. Generalizar sem limites – Criar preconceitos e condenar ou louvar instituições e pessoas por critérios difusos e subjetivos, na maioria bestiais;

6. Seguir a tendência – Procurar ver o que está dando certo, copiando acriticamente e esperar que os resultados se repitam;

7. Jogar com o dinheiro dos outros – Progredir com o investimento alheio.

Em época de passividades mil que estamos vivenciando, urge um planejamento estratégico não vago nem fantasioso, tampouco carimbológico, não obstaculizando metas sementeiras, nem favorecendo a diluição demagógica dos objetivos estabelecidos.

Em toda universidade ou instituição de ensino superior do Estado de Pernambuco, pública ou particular, o como começar não deverá ser viabilizado de uma única maneira. Cada uma deverá preservar suas peculiaridades, que exigirão procedimentos específicos capazes de proporcionar um aproveitamento ideal entre talento e experiências já vivenciadas.

Na construção de horizontes universitários mais promissores para Pernambuco, todo cuidado é pouco com os medíocres. Necessitamos, através das múltiplas maneiras de debater e deliberar com objetividade, presencial ou onlinemente, as diretrizes alavancadoras para o nosso ensino superior:

1. Qual é a missão do ensino superior estadual?; 2. Como saber bem diferenciar erro de negligência?; 3. Que iniciativas poderão, a curto e médio prazos, serem implementadas diante das mudanças velozes que estão se processando?; 4. Como efetivar o planejamento estratégico com maturidade, sem as fobias advindas da idiótica dicotomia direita-esquerda? 5. Como ser dirigentes conscientes, sem bajulações e subserviências?; 6. Como assimilar o desconhecido, sempre se vendo como um eterno aprendiz, sabendo bem diferenciar aprender e apreender?; 7. Que razões mais substantivas exigem ações sem procrastinações?; 8. Como explicitar inquietações propositivas, nunca se comportando tal e qual aquele cego num quarto escuro procurando um gato preto que lá não mais se encontra?; 9. Como favorecer uma maior integração operacional – ensino x pesquisa x extensão x divulgação – entre todas as IES estaduais?; 10. Como combater a “cegueira do progresso”, expressão feliz do filósofo Adorno, evitando a transformação da vida universitária brasileira em espetáculo circense?

Não seria o caso de analisar melhor a Secretaria de Ensino Superior de São Paulo, uma iniciativa eminentemente catapultadora? Ou de se instituir uma Federação de Ensino Superior de Pernambuco – FESUPE -, sem vínculos oficiais, envolvendo iniciativas públicas e particulares, capaz de favorecer uma dinâmica integração Tecnologia x Ciências Sociais e Humanas x Área Médica x Ciências Exatas, para alavancar uma nova era iluminista para um estado que muito amamos?

Pensar um tiquinho mais nunca fez mal a ninguém.

4 pensou em “POR UM NOVO ENSINO SUPERIOR EM PERNAMBUCO

  1. Proposta bastante interessante, mas contendo um dos grandes problemas da administração pública brasileira: cargos.
    Infelizmente essas ideias, como temos visto ao longo dos anos, para serem postas em execução, via de regra, conduzem à criação de um ente executor, que, no caso, chamar-se-iam, como vimos na proposta em discussão “[em Pernambuco,] uma Secretaria de Ensino Superior, com um Conselho de Educação Superior,”, com o seu caudal de cargos e funções como Secretário de Estado e seu gabinete; Presidente do Conselho e seu secretariado; e muitas outras funções e cargos intrínsecos a órgãos dessa natureza.
    Dividir o existente? Nunca…
    Como bem diz a sabedoria popular, de boas intenções o inferno está cheio, coloquemos mais esta no velho baú do esquecimento, para não termos mais um ‘trem bala’…

  2. A esperança é a última que morre, amigo Arael. Se não fosse assim, babau evolução planetária. E as maçãs continuariam a cair nas cabeças dos desatentos Newtons…

  3. Caro Mestre,

    Ouso tecer alguns comentários sobre a sua proposta, mesmo não sendo muito chegado às sutilezas burocráticas pois sempre desempenhei funções de reles e mísero professor.

    Tenho a impressão que esta proposta só irá fornecer MAIS DO MESMO! Mais uma estrutura burocrática e cheia de politicagens.

    Como sou um eterno sonhador, meu grande sonho é a criação de uma CASTÁLIA. Aquela escola descrita no livro “O Jogo das Contas de Vidro”, de Hermman Hesse.

    Um local onde as crianças que demonstrassem aptidões especiais pudessem desenvolver sem limites todo o potencial que lhes foi concedido pela providência divina, ao invés de serem permanentemente castradas intelectualmente e marginalizadas por uma estrutura de “ensino” que visa muito mais ao enquadramento do desviante na manada de ruminantes, que qualquer outra coisa. E ainda tem o desplante de chamar este crime hediondo de “Educação”.

    Isso, quando não manuseiam e manipulam as mentes para entupi-las de ideologias escrotas.

    Como se faria isso? Sinceramente? Não sei! Aceito sugestões.

    • Caríssimo Adônis,
      Vocare, vocare, vocare…
      Mergulhar na leitura de Hesse e particularmente “O jogo das contas de vidro” não é tarefa das mais fáceis. Precisa ter algo parecido com a disciplina hindu. O Nobel de literatura foi concedido a Hermman, exatamente, em função deste livro.

      Hesse (autor preferido de Sancho), em suas obras, sempre autobiográfico, revela-se mais uma vez presente na obra, desta feita como José Servo, o personagem central, pertencente a um grupo hermeticamente fechado, altamente hierárquico, galgando o mais alto topo desta hierarquia, e sua fidelidade absoluta a princípios.

      Falamos da ordem de Castália (espiritual altamente intelectual e elitizada). O longo romance, 668 páginas em 12 capítulos na edição lida por Sancho é para maratonistas literários.

      As disciplinas fundamentais desenvolvidas eram a música, a astronomia e a matemática,instrumentalizadas através de contas de vidros, para facilitar os jogos em sua constituição. Anualmente eram realizados os grandes jogos avelórios, presididas pelo magister ludi, o mestre dos jogos.

      É isso. A obra mais importante de um Nobel de Literatura.

      Você foi longe demais para pensar o ensino brasuca, onde alunos perdem o entusiasmo com qualquer livro com mais de 10 páginas…

      INFELIZMENTE alunos brasileiros e a obra de Hesse estão mais distantes do que uma ida à Marte.

      Sobre vocação, creio que Sancho, se na infância tivesse sido apresentado a um, seria um ótimo pianista, mas (carregante mas), a única vez que toquei em um piano foi para, com meus ajudantes, colocar em meu Quixote Véi di Guerra quando fiz a mudança de um ricaço de Resende que estava dindo morar em Campos do Jordão.

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