ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Se de faca ou de punhais
Um crime de um filho ocorre,
Uma mãe agoniada
Pra casa da outra ocorre
Que a mãe do filho que mata
Conforta a mãe do que morre.

Ivanildo Vila Nova

No sertão que eu fui criado
Quando a manhã principia,
No trapézio do espaço
Uma nuvem rodopia
E o sol destranca os ferrolhos
Das portas brancas do dia.

Geraldo Amâncio

Se o pranto é irmão do riso
Nascido do mesmo amor
Tanto me faz estar rindo
Como sentindo uma dor
Que o sofrimento é da vida
Como o perfume é da flor.

Job Patriota (1929-1992)

O meu verso vai cortando
O sertão abrasador
E chega à mesma hora
Que o caboclo agricultor
Abre a camisa e se abana
Pra esfriar o calor.

Moacir Laurentino

Eu canto de noite a dia
Com acerto ou desacerto,
O verso nunca sai frouxo
E nem precisa de aperto
Pra cantar o universo,
Que a máquina de fazer verso
Nunca pediu um conserto.

Zé Cardoso

11 pensou em “POESIA PURA DOS POETAS DO SERTÃO

  1. Admiro os repentistas há muito tempor e sempre assisto a apresentações torneios de cantadores (chamados de congressos) e tive oportunidade de presenciar desafios de famosas duplas da atualidade. O repente ou cantoria é uma arte poético-musical comum no Nordeste do Brasil e caracteriza-se pela improvisação de estrofes, ou seja, pela sua composição no momento da apresentação. Cantando sempre em duplas, ao improvisar versos os repentistas dialogam um com o outro e com os ouvintes.
    O artigo está fazendo justiça aos cantadores de viola e umas dessas estrofes de autoria de Job Patriota possui versos muito bem feitos: Se o pranto é irmão do riso/Nascido do mesmo amor/Tanto me faz estar rindo/Como sentindo uma dor/Que o sofrimento é da vida/Como o perfume é da flor.

    • Vitorino,

      É gratificante receber um comentário de quem conhece de perto o admirável mundo do repente. Concordo com todos os seus argumentos expostos em texto muito bem escrito e inspirado por esses poetas encantadores.
      Aproveito o assunto para fazer um brevíssimo comentário. Uma apresentação de repentistas, acompanhados de violas, é geralmente dividida em baiões, sequências em que as estrofes são cantadas alternadamente pelos poetas, mantendo a modalidade de estrofe, a mesma toada e o mesmo assunto.

      Há dezenas de modalidades do repente, entre elas a sextilha, gabinete, o martelo agalopado e o galope à beira-mar. Quando o instrumento usado é o pandeiro, o gênero artístico é denominado coco de embolada, o ritmo é mais rápido e não necessariamente deve predominar o improviso.

      Compartilho com o prezado amigo uma sextilha do genial Job Patriota (1929-1992):

      Eu nasci em Itapetim
      Lugar onde o camponês
      Nunca estudou matemática
      Nunca aprendeu português
      Mas sabe fazer um verso
      Que Castro Alves não fez.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. Fazia muito tempo que não via uma seleção de estrofes tão lindas. Sempre tive o conceito do amor materno como o mais puro e que, sobressai entre todos os tipos de amor, por esse motivo considero a sextilha do repentista Ivanildo Vila Nova a mais criativa:Se de faca ou de punhais/Um crime de um filho ocorre,/Uma mãe agoniada/Pra casa da outra ocorre/Que a mãe do filho que mata/Conforta a mãe do que morre.

    • Adagmar,

      Muito obrigado por suas considerações a respeito do meu artigo. Concordo com seu conceito sobre o amor de mãe. Mãe é aquela que ensina os grandes valores da vida. Sob seus cuidados, os filhos exercitam, desde cedo, o amor, o respeito, a ética e a solidariedade. Toda mãe abraça grandes causas. Ela amplia horizontes e alarga abraços, cultiva flores, amizades e ambições de mudar o mundo ao seu redor.

      Compartilho um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) sobre o amor materno com a prezada amiga:

      PARA SEMPRE

      Por que Deus permite
      que as mães vão-se embora?
      Mãe não tem limite,
      é tempo sem hora,
      luz que não apaga
      quando sopra o vento
      e chuva desaba,
      veludo escondido
      na pele enrugada,
      água pura, ar puro,
      puro pensamento.
      Morrer acontece
      com o que é breve e passa
      sem deixar vestígio.
      Mãe, na sua graça,
      é eternidade.
      Por que Deus se lembra
      — mistério profundo —
      de tirá-la um dia?
      Fosse eu Rei do Mundo,
      baixava uma lei:
      Mãe não morre nunca,
      mãe ficará sempre
      junto de seu filho
      e ele, velho embora,
      será pequenino
      feito grão de milho.

      Carlos Drummond de Andrade, em “Lição de coisas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  3. Gostei da utilização do termo poesia pura que foi utilizado no título do artigo. Do meu ponto de vista, a poesia pura não pode ser senão um ideal para o poeta: o ideal de uma utilização purificada da linguagem que substituiria o ruído ordinário da linguagem, ou seja, desordenado, por uma ordem artificial em que reinaria a concordância perfeita entre o som e o sentido. Todas estrofes são belas e líricas, entretanto os versos criados pelo cantador Zé Cardoso merece nota 10: Eu canto de noite a dia/Com acerto ou desacerto,/O verso nunca sai frouxo/E nem precisa de aperto/Pra cantar o universo,/Que a máquina de fazer verso/Nunca pediu um conserto.

    • Rafael,

      Agradeço seu interessante comentário, principalmente, seu ponto de vista a respeito de poesia pura. Concordo em gênero, número e grau. Faço questão de esclarecer a diferença entre prosa e poesia como uma curiosidade relevante.

      A poesia se refere a um conteúdo textual marcado pela plurissignificação. O poema é uma estrutura textual caracterizada pela presença de versos. A prosa está relacionada a um conteúdo textual geralmente menos conotativo e mais objetivo.

      Compartilho com o prezado amigo um mote bem-humorado que foi glosado pelo talentoso repentista Zé Cardoso:

      Cantador pra cantar na minha frente
      Deus não faz, nunca fez, nem vai fazer

      Pra topar o “terror riograndense”
      Zé Viola talvez que não aceite
      Moacir diga não, Valdir enjeite
      Se Geraldo souber talvez dispense
      Vilanova sabendo que não vence
      Chega a carta, ele abre e não quer ler
      Louro Branco com medo de perder
      A desculpa é “não vou porque sou crente”
      Cantador pra cantar na minha frente
      Deus não faz, nunca fez, nem vai fazer

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  4. O repente é um gênero de poesia cantada presente em todos os estados do Nordeste do Brasil, e naqueles que receberam imigrantes nordestinos. Em duplas, os cantadores se enfrentam, alternando-se na criação de estrofes, a partir de rígidas regras de métrica e rima e respeitando a exigência de coerência temática. O artigo presta uma homenagem aos talentosos repentistas que enchem de poesia as capitais dos estados do Nordeste, as grandes cidades nordestinas e, principalmente as pequenas cidades do interior.
    A estrofe do grande repentista Geraldo Amâncio é uma das mais belas sextilhas que já tive oportunidade de conhecer: No sertão que eu fui criado/Quando a manhã principia,/No trapézio do espaço/Uma nuvem rodopia/E o sol destranca os ferrolhos/Das portas brancas do dia.

    • Dione,

      Agradeço seu comentário com observações importantes sobre o repente. Aqui, no Jornal da Besta Fubana, a gente aprende uns com os outros.
      É muito saudável essa troca de informações entre leitores fubânicos e articulistas.

      O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu no dia 11 de novembro de 2021, por unanimidade, o repente como patrimônio cultural do Brasil. Referência para a identidade da região Nordeste, o gênero é conhecido também como cantoria e tem como fundamentos verso, rima e oração.

      Compartilho um poema do versátil repentista Geraldo Amâncio com a prezada amiga;

      O LIVRO

      Rota da sabedoria
      Luz que das trevas me isenta
      Bússola que me orienta
      GPS que me guia
      Que Deus abençoe o dia
      E a hora que eu encontrei
      Da sabedoria o rei
      Meu mestre em qualquer assunto
      Respondendo o que eu pergunto
      Ensinando o que eu não sei.

      Professor que permanece
      Me ensinando lição nova
      Não grita, não me reprova
      Não argúi, não me aborrece
      Não cansa, não sente estresse
      Não fala em se aposentar
      Nada pode se igualar
      Ao teu conteúdo enorme
      Não há doutor que se forme
      Sem antes te consultar

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  5. Parabéns, Aristeu, pela excelente postagem POESIA PURA DOS POETAS DO SERTÃO!
    Gostei imensamente da sua seleção de versos e de grandes poetas!
    Entre todos, destaco:

    No sertão que eu fui criado
    Quando a manhã principia,
    No trapézio do espaço
    Uma nuvem rodopia
    E o sol destranca os ferrolhos
    Das portas brancas do dia.

    Geraldo Amâncio

    Uma ótima semana, plena de alegria, saúde e Paz!

  6. Violante,

    Grato por seu excelente comentário a respeito da seleção de estrofes dos nossos grandes repentistas. Geraldo Amâncio é um dos maiores poetas, cantadores e repentistas da atualidade e um dos mais respeitados ícones da cultura popular brasileira. Aproveito a oportunidade para compartilhar um episódio da vida de Geraldo Amâncio.

    Certa vez, numa cantoria pediram para Geraldo Amâncio cantar o seguinte mote:

    Não há quem substitua
    A mulher que a gente ama.

    Os dedos escorregaram pelas cordas da viola e o pensamento disparou estes belos versos:

    Ela partiu desde logo,
    A outro amor não me entrego
    Em ondas de dor me navego
    Em mar de pranto me afogo
    Pra matar o tempo eu jogo
    Dominó, baralho e dama;
    Porém junto ao meu pijama
    Outra não dorme e nem sua,
    Não há quem substitua
    A mulher que a gente ama.

    Não saberei resistir
    Destruo a vida em pedaços
    Se das curvas dos meus braços
    Por acaso ela fugir,
    Para substituir
    Essa que me acende a chama,
    Eu não encontro outra dama
    Do céu, do sol nem da lua,
    Não há quem substitua
    A mulher que a gente ama.

    Desejo uma semana plena de paz, saúde e a inspiração de sempre!

    Aristeu

  7. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo estes lindos versos do grande poeta, repentista e cantador Geraldo Amâncio!
    O episódio da cantoria foi ótimo!

    O mote “Não há quem substitua
    A mulher que a gente ama” foi glosado à altura! As glosas são lindíssimas!

    Gostei imensamente!

    Desejo a você também, uma semana plena de paz, saúde e inspiração!

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