ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Eu aprendi com a vida
Ser professor sem escola;
Ser revolucionário
Sem guerrilha e sem pistola;
Transmitir a voz do povo
Pelas notas da viola.

Ivanildo Vila Nova

Por entre fracos e fortes
Vou enfrentando a lida
Se eu me perder por acaso
Pelas estradas da vida
Volto seguindo as pegadas
Que deixei soltas na ida.

Francisco Raulino

Eu conheci um poeta,
Boêmio, assim como eu;
Que na sua mocidade
Estragou, jogou, bebeu;
Depois que ficou sem nada
Voltou pedindo a quem deu.

Zé Catota (1917-2009)

O caminhoneiro é quem
Guia atento e pisa fundo;
De quando em quando na pista
Aparece um vagabundo
Atrás de cortar a vida
De quem vai cortando o mundo.

Raimundo Caetano

No inverno estou feliz,
Trabalhando o meu dia,
Olhando o saguim na mata,
Que saltita, canta e pia,
E o passa-sebo furando
A casca da melancia.

Moacir Laurentino

11 pensou em “POESIA PURA DOS POETAS DO SERTÃO

  1. Os repentistas são importantes personagens da cultura popular nordestina, são contadores de causos e situações que envolvem a fauna, a flora, as pessoas, fatos atuais e também acontecimentos inusitados que chamam a atenção de moradores da região.

    O cantador de viola utiliza o repente como forma para expressarem toda a sua sabedoria popular. O artigo com uma seleção de estrofes bem elaboradas é uma contribuição para que esta arte de utilidade para a riqueza do nosso floclore seja conhecida por um mairor número de pessoas. Registro uma sextilha do poeta repentista Moacir Laurentino como uma das mais belas que já li ou ouvi nas cantorias de viola: No inverno estou feliz,/Trabalhando o meu dia,/Olhando o saguim na mata,/Que saltita, canta e pia,/E o passa-sebo furando/A casca da melancia.

    • Antônio,

      Grato por seu formidável comentário.A cantoria, conhecida também como repente, é uma arte poéticomusical comum no Nordeste, bem como em locais que receberam grandes contingentes de migrantes nordestinos, como São Paulo e o Distrito Federal. Seus poetas são chamados de cantadores, repentistas ou violeiros, e atuam sempre em duplas, alternando-se no canto de estrofes compostas sob regras bastante rígidas de rima, métrica e coerência temática. Sua característica fundamental é o improviso, ou seja, a criação dos versos no momento da apresentação.

      A capacidade de sustentar o diálogo poético em apresentações que podem durar horas, respondendo às estrofes do parceiro e a pedidos dos ouvintes, é o aspecto mais intrigante e encantador dessa arte.

      Compartilho com o prezado amigo uma estrofe, considerada uma das mais belas sextinhas sobre a saudade, do poeta repentista Antonio Pereira (1891 – 1982):

      A saudade é um parafuso
      Que quando a rosca cai
      Só entra se for torcendo
      Porque batendo não vai.
      Mas quando enferruja dentro
      Nem distorcendo não sai.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. Considero-me uma fã do Jornal da Besta Fubana, principalmente, desse artigo que proporciona conhecimento sobre a cultura popular. Desde cede sempre tive curiosidade de ler sobre o folclore e li os livros de Leonarda da Mota e Câmara Cascudo. Assisto a Festivais de Cantores, Desafios de Repentistas e quando posso e Encontro de Campeões do Repente, entre outros. A poesia pura dos repentistas foi um nome apropriado. Faço questão de confirmar a estrofe do poeta e repentista Francicos Raulino como uma das melhores entre tantas pérolas: Por entre fracos e fortes/Vou enfrentando a lida/Se eu me perder por acaso/Pelas estradas da vida/Volto seguindo as pegadas/Que deixei soltas na ida.

    • Cristina,

      Muito obrigado por suas considerações a respeito do admirável mundo do repente. Luís da Câmara Cascudo e Leonardo Mota foram dois advogados que optaram pelo Folclore. Leonardo da Mota fora um viajante-narrador insigne, cruzara os sertões relatando e entrevistando homens, imortalizou a vida num sertão ainda a se integrar na modernidade. Câmara Cascudo dispensa comentários, folclorista universal, imortalizado por uma obra que constitui a própria caracterização do Brasil como nação pelo aspecto cultural.

      Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para enviar a prezada amiga esta sextilha do poeta repentista João Paraibano (1952-2014) abordando o amor materno:

      Branca, preta, pobre e rica,
      Toda mãe pra Deus é bela;
      Acho que a mãe merecia
      Dois corações dentro dela:
      Um pra sofrer pelos filhos;
      Outro pra bater por ela.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  3. Leitor antigo da cultura popular quero parabenizar por prestar esta coluna por servir como vitrine para apresentar toda a beleza da arte da Cantoria de Viola. Repente (conhecido também como Cantoria) é uma arte brasileira baseada no improviso cantado, alternado por dois cantores, daí o nome repente. O Repente na Cantoria de viola é desenvolvido por dois cantores acompanhados por violas (comumente a viola dinâmica de 10 cordas) na afinação nordestina.

    Uma apresentação de repentistas, acompanhados de violas, é geralmente dividida em baiões, sequências em que as estrofes são cantadas alternadamente pelos poetas, mantendo a modalidade de estrofe, a mesma toada e o mesmo assunto.

    Conhecedor de muitos dos repentistas citados no artigo vou procurar ser imparcial para escolher os versos do poeta repentista Ivanildo Vila Nova como aqueles que mais me impressionaram: Eu aprendi com a vida/Ser professor sem escola;/Ser revolucionário/
    Sem guerrilha e sem pistola;/Transmitir a voz do povo/Pelas notas da viola.

    • Vitorino,

      É gratificante receber suas ponderações sobre a Cantoria de Viola. Concordo com todos os seus argumentos expostos de forma objetiva e simples a fim de que todos que tenham curiosidade de conhecer o admirável mundo do repente compreendam essa belísima arte de fazer poesia falada. Desejo apenas fazer uma breve reflexão sobre tema que tanto apreciamos.

      Na cantoria, os versos são improvisados ao som das violas sobre melodias tradicionais chamadas de toadas. Há toadas próprias para cada modalidade5 de estrofe, e elas formam um acervo coletivo dos cantadores. No modo mais comum de apresentação, as chamadas cantorias de pé de parede, esses poetas atendem a pedidos da platéia por assuntos e modalidades.

      Há cantorias em que a plateia paga ingresso para assistir, e outras em que, nos momentos iniciais da cantoria ou ao fazer pedidos, o ouvinte coloca o dinheiro sobre uma bandeja situada em frente à dupla. Os cantadores atendem também a pedidos por peças pré-compostas, que são os poemas e as canções.

      Compartilho com o prezado amigo uma sextilha com temática religiosa do poeta repentista Zé Viola:

      Numa expressão de bondade
      Teus atos são concluídos
      Jesus, Tu és claridade
      Refúgio dos excluídos
      Tecidos finos das pétalas
      Dos paraísos perdidos.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  4. O artigo de hoje está lindo e merece ser divulgado nas redes sociais para quem não conhece a arte do repente passar a ter uma noção do que é improvisar na hora e elaborar estrofes que de tão bonitas ficam gravadas nas memórias dos apologistas e daqueles que curtem a beleza pura dos versos dos cantadores de viola. Estou aprendendo muito com depoimentos de quem já cultiva o gênero de poesia cantada presente em todos os estados do Nordeste do Brasil. Em duplas, os cantadores se enfrentam, alternando-se na criação de estrofes, a partir de rígidas regras de métrica e rima e respeitando a exigência de coerência temática.

    Estou aniversariando nesse mês de abril e não poderia receber melhor presente do que conhecer a estrofe do repentista Zé Catota (1917-2009): Eu conheci um poeta,/Boêmio, assim como eu;/Que na sua mocidade/Estragou, jogou, bebeu;/Depois que ficou sem nada/Voltou pedindo a quem deu.

    • Dagmar,

      Em primeiro lugar, meus parabéns pelo seu aniversário no mês de abril. A criatividade dos repentistas sempre me surpreendem tanto na leitura de livros quanto assistindo apres suasentações. Aproveito o tema tão inspirador para fazer uma breve reflexão sobre o repente.

      O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu em 11 de novembro de 1921, por unanimidade, o repente como patrimônio cultural do Brasil. Referência para a identidade da região Nordeste, o repente é conhecido também como cantoria e tem como fundamentos verso, rima e oração.

      Os repentistas ou cantadores se espalham pelas capitais e interior dos estados do Nordeste brasileiro e também nas regiões para onde ocorreram migrações de nordestinos. A votação foi feita pelos 22 membros do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão vinculado ao Iphan.

      Com o reconhecimento pelo conselho consultivo, o repente foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão, onde também estão catalogados bens como a roda de capoeira, o maracatu nação (PE), o carimbó (PA) e a literatura de cordel. A partir de então, o repente passa a ser alvo de políticas públicas para a salvaguarda da manifestação, que devem incidir ainda sobre um universo de bens associados que inclui a embolada, o aboio, a glosa e a poesia de bancada e declamação.

      Compartilho com a prezada amiga uma sextilha do grande poeta repentista Geraldo Amâncio abordando a fauna:

      O amor de duas feras
      Que também se querem bem
      Tem o mesmo amor do homem
      Quando ama e abraça alguém
      Só não tem a falsidade
      Que o amor do homem tem.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  5. Parabéns, prezado poeta Aristeu, pela excelente postagem POESIA PURA DOS POETAS DO SERTÃO!
    Gostei imensamente da seleção de poetas, e das sextilhas, cada qual a mais bonita!

    Destaco a de Ivanildo Vila Nova:

    “Eu aprendi com a vida
    Ser professor sem escola;
    Ser revolucionário
    Sem guerrilha e sem pistola;
    Transmitir a voz do povo
    Pelas notas da viola.”

    Uma ótima semana, com muita saúde, inspiração e Paz!

  6. Violante,

    Grato por seu comentário competente sobre as estrofes selecionadas para esse artigo. Saiba que o meu trabalho é facilitado por encontrar sempre versos magníficos, então só tenho prazer nessa minha pesquisa. Vou fazer um resumo da vida longa e de sucesso de Ivanildo Vila Nova.

    Ivanildo Vila Nova é considerado um dos maiores repentistas em atividade. Chegou a ser eleito pelos seus pares como o “Cantador do Século XX”. Com 60 anos de carreira, foi uns dos principais personagens na profissionalização do repente. O pernambucano já levou a cantoria nordestina para todos os cantos do Brasil e continua sendo figura constante nos festivais. Profissional da cantoria desde 1963, Ivanildo tem participação em mais de 500 congressos, noitadas e torneios de cantadores.

    O poeta repentista é o autor da canção Nordeste Independente (parceria sua com Bráulio Tavares) gravada pela cantora Elba Ramalho. Já se apresentou em seis países da Europa. Também fez uma apresentação nas Tores Gêmeas, em Nova York, ao lado de Oliveira de Panelas, uma semana antes do atentado de 11 de setembro. É considerado por muitos o maior cantador da história da cantoria de viola.

    Compartilho com a prezada amiga uma sextilha do notável poeta repentista Ivanildo Vila Nova:

    Músculos e células se agitam
    Nos corpos de dois aedos,
    Dez dedos bolem nas cordas,
    Duas mãos movem dez dedos,
    A mente prepara as frases
    E a boca conta os segredos.

    Desejo uma semana com paz, saúde e a inspiração de sempre!

    Aristeu

  7. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo uma belíssima sextilha do poeta Ivanildo Vila Nova, considerado um dos maiores repentistas em atividade. Chegou a ser eleito pelos seus pares como o “Cantador do Século XX”. Com 60 anos de carreira, foi uns dos principais personagens na profissionalização do repente. O pernambucano já levou a cantoria nordestina para todos os cantos do Brasil e continua sendo figura constante nos festivais. Profissional da cantoria desde 1963, Ivanildo tem participação em mais de 500 congressos, noitadas e torneios de cantadores.
    .
    Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo uma sextilha do notável poeta repentista Ivanildo Vila Nova, que diz::

    “Músculos e células se agitam
    Nos corpos de dois aedos,
    Dez dedos bolem nas cordas,
    Duas mãos movem dez dedos,
    A mente prepara as frases
    E a boca conta os segredos.”

    Uma ótima semana!

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